FICINO, Marsile. Théologie platonicienne de l’immortalité des âmes. Raymond Marcel. Paris: Les Belles Lettres, 1964
Refutação de Averróis – A inteligência é a forma do corpo. A ordem da natureza o demonstra com evidência
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Apresentação da controvérsia peripatética histórica sobre a natureza da inteligência humana, cuja solução permanece em aberto.
- Posição de Dicearco, que afirmava a inteligência como forma do corpo e forma corpórea, por animar o corpo humano e ser extraída da matéria corpórea.
- Posição contrária de Averróis, que pretendia que a inteligência não é nem forma corpórea, nem mesmo forma do corpo.
- Posição intermediária de Avicena e Algazel, que afirmaram ser a inteligência a forma do corpo, mas não corpórea, estabelecendo formas intermédias entre os extremos.
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Fundamentação da justeza da intercalação de formas intermédias entre as formas divinas e as naturais.
- Justificação racional da existência de formas em parte naturais e em parte divinas, cuja separação da matéria não impede a união e cuja união não se opõe à separação.
- Constatação desta natureza dual nos seus poderes e ações, que se diferenciam conforme a sua união ou separação da matéria.
- Utilidade da existência do intelecto humano, intermédio entre o sentido, que precisa de instrumento, e o intelecto angélico, que é independente, sendo esta a opinião mais provável e conforme a Platão, Aristóteles, Teofrasto e Temístio.
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Declaração de intenção de rejeitar Averróis e confirmar a interpretação de Avicena e Algazel, ou antes, a opinião de Platão e Aristóteles.
- Refutação prévia de Dicearco e dos Epicuristas nos livros anteriores.
- Compromisso de demonstrar, a partir de argumentos de base, a probabilidade de uma forma intermédia que anime o corpo e compreenda, para que a imagem do rosto divino não seja totalmente submetida à matéria.
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Argumentação baseada na analogia da impressão em cera para defender a necessidade de formas que comandem o corpo e reflitam sobre si mesmas e sobre Deus.
- Comparação das formas nos corpos com imagens de ideias divinas, tal como figuras impressas na cera são imagens de um selo de ouro.
- Defesa de que a inteligência divina pareceria incapaz se nunca conseguisse imprimir a sua semelhança na matéria, o que exige formas que comandem o corpo e reflitam sobre si e sobre Deus.
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Desenvolvimento do argumento da geração universal, cujo ponto de partida e termo devem ser inteligências divinas.
- Asserção de que a geração produzida pela inteligência divina, embora não produza formas por mutação, tem como ponto de partida a própria inteligência divina.
- Conclusão de que o termo último desta geração deve ser também uma inteligência divina que seja a forma da matéria, por analogia com a geração pelo fogo ou pelo homem.
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Explicação do processo de geração que culmina na forma inteligente, como perfeição última do engendrado.
- Analogia com a arte, a natureza humana e o fogo, que gradualmente conduzem a matéria a formas superiores.
- Postulação de que a inteligência divina faz passar a matéria por formas elementares, mistas, vegetais, animais e, finalmente, à sua própria forma inteligente.
- Distinção entre as formas inferiores, tiradas da matéria por mutação, e a forma inteligente, introduzida por um ato divino.
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Defesa de que a inteligência humana possui a potência e o ato das formas inferiores, assegurando funções vitais e cognitivas.
- Princípio de que a natureza superior contém e excede a potência da natureza inferior.
- Argumentação de que, se o "espírito" do temperamento é instrumento suficiente para a intelecção, também o será para a sensação e nutrição.
- Conclusão da economia da natureza, que não prodiga o supérfluo, havendo em nós apenas uma alma e uma forma principal.
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Caracterização da inteligência humana como a mais humilde, próxima dos corpos, e sua união necessária com o corpo mais nobre.
- Presunção da sua humildade a partir da sua passagem do repouso ao ato e da ocasião de compreender que recebe do corpo.
- Necessidade de que o corpo humano, unido a esta inteligência, receba dela ação e movimento interior.
