RENZ, Karl. Am I – I Am. Mumbai: Zen Publications, 2012
O ÚLTIMO CONCEITO É QUE NÃO HÁ NECESSIDADE DE NENHUM CONCEITO
P: Quando a questão não surge, é porque o peixe tem medo de ser atingido?
K: Não se deseja perder o último peixe. Há temor do perigo, portanto não se mostra a loja. É melhor não mostrar o peixe; é demasiado perigoso exibi-lo.
P: Tenho muita curiosidade em saber que peixe é esse…
K: É o peixe mais oculto, o teu peixe secreto. Conserva-se para depois, quando nada mais funcionar, então esse peixe servirá. Mas até lá, não se o mostra. É o teu peixe secreto; é muito antigo e tem mau cheiro, mas ainda se o ama. Esse é o meu amado eu, o meu último peixe. É um peixe-eu, essa última sombra escondida de mim mesmo. É muito velho e fétido, mas conserva-se.
Esse peixe é a tua última esperança, a de que ainda se possa manter um centímetro de consciência para si mesmo. Não se deseja partilhá-lo. Então aparece algum lama e promete que é possível conservar esse centímetro de consciência individual por certo tempo. Mostra-se então como ter uma experiência fora do corpo para esse pequeno eu e como preservá-lo. Mostra-se ao peixe que ele não necessita de água – que pode permanecer sendo peixe; esse é o último conceito: o de que não há necessidade de conceito algum para ser.
Purifica-se de todos os conceitos, e torna-se um peixe que não necessita estar na água, que não precisa estar vivo para estar vivo. É como o quarto estado, em que a existência não depende da experiência de existir para existir. Esse é o próximo peixe. Pode acontecer – de fato, ocorre todas as noites.
Essa é a tua próxima compreensão preciosa da presença de qualquer coisa. Sempre se cria outro tesouro, sempre se valoriza algo mais. Depois valoriza-se o além, essa existência que não necessita existir para existir. Tudo isso é um peixe. Parece eficiente, pois assim não há temor.
Então, tudo isso é uma corda e já não uma cobra. Já não se é algo que possa morrer. É como se se entrasse na vida eterna, que não depende de ser vida relativa. Mas então isso se torna outro peixe.
Todos os sete estados de consciência são sete lojas que oferecem sete tipos de peixes.
P: Poder-se-ia dizer que o último conceito é o de que não há necessidade de nenhum conceito?
K: É outro conceito, porque confirma que há alguém que não necessita. Antes havia alguém que necessitava, e agora há alguém que não necessita. Ainda é um a mais. Esse é o teu peixe secreto. Esse é o pescador, que é o teu peixe mais secreto. O teu Eu mais secreto, o teu precioso Eu, o teu tesouro interior. Não se pode abandoná-lo por si mesmo, pois é o teu Eu precioso.
Há tanto amor por esse Eu precioso – eu, mim mesmo e eu – nessa relação maravilhosa. Pode-se matar tudo, tudo o que possa ser morto. Mas isso não se pode matar. Assim, o último peixe é aquele Eu do qual não se consegue livrar. Contudo, ele desaparece por si mesmo, e não por tentativa de fazê-lo desaparecer, porque não se pode cessar o amor por si próprio.
P: O conceito de que há um Eu…
K: Não, o de que há um amante e um amado que simplesmente se chama a si mesmo. Assim, é-se o amante e o amado. Há um amante e um amado; isso é o peixe do Eu. Há um Eu como um peixe, e sempre se deseja pescar esse peixe. Um dia, até se pensa que se pescou esse peixe ao ser esse peixe; mas, mesmo sendo o peixe, ainda há um peixe a mais.
P: Então, mesmo ser o peixe é um peixe a mais?
K: Sim. Isso não se pode imaginar.
P: É a maior das