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Arberry Ibrahim


ARBERRY, A. J. Le soufisme: La mystique de l’Islam. Jean Gouillard. Paris: Editions Le Mail, 1988

Veja: versão francesa, da tradução abaixo

De Basra e de Kufa o movimento ascético espalhou-se por todas as partes do mundo islâmico, em particular no Khorassã que se tornou, durante a segunda metade do século II/VIII, um foco importante de vida tanto política quanto religiosa. Foi no Khorassã que foi urdida a conspiração que destronou os Omíadas em benefício dos Abássidas. Esta província remota que havia sido no passado um centro florescente de budismo foi a pátria do famoso Ibrahim b. Adham, príncipe de Balkh (morto 160/777). A lenda de sua conversão ao ascetismo foi frequentemente comparada ao romance de Gautama Buddha; ela iria se tornar um tema favorito dos sufis posteriores.

Meu pai, faz-se contar a Ibrahim, era de Balkh e foi um dos reis do Khorassã. Ele era rico e me ensinou o amor da caça. Um dia em que eu havia saído a cavalo com meus cães, estes levantaram uma lebre (ou uma raposa). Esporeei quando ouvi uma voz: "Não foi para isso que foste criado, não foi isso que te ordenei fazer." Parei para olhar à direita e à esquerda mas não vi ninguém; disse: "Deus amaldiçoe o Diabo!" e esporeei novamente. Ouvi então uma voz mais imperiosa ainda: "Ó Ibrahim, não foi para isso que foste criado; não foi isso que te ordenei fazer." Parei desta vez ainda, olhei à direita e à esquerda e, não tendo visto ninguém, repeti: "Deus amaldiçoe o Diabo!" Esporeei uma terceira vez quando ouvi uma voz sair do pomo de minha sela: "Ó Ibrahim, não foi para isso que foste criado; não foi isso que te ordenei fazer." Parei e disse: Fui advertido! Isto é um aviso do Mestre dos mundos. Em verdade, a partir deste dia, não desobedecerei a Deus, enquanto o Senhor me conservar em vida." Retornei à minha escolta e abandonei meu cavalo; fui encontrar um dos pastores de meu pai e tomei dele sua túnica e seu manto em troca de minhas roupas. Parti então para o Iraque, vagando de país em país.

O relato nos descreve em seguida sua vida vagabunda em busca de uma vida "seguindo a lei"; durante certo tempo, ganha sua subsistência na Síria como jardineiro mas não tarda a ser descoberto e vai viver no deserto. Lá ele encontra anacoretas cristãos que lhe ensinam o verdadeiro conhecimento de Deus:

Apreendi a gnose (ma'rifa), contava ele a um discípulo, de um monge chamado Abade Simeão. Tendo-lhe rendido visita em sua cela, eu lhe disse: "Abade Simeão, há quanto tempo vives nesta cela?" — "Há 70 anos." — "Qual é tua alimentação?" — "Ó Hanifita, que razão te fez me fazer esta pergunta?" — "O desejo de saber", respondi. Então ele me disse: "Cada noite, um grão-de-bico." Eu lhe disse: "O que te anima para que este grão te baste?" E ele me respondeu: "Eles vêm a mim um dia cada ano, enfeitam minha cela e processionam ao redor em sinal de reverência; quando meu espírito está fatigado de rezar, eu penso naquela hora e suporto as penas de um ano inteiro em consideração de uma hora. Hanifita, suporta portanto as penas de uma hora pela glória da eternidade." A gnose naquele momento desceu em meu coração.

Um de seus discípulos tendo pedido a Ibrahim b. Adham uma definição do serviço, o mestre respondeu: "O começo do serviço é a meditação e o silêncio, exceto para a 'menção' (dhikr) de Deus." Outro dia, à notícia de que um homem estudava gramática, contentou-se em dizer: "Ele teria bem mais necessidade de aprender o silêncio."

Atribui-se-lhe esta oração: "Ó Deus, tu sabes que o paraíso não pesa para mim mesmo quanto a asa de um mosquito. Se me vens em auxílio com teu dhikr, se me sustentas com teu amor, se me facilitas a obediência, dá o paraíso a quem quiseres." Em uma carta a um de seus companheiros de ascese ele escreve:

Exorto-te a temer Deus a quem não é permitido desobedecer e em quem somente repousa tua esperança. Teme a Deus, pois aquele que teme a Deus é grande e poderoso, sua fome é satisfeita, sua sede estancada e seu espírito exaltado acima do mundo. Seu corpo habita com os deste mundo; seu coração está face a face com o mundo por vir. Quando o olho vê o amor deste mundo, a visão do coração se extingue; é por isso que o homem detestará as coisas proibidas deste mundo e renunciará a seus prazeres; sim, ele se absterá das coisas permitidas e puras, exceto dos farrapos necessários para cingir seus rins e vestir sua nudez; mesmo então, os tomará tão espessos e grossos quanto possível. Ele não tem confiança nem esperança senão em Deus, sua confiança e sua esperança são elevadas acima de toda coisa criada e repousam no Criador de todas as coisas. Ele se esforça e se esgota e extenua seu corpo por causa de Deus, de sorte que tem os olhos fundos e as costelas salientes e Deus o recompensa com um aumento de inteligência e de força de coração além de todas as outras coisas que acumulou para ele no mundo por vir. Rejeita portanto o mundo, ó meu irmão, pois o amor do mundo torna o homem cego e surdo e o reduz à escravidão. Não digas: "amanhã" ou "depois de amanhã", pois aqueles que pereceram pereceram porque permaneciam sempre em sua esperança e a verdade caiu sobre eles de repente no meio de sua distração e, teimosos que eram, foram levados a suas tumbas tenebrosas e estreitas, abandonados por seus parentes e amigos. Consagra-te a Deus com um coração penitente e com uma resolução inabalável. Adeus!