Considerações de Teofano o Recluso
A Prova de Todas as Coisas
A finalidade dos hinos da Igreja
"Falando a vós mesmos em salmos e hinos e cantos espirituais, cantando e fazendo melodia em vossos corações ao Senhor" (Ef. V,19).
Como deveríamos interpretar estas palavras? Significam que quando estiveres plenos do Espírito, deveríeis então cantar com vossa boca e vosso coração? Ou que se quiseres estar plenos com o Espírito Santo, deveríeis primeiro cantar? Deve o canto com a boca e o coração, mencionado pelo Apóstolo, significar ser a consequência de estar preenchido pelo Espírito, ou meio para tal?
A infusão do Espírito Santo não jaz em nosso poder. Vem como o Espírito Ele mesmo quer. E quando vem, esta infusão animará tanto os poderes de nosso espírito que a canção a Deus romperá por si mesma. Liberdade de escolha já somente entre deixar esta canção ser cantada só no coração, expressá-la alto para todos ouvirem.
As palavras do Apóstolo devem ser tomadas no segundo sentido ao invés do primeiro. Desejo de ser preenchido com o Espírito, e cantar com esta meta em mente. Cantar despertará o Espírito, ou levará a um estado de infusão pelo Espírito, ou demonstrará Sua ação. De acordo com o Bendito Teodoreto (Bispo de Kyrrhos, c. 393 — c. 458). Alguns de seus escritos foram condenados no quinto Concílio Ecumênico (Constantinopla, 553, mas seus comentários na Escritura Sagrada são na maior parte excelentes, e continuam a serem lidas e repeitadas na Igreja Ortodoxa), o Apóstolo refere-se ao arrebatamento espiritual quando diz, "Encham-se com o Espírito" (Ef. V,18), e nos mostra como alcançar isto, nomeadamente pelo "canto incessante de louvores ao Senhor, entrando profundamente em si mesmo, e sempre estimulando o pensamento". Isto quer dizer: cantando com a língua e o coração.
Não é difícil compreender que a parte mais importante disto não é boa harmonia em cantar, mas o conteúdo do que é cantado. Tem o mesmo efeito que um discurso escrito com sentimento caloroso, que anima quem quer que o leia. Sentimento, expresso em palavras, é levado pelas palavras à alma daqueles que os ouvem ou os leiam. O mesmo pode ser dito de cantos de Igreja. Salmos, hinos e cantos de Igreja são rompantes espiritualmente inspirados de sentimento em direção a Deus. O Espírito de Deus preencheu Seu eleito, e eles expressaram a plenitude de seus sentimentos em cantos. Aquele que os canta como deveriam ser cantados entram de novo nos sentimentos que o autor experimentou quando originalmente os escreveu. Estando cheio destes sentimentos, ele se aproxima do estado onde é capaz de receber a graça do Espírito, e adaptar-se ele mesmo a ela. A finalidade dos cantos de Igreja é precisamente fazer a centelha da graça que está oculta dentro de nós queima mais brilhante e com mais calor. Esta centelha é dada pelos sacramentos. Salmos, hinos e odes espirituais são introduzidas, para abanar a centelha e transformá-la em chama. Agem sobre a centelha de graça como o vento age sobre uma centelha oculta no braseiro.
Mas vamos nos lembrar que este efeito é condicional sobre seu uso sendo acompanhado pela purificação do coração. João Crisóstomo adiciona a isto, guiado pelo ensinamento de São Paulo ele mesmo, que os cantos devem ser primordialmente espirituais, e cantados não somente pela língua mas também pelo coração.
Portanto, a fim de que o cantar cantos de Igreja pode nos conduzir a ser preenchidos pelo Espírito, o Apóstolo é insistente que os cantos deveriam ser espirituais. Por isto deveria ser compreendido que devem ser não somente espirituais em conteúdo mas movidos pelo Espírito: deveriam ser o fruto do Espírito Santo, e fluírem pelos corações que estão plenos com Ele. Sem isto não conduzirão a nossa possessão pelo Espírito. Isto está de acordo com a lei pela qual ao cantor é dado aquilo que foi posto no canto.
A segunda condição do Apóstolo é que os cantos devem ser cantados não pela língua somente, mas pelo coração. É necessário não somente compreender o canto, mas estar em simpatia com ele, aceitar os conteúdos do canto no coração, e cantá-lo como se viesse de nosso próprio coração. Uma comparação deste texto com outros torna evidente que no tempo dos Apóstolos somente aqueles que estavam em tal estado podiam cantar; outros entravam em similar humor e toda congregação cantava e glorificava Deus somente do coração. Não surpreende se, em consequência disto, toda a congregação era preenchida com o Espírito! Que tesouro está oculto nos cantos da Igreja se são desempenhados propriamente!
São João Crisóstomo diz: "O que é significado por "aqueles que cantam em seus corações ao Senhor"? Significa: "Assumam este trabalho com atenção, pois aqueles que estão desatentos cantam em vão, pronunciando somente palavras, enquanto seu coração vagueia alhures". Bendito Teodoreto adiciona a isto: "Ele canta no coração, que não somente move sua língua, mas incita sua mente a compreender o que é dito". Outros Santos Padres, escrevendo sobre a oração a Deus, acreditam que a oração é melhor alcançada quando oferecida pela mente estabelecida no coração.
O que o Apóstolo diz aqui sobre reuniões na igreja, pode também ser aplicado a salmodia privada. Isto qualquer um pode fazer só em casa. E o fruto disto será o mesmo, quando é feito como deveria ser: ou seja, com atenção, compreensão e sentimento, do coração.
Notemos também que embora as palavras do Apóstolo refere-se ao cantar seu pensamento indica voltar-se em oração a Deus. De fato é isto que levanta o Espírito.