ARBERRY, A. J. Le soufisme: La mystique de l’Islam. Jean Gouillard. Paris: Editions Le Mail, 1988
Veja: versão francesa, da tradução abaixo
Faz-se às vezes mérito a Ahmad b. 'Isa al-Kharraz (morto em 286/899) de ter reconciliado esse desenvolvimento audacioso mas lógico com as doutrinas ortodoxas sobre a Unidade divina (tawhid). Ao certo, seu Kitab al-sidq, o único de seus escritos que possuímos, situa-se sensivelmente mais baixo na escala da originalidade. Esse pequeno livro não deixa de ser cheio de interesse para quem estuda o misticismo. O autor dá-se muito trabalho para demonstrar que todos os antigos profetas praticaram o gênero de vida ao qual os sufis aspiram. O ponto culminante do tratado é formado por uma descrição eloquente e, ao que parece, autêntica do estado de intimidade com Deus:
Saiba que o discípulo que persegue a verdade age em tudo pelo temor de Deus, velando sobre seu coração, sua intenção, seus membros e observando-os. Concentra sua intenção, temendo que algo estranho entre nela; receando a distração, por medo de que seus movimentos corporais manifestados em seus membros exteriores o façam faltar com algo e que as intenções que entram em seu coração não perturbem sua (única) intenção. Liberta-se assim de todos os movimentos desse gênero, mesmo justos e convenientes, pois o coração é dominado por um desejo premente que sua lembrança (de Deus) seja perpétua e sua intenção única. Se continua assim, seu coração adquire uma inteligência pronta e seus pensamentos tornam-se nítidos, e a luz habitará em seu coração: aproxima-se de Deus e Deus domina seu coração e sua intenção. Então fala e seu coração se eleva à recordação de Deus: o amor de Deus esconde-se no mais profundo de seu coração, ligado a seu espírito e não o deixando mais. Então sua alma está alegremente ocupada de uma entrevista secreta com Deus, de um estudo passionado e de uma ardente conversação. Assim está em todos seus movimentos, quer coma ou beba, durma (ou vigie): pois, quando a proximidade de Deus toma posse do coração de um homem, subjuga todo o resto, tanto as infiltrações íntimas das intenções quanto os movimentos exteriores dos membros. Em seguida, o homem continua indo e vindo, tomando e dando: é regido pela intenção que compôs seu espírito, a saber o amor de Deus e de sua proximidade.