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Arberry al-Muhasibi


ARBERRY, A. J. Le soufisme: La mystique de l’Islam. Jean Gouillard. Paris: Editions Le Mail, 1988

Veja: versão francesa, da tradução abaixo

O primeiro autor sufi cujos escritos nos chegaram e tenham realmente preparado o molde de todo o pensamento posterior é al-Harith b. Asad al-Muhasibi. Nascido em Basra em 165/781, veio muito cedo a Bagdá, onde deveria transcorrer a maior parte de sua vida. Ali morreu em 243/837. Profundamente versado no hadith, não poupou esforços para dar a seus ensinamentos o selo da autoridade apostólica, o que não impediu Ahmad b. Hanbal de condená-lo como fraco em Tradição; e teve durante algum tempo de refugiar-se em Basra.

Um de seus discípulos, o famoso al-Junaid, deixou um quadro sugestivo de seus rapportos com seu mestre:

Al-Harith b. Asad al-Muhasibi costumava vir à minha casa e me dizia: "Vem, vamos moer." Eu lhe dizia: "Queres arrancar-me de minha solidão e de minha segurança espiritual para me arrastar pelos grandes caminhos e seduções, e ver espetáculos lascivos?" Ele me respondia: "Saímos juntos: não tens nada a temer." Quando chegávamos a um certo lugar, sentava-se e me dizia: "Faz-me uma pergunta." Eu respondia: "Não tenho pergunta a fazer-te?" "Então", me dizia ele, "pergunta-me o que te vier à mente." Nesse momento, as perguntas caíam sobre mim, eu o interrogava e ele me respondia imediatamente, depois regressava a sua morada e disso fazia livros.

O mestre sufi não faz exceção ao uso de todos os letrados da época: escreve seus grandes obras para responder às perguntas de um discípulo. A composição dos livros de al-Muhasibi, sobretudo de sua obra mestra, al-Ri'aya li-huquq Allah, confirma plenamente a descrição que se acaba de ler.

O essencial dos escritos de al-Muhasibi versa sobre o desprendimento de si — seu nome está ligado à muhasaba, o exame de consciência — e sua al-Ri'aya em particular exerceu forte influência sobre o ilustre al-Ghazali (morto em 505/1111) quando empreendeu sua Ihya' ulum al-din, de que falaremos novamente. Seu Kitab al-Wasaya (ou al-Nasa'ih) forma uma série de sermões de tema sobretudo ascético. A introdução, de caráter autobiográfico, poderia bem ter inspirado al-Ghazali quando escreveu seu célebre al-Munqidh min al-dalal. Alguns extratos emprestados de um manuscrito ainda inédito da Wasaya darão uma ideia do conteúdo e do tom.