- Defesa de que a inteligência humana, como termo inferior das inteligências, é por natureza una a um corpo.
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Argumentação da necessidade de uma grande afinidade entre os sentidos e o intelecto, que é máxima quando estão na mesma substância da alma.
- A necessidade de os sentidos, no início da intelecção, exigir uma grande afinidade com o intelecto para uma assimilação precisa.
- A impossibilidade de maior afinidade do que a existente quando o sentido e o intelecto estão na mesma substância da alma.
- Analogia com as ostras, últimos seres sensíveis, que se aparentam com as árvores, e com o ar, intermédio entre o fogo e a água.
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Defesa da alma racional como intermediária que compreende como os anjos e forma o corpo como a alma dos brutos.
- A forma mais próxima da matéria é a sombra da mais afastada, sendo a forma vegetativa sombra da sensitiva, e esta da inteligência.
- Conclusão de que a alma inteligente se une à matéria pela sua sombra e pelo seu ato vivificador.
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Argumento da forma principal, a inteligência, que deve formar as outras formas e preencher o seu papel.
- O agente principal move os agentes secundários, a fim principal comanda as outras fins, a matéria principal sustenta as outras matérias, e a forma principal forma as outras formas.
- A inteligência, como forma principal, deve formar uma matéria preparada por formas inferiores e fazer em si o ensaio de poderes de formas superiores.
- A necessidade de a forma última das coisas naturais transcender a matéria por uma parte de si mesma, unindo-se pela intelecção aos espíritos e à eternidade.
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Comparação com as inteligências celestes para defender a união imediata da inteligência humana com o corpo.
- As inteligências que governam os corpos celestes movem um corpo de dentro e sem intermediário.
- A fortiori, a inteligência humana, mais próxima do corpo, deve mover e reger um corpo único de dentro e sem intermediário.
- Conclusão de que é contrário à ordem da natureza esta inteligência estar unida ao corpo pela alma cogitativa.
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Exposição da ordem da natureza que exige uma gradação de bens, intelectos e almas, desde o puro até ao corpóreo.
- A ordem requer um bem puro (Deus), um bem intelectual (anjo), um intelecto animal mas alma pura (alma racional) e uma alma impura (alma irracional).
- A necessidade de uma forma em parte inteligente e em parte vivificante para não perturbar esta ordem.
- A consequência de que o ser que existe em si transcende o que existe noutro, originando uma cadeia: bem em si, bem na inteligência, inteligência em si, inteligência na alma, alma em si, alma no corpo.
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Argumento da excelência do género da alma sobre o género do corpo, exigindo que a alma racional penetre e transcenda o corpo.
- O género da alma deve transcender o género do corpo, pelo que o seu grau mais baixo excede o grau mais elevado do corpo.
- A alma racional não só penetra as profundezas do corpo pela nutrição, mas excede as suas partes mais elevadas pela intelecção.
- As almas mais elevadas contêm completamente os corpos, penetrando-os interiormente e envolvendo-os exteriormente.
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Descrição das funções da alma ao envolver e penetrar o corpo, recebendo e comunicando vida.
- Ao envolver a superfície do corpo, a alma recebe a vida intelectual de cima, o intelecto agente enquanto existe em Deus e o intelecto possível enquanto permanece em si.
- Ao penetrar as profundezas do corpo, a alma sente e dá movimento ao corpo, enquanto se insinua nos espíritos, e nutre e faz subsistir, enquanto se mergulha nos humores.
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Retorno à ordem universal, definindo Deus, o anjo, a alma racional e a forma corpórea pelos seus modos de ser e relação com a matéria.
- Deus é forma não ligada à matéria, não forma e não é formada.
- O anjo é formado por Deus, não é ligado à matéria e não a forma.
- A alma irracional é formada, forma e é ligada à matéria.
- A alma racional é intermédia: não ligada à matéria, mas formada e forma.
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Aprovação da distinção platônica de Avicena sobre a descida no mundo inteligível, ligando-o ao mundo sensível.
- Descida do soberano inteligível aos múltiplos intelectos, desde os absolutos até aos que se inclinam para governar o sensível.
- A conexão perfeita entre o mundo sensível e o inteligível, com os seres inferiores ordenados à imagem dos superiores.
- Menção de um quarto grau, sombra ou nó que liga as inteligências aos corpos, formado pelas espécies de vidas irracionais.
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Caracterização do ser de Deus como absoluto e infinito, em contraste com o ser finito dos anjos.
- Deus é o Ser absoluto, infinito, sem determinação de espécie, raiz que contém e procria tudo.
- Os anjos têm ser, mas com uma particularidade numa espécie, sendo o seu ser finito e limitado a um modo único.
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Explicação da limitação do ser angélico à sua espécie, embora a essência angélica seja de certo modo infinita.
- O ser divino, precedendo as espécies, transmite diferentes modos de ser a diversas espécies.
- A essência angélica é infinita por subsistir em si, conservar a integridade da sua espécie e não se alterar por naturezas inferiores.
- Se a essência não diferisse do ser, o anjo seria ser infinito e apenas ato, o que é próprio apenas de Deus.
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Definição dos quatro graus de ser: Deus, anjo, alma racional e forma corpórea, quanto ao ser, essência, potência e ação.
- Deus: absolutamente infinito no ser, essência, potência e ação.
- Anjo: finito no ser, infinito na essência, potência e ação.
- Alma racional: ser finito, essência em parte infinita (vital e racional) e em parte finita (inclinações corpóreas), potência e ação infinitas numa parte, finitas noutra.
- Forma corpórea: finita em tudo - ser, essência, potência e ação.
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Necessidade destes quatro graus para uma descida contínua do infinito ao finito, com a alma racional como imagem do infinito no mundo sensível.
- A gradação contínua exige, no mundo sensível, a imagem do infinito (alma racional) e do finito absoluto (formas inferiores).
- A alma racional é forma do corpo e não corpórea; a forma inferior é forma do corpo e corpórea.
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Descida pelos graus de possessão do ser: de si, em si e para si.
- Deus: ser de si, em si, para si.
- Anjo: ser não de si, mas em si e para si.
- Alma racional: ser não de si, mas em si, não apenas para si, pois o comunica ao corpo.
- Forma corpórea: ser nem de si, nem para si, nem em si, pois o seu ser é do composto.
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Citação de Proclus sobre a hierarquia do inteligível, estabelecendo a alma intelectual como intermédia.
- O inteligível divino é o "si mesmo" absoluto.
- O intelecto na alma é "pertencente a si mesmo" e "pertencente a outro".
- A natureza (complexão vital) é "pertencente a outro".
- O corpo é o "diverso".
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Exposição da ordem de Porphyrio, segundo Platão, com seis escalões no universo, salientando o que é e se torna.
- O que é apenas ser (inteligências).
- O que é apenas devir (coisas sensíveis).
- O que é e se torna (almas).
- O que se torna e é (natureza do universo).
- Antes de tudo, o Bem.
- Depois de tudo, a matéria.
- A alma racional é a que propriamente é e se torna.
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Argumento pitagórico de Timeu de Locros sobre a geração das formas a partir de Deus (pai) e da matéria (mãe).
- Deus, como pai, fecunda a matéria, mãe, para gerar a progénie das formas.
- As formas semelhantes à mãe emergem e se refundem na matéria.
- As formas semelhantes ao pai jorram do ato do pai para a matéria e jorram de novo para o pai.
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Distinção entre as formas maternas, que aderem à matéria e têm o ser do composto, e as formas paternas (almas racionais), que têm ser próprio.
- Formas maternas: aderem em potência à matéria, são geradas, existem e duram na matéria, tendo o ser do composto.
- Formas paternas (almas racionais): provêm do ato puro de Deus, têm ser em si mesmas antes da união, existência própria após a separação e operação própria.