Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 7853 Novalis – Simfilosofia

Novalis Symfilosofia


NOVALIS. Semences. Olivier Schefer. Paris: Éd. Allia, 2004

Symfilosofia, sympoesia

Após o estudo “laborioso” da obra do primeiro Fichte, como ele mesmo o diz, o jovem Hardenberg iniciou sua “carreira” fulgurante de poeta filósofo sob auspícios perturbadores. Ele que se havia noivado secretamente em 1795 com a jovem Sophie von Kühn, e prometia a si uma existência, talvez tranquila, de pai de família, tocou no espaço de alguns meses a outra ponta da vida: Sophie se extingue em março de 1797 em seu décimo quinto ano, e o irmão bem-amado, Erasme, desaparece pouco depois em decorrência de uma tísica. A ferida de Novalis é viva, intensa, irremediável. É uma ferida profunda, como tudo o que toca intimamente à vida. Pois o jovem amava Sophie além dela mesma, como se, desde o início, se tivesse tratado de atingir nela a totalidade: a filosofia (“Minha disciplina preferida chama-se no fundo como minha noiva. Chama-se Sophie — A filosofia é a alma de minha vida e a chave de meu eu mais íntimo.” (Carta de Novalis a Friedrich Schlegel de 8 de julho de 1796.)), o mundo, o paraíso. “Todo objeto amado é o centro de um paraíso”, pode-se ler aqui. No mesmo período, Fichte e Schelling empreendem a reforma da filosofia sobre o modelo do saber científico, para se constituir um sistema do verdadeiro absoluto. Os primeiros românticos, por sua vez, retomam o contato com a cultura antiga do desejo, o eros platônico, que inscrevem na perspectiva cristã moderna da livre subjetividade. Quando Fichte exige que a filosofia renuncie a seu velho nome “diletante” de amor da sabedoria, para se tornar uma Doutrina da Ciência, Novalis anota em seus Fragmentos logológicos: “a filosofia começa por um primeiro beijo”. O amor, portanto, como pretensão universal e criação de laços entre todas as coisas, mas também a amizade, a ruptura, o divórcio, e a doença, que é ainda uma maneira de se estar no mundo: o romantismo é uma consciência trágica da alteridade, assombrada pela necessidade do outro e pelo desespero que suscita seu afastamento infinito. Com um tempo de antecedência sobre a filosofia moderna, compreende-se que o Outro é uma parte essencial do sujeito. “Eu sou tu”, escreve ele aqui, de passagem, e sem se dirigir a ninguém em particular.

É verdade que dos onze filhos que compunham a família Hardenberg, vários mantinham relações privilegiadas: notadamente Caroline, Friedrich Novalis, Erasme, Cari, Anton, Sidonie. Cada um tomava uma parte ativa nos revezes sentimentais do outro ou, como foi o caso de Novalis com Erasme, em suas crises de hipocondria. “Meu destino é o teu, escreve-lhe justamente Novalis. Tudo o que nos acontece entrelaça-se em uma bela totalidade. O espírito de família religa esta multiplicidade em unidade. Um por todos e todos por um.” Mas a “família” romântica, indireta e de substituição, inventou-se sobretudo ao redor de um programa teórico e prático que ultrapassava largamente o quadro da simpatia fraternal, ou elevava esta a uma altura pouco comum. Friedrich Schlegel, ao pensar sem dúvida em Novalis, evoca a “intuição intelectual da amizade” que permite a cada amigo completar-se e criar-se através do outro. O primeiro romantismo alemão é, portanto, uma aventura tanto individual quanto coletiva, na qual o singular e o comunitário não cessam de se entrecruzar e de se nutrir. Inúmeras obras deste período são assim o fruto de um trabalho a várias mãos, onde a amizade e o amor detêm por vezes uma parte igual. August Wilhelm Schlegel publica em 1799 um diálogo sobre a pintura, intitulado As telas, em companhia de sua esposa Caroline (a futura Madame Schelling). Wackenroder, por sua vez, participa da redação do plano das Franz Sternbalds Wanderungen de Ludwig Tieck, e este último redige vários capítulos das Fantasias sobre a arte do mesmo Wackenroder, publicadas em 1799. Um texto maior como as Vigílias aparece em 1804 sob o pseudônimo Bonaventura, e ignora-se sempre a identidade exata de seu autor. Jean Paul prolonga à sua maneira esta confusão das identidades, ao se colocar por vezes em cena em seus romances, modo de se embaçar as fronteiras entre o eu real e os personagens de ficção. Estas diversas práticas da troca encontram seu verdadeiro lugar de nascimento na revista fundada em Berlim em 1798 pelos irmãos Schlegel, o Athenaeum. Contrariamente aos Propylaeen de Goethe, às Horas de Schiller, ou ainda ao Liceu das Belas-Artes de Reichardt, o Athenaeum perseguia uma ambição claramente revolucionária, já que se tratava de se inaugurar uma nova época da literatura mundial, ao se propor unir a poesia e a filosofia, o artista e o crítico, mas também a Antiguidade e a modernidade. De sorte que o programa romântico se apresentava em suas grandes linhas como a invenção de uma “nova mitologia” ou de uma “nova religião”. No coração deste vasto projeto, a vontade de simfilosofar e de simpoetizar, de pensar e de escrever a várias, ocupava um lugar central. Novalis endereçou assim aos Schlegel o futuro manuscrito de seu Pólen, ao se remeter a seu julgamento crítico. Friedrich suprimiu algumas passagens, rearranjou a disposição de certos textos, acrescentando por ocasião seus próprios fragmentos. O conjunto será assinado Novalis (um pseudônimo, não se o esqueça). Inversamente, quando Friedrich publicou os Fragmentos, em 1798, na segunda entrega d’o Athenaeum, retomou algumas passagens do Pólen. Estes Fragmentos que não foram assinados resultavam de uma reunião heteróclita de textos devidos a Friedrich e August Wilhelm Schlegel, a Novalis e ao padre e filósofo Schleiermacher. Não se vá acreditar que esta escrita plural, praticada pelo Surrealismo em suas melhores horas, fosse sinônimo de entendimento perfeito e de bela harmonia. Friedrich Schlegel, espírito melindroso e orgulhoso, compreendeu-o quando anotava: “Os filósofos que não se detestam não estão habitualmente unidos senão pela simpatia, e não pela simfilosofia.” E reportar-se-á aqui mesmo às críticas bastante ferinas que Novalis endereçou a Fr. Schlegel, em uma carta de 12 de março de 1797, mas também a suas anotações lapidares e sem apelo de vários fragmentos do Athenaeum escritos por Friedrich. O exercício de uma mente e de uma criação coletiva não excluía as divergências, as divisões e as tensões. Exacerbava-as, sim, ao relançar cada vez a exigência da utopia comunitária, enquanto se apoiava no mistério desta “sinorganização” e “sinevolução” das quais Novalis declara a Fr. Schlegel ter descoberto a existência no momento de seu projeto de escrita de uma nova Bíblia, que cada um sonha por sua vez. O primeiro romantismo alemão acorda assim um lugar essencial à intersubjetividade, ao sensus communis kantiano. A simfilosofia e a simpoesia são, portanto, bem mais que a reunião de amigos esclarecidos ao redor de um projeto comum: trata-se de se fazer da comunicação e das trocas questões filosóficas e estéticas por inteiro, inaugurando por isso mesmo o regime moderno e contemporâneo da criação coletiva.