Nossa comunidade chegou em nossos dias a estar dividida em 70 seitas e mais: uma só está na via da salvação; para as outras, Deus sabe melhor o que as espera. Não cessei em nenhum momento de minha vida de considerar bem as diferenças em que caiu a comunidade e de buscar a via desimpedida e o verdadeiro caminho; busquei ao mesmo tempo a teoria e a prática e me pus em busca, para me guiar na rota do mundo vindouro, da direção dos teólogos. Além disso, estudei muito a doutrina do Todo-Poderoso com a interpretação dos juristas, e refleti sobre as condições diversas da comunidade, e considerei suas diversas doutrinas e seus propósitos. De tudo isso compreendi na medida em que me havia sido assinalado compreender; vi que sua divergência era uma espécie de mar profundo no qual muitos se afogaram e do qual poucos apenas escaparam; vi cada campo afirmar que a salvação se encontrava em sua imitação e que a ruína esperava o adversário. Considerei então as diversas classes de homens. Há os que conhecem a natureza do mundo vindouro e lhe dão a preferência; esses são difíceis de encontrar mas são muito preciosos. Alguns ignoram tudo desse mundo: é uma vantagem estar longe deles. Alguns se vangloriam de assemelhar-se àqueles que o conhecem mas estão apaixonados pelo mundo presente e lhe dão a preferência. Alguns têm um conhecimento confuso do outro mundo mas se servem dele para buscar consideração e avanço e se servem desse desprendimento para se prover dos bens deste mundo. Alguns fingem assemelhar-se aos devotos e ao bom rebanho mas são desprovidos de força; seu conhecimento carece de penetração e não se pode dar crédito a seu juízo. Alguns têm a inteligência e a sagacidade mas lhes falta a piedade e a bondade. Alguns seguem em segredo seus desejos, ambicionam as vantagens do século e brigam pelo poder sobre os homens. Alguns são demônios sob forma humana; desviam seu rosto do mundo vindouro e se lançam com ardor insensato sobre este mundo, ávidos de se apoderar dele e de se enriquecer. Parecem viver mas, em verdade, estão mortos; a seus olhos a virtude é uma abominação e a má conduta uma virtude. Em todas essas classes busquei meu objeto sem poder encontrá-lo. Então busquei a direção daqueles que eram bem guiados, solícitos pela retidão da verdade e por uma orientação: empreguei-me em conhecer o itinerário, por meio de profundas reflexões e longas considerações. Então me apareceu claramente pelo Livro de Deus, a prática do Profeta e o consentimento dos crentes que a perseguição do desejo torna cego para a boa direção e afasta da verdade, instalando o homem por muito tempo na cegueira. Pus-me portanto a expulsar o desejo de meu coração. Detive-me ante as divergências da comunidade, buscando ardentemente o campo da salvação, ansioso por evitar os cismas e as seitas funestas votadas à ruína, pois receava morrer antes de ter encontrado a luz. De todo meu coração busquei a via da salvação e descobri, graças ao consentimento dos crentes tocante ao Livro revelado de Deus, que a via da salvação consiste em contrair o temor de Deus e cumprir suas prescrições abstendo-se igualmente do que permitiu e proibiu, executando tudo o que ordenou, a obediência sincera a Deus e a imitação de seu Profeta. Busquei portanto informar-me das leis divinas e das práticas do Profeta assim como da piedosa conduta dos santos. Vi que havia aí ao mesmo tempo concordância e oposição, mas descobri que todos os homens estavam de acordo que as prescrições divinas e as práticas do Profeta deviam ser buscadas junto àqueles que, conhecendo Deus, penavam para obter sua complacência. Busquei portanto entre os membros da comunidade gente dessa sorte a fim de marchar sobre suas pegadas e adquirir deles o conhecimento; vi que eram extremamente raros e que seu conhecimento estava inteiramente apagado. Como disse o Profeta: "O Islã tornou-se um estrangeiro e tornará a ser o estrangeiro que começou por ser." Qual não foi então meu transtorno de não poder encontrar homens que temessem a Deus para serem meus guias, pois receava que a morte não caísse subitamente sobre mim, enquanto minha vida estava ainda nessa confusão. Perseverei na busca daquilo que devia a todo custo conhecer sem relaxar nada de minha prudência nem estar abaixo de meu propósito. Então o Deus Misericordioso me fez conhecer gente em quem descobri meus guias tementes a Deus, meus modelos de piedade que davam a preferência ao mundo vindouro sobre o mundo presente. Recomendavam sempre a paciência nas dificuldades e na adversidade, a submissão ao destino, o reconhecimento dos benefícios recebidos; buscavam ganhar os homens para o amor de Deus, recordando-lhes sua Bondade e pressionando-os para que se arrependessem. Esses homens aprimoraram a natureza da conduta religiosa e prescreveram regras de piedade que não está em meu poder seguir. Conheci portanto que a conduta religiosa e a verdadeira piedade são um mar no qual meus semelhantes devem necessariamente se afogar e que um homem como eu nunca poderá explorar. Então Deus me abriu um conhecimento no qual a prova era clara e a decisão esplêndida e concebi a esperança de que quem se aproximasse desse conhecimento e o fizesse seu seria salvo. Vi portanto que me era necessário adotar tal conhecimento e praticar suas prescrições; acreditei nele em meu coração e o abracei em meu espírito e dele fiz o fundamento de minha fé. Sobre ele edifiquei minhas ações, nele instalei todos meus atos; rogo a Deus que aguce minha gratidão em retorno de tal favor e que me faça observar os decretos que assim me ensinou. Sei no entanto minha impotência para isso e que nunca poderei agradecer suficientemente a Deus por tudo o que fez a meu respeito.

O Kitab al-Tawahhum de al-Muhasibi é uma evocação alta em cor e poderosa dos terrores da morte e do Juízo que desemboca em uma descrição esplêndida da visão beatífica. Mas seu pensamento mais original não está aí; é preciso buscá-lo em seu tratado sobre o Amor (fasl fi 'l-mahabba) que nos é conhecido apenas por citações. Um passagem dará alguma ideia de sua subtileza e de sua originalidade ao mesmo tempo.

Pergunta. — O que é o Amor Primordial?

Resposta. — O amor da Fé; Deus deu testemunho ao amor do fiel quando disse: "E aqueles que creem amam Deus mais fortemente" (C. 2.160). A luz do desejo ardente é a luz de amor (mahabba); sua superabundância é da luz de dileção (widad). O desejo ardente é agitado no coração pela luz de dileção. Quando Deus acende essa lâmpada no coração de seu servo, ela queima com veemência nas fendas de seu coração até que dele seja iluminado, e essa lâmpada não se apaga senão se o homem olha suas ações com olho de complacência. Pois, se um homem, em sua ação, se sente a salvo da malícia de seu adversário (Satanás), exibirá essa ação sem temer ser privado (da graça divina); a vaidade se apodera então de seu coração, sua alma se precipita na vã glória e o coração de Deus desce sobre ele. É justo que, se um homem a quem Deus confiou o depósito de seu amor, abandone as rédeas de sua alma às mãos da complacência, a perda (da graça de Deus) o conduza rapidamente a uma ruína completa. Uma piedosa mulher disse: "Ah! se ao menos Deus tivesse concedido àqueles que desejam ardentemente encontrá-lo um estado tal que, ao perdê-lo, fossem privados da felicidade eterna!" Perguntou-se-lhe: "O que seria esse estado?" Ela replicou: "Olhar sua grande (virtude) como pequena e admirar-se de que seu coração tenha jamais podido tornar-se o objeto dessas favores (divinas)." Perguntou-se a um homem piedoso: "Fala-nos de teu desejo ardente de Deus, qual é seu peso em teu coração?" Respondeu: "É a mim que fazes tal pergunta? Não há nada em meu coração que possa ser pesado, salvo na presença da alma e, quando a alma está presente no momento em que o coração goza da herança da proximidade (de Deus), sua alegria é logo perturbada e se transforma em angústia." Mudar o Leitor, à pergunta: "O que vale mais para aquele que ama: o temor ou o desejo ardente?", respondeu: "É uma pergunta à qual não posso responder: a alma nunca portou o olhar sobre coisa alguma sem corrompê-la." 'Abd al-'Aziz b. 'Abd Allah me recitou estes versos sobre o mesmo assunto:

O melhor para o pecador é o desgosto e o temor,
Quando quer voltar-se para Deus para a oração.
O coração obediente e puro
Só pode no Amor habitar em segurança;
Mas aqueles que são grandes e sábios
Olham Deus com os olhos do desejo ardente.

"Diz-se que o amor é desejo ardente porque só se deseja ardentemente o que se ama. Não há distinção entre amor e desejo ardente, o desejo ardente é um ramo do amor primordial. Diz-se igualmente que o amor se manifesta por suas marcas no corpo dos amantes e em sua linguagem, como também pela multidão de favores de que gozam graças a sua união constante com o Bem-Amado. Quando Deus torna-se seu amigo, concede-lhes seus favores e quando esses favores se manifestam, reconhece-se seu amor de Deus. O amor não tem, por si mesmo, nem configuração nem forma que o manifeste, pois é sua natureza e sua forma ser conhecido. É o amante que é conhecido por seu caráter e a multidão de favores que Deus desdobra sobre sua língua, guiando-o suavemente, e pelo que é revelado a seu coração. Quando as raízes desses favores estão solidamente estabelecidas em seu coração, a língua fala de seus ramos, e os favores de Deus chegam ao coração daqueles que o amam. O sinal mais claro do amor de Deus é a palidez extrema unida a uma meditação contínua e uma vigília prolongada, acompanhada de um abandono completo de si, em toda obediência e grande pressa antes que a morte venha sobre ele; e o amante fala do amor na medida da luz que lhe foi concedida. É por isso que se diz que o sinal do amor de Deus é a habitação das favores divinas no coração daqueles que Deus distinguiu para seu Amor. Um letrado cita estes versos sobre este tema:

Ele tem Seus raros eleitos,
Inspirados para amá-Lo em verdade;
Ele os escolheu para isso, unicamente,
Há muito tempo, muito tempo.

Escolhidos, — se Ele não os
Modelou para serem
Os vasos de seu Amor,
A prova de seus Benefícios.