Nosso século é o século das ciências humanas. Os dois pensadores que exerceram a maior influência no século XX, Marx e Freud, pertencem inteiramente a elas: Marx, considerado o fundador da ciência do homem coletivo, ou seja, o homem como ser econômico e social; Freud, considerado o fundador da ciência da psique individual, ou seja, o homem como ser desejante e desejado. O escopo de seu trabalho é imenso. Os principais temas de seu pensamento penetraram tão profundamente nas mentalidades que se tornaram reflexos evidentes e especulativos: um exemplo raro na história da mente humana de envenenamento ideológico quase total. Tanto é assim que um grande teólogo declarou recentemente que a tarefa essencial da teologia hoje era integrar os resultados da antropologia contemporânea!
Mas mesmo que o marxismo e o freudismo sejam rejeitados, pelo menos em termos de seu conteúdo ideológico, eles dão origem a um hábito mental que é muito difícil de romper: considerar o homem como um objeto da ciência e acreditar que o verdadeiro conhecimento dele implica necessariamente que ele seja tratado como tal. Isso significa que somente as ciências humanas podem nos falar sobre o homem, que somente elas podem nos fornecer conhecimento real, que somente elas podem nos ensinar e que somente elas podem orientar nossas ações. No entanto, o homem é um objeto científico de natureza muito especial: ele fala e expressa o conhecimento que tem de si mesmo. Nesse aspecto, a raça humana difere de uma colônia de ratos ou insetos. Mas o problema é o seguinte: em virtude do postulado científico, é o cientista que fala, seu objeto deve permanecer em silêncio, e o que ele pode dizer sobre si mesmo não tem valor, ou é apenas um sintoma que cabe a pessoas competentes interpretar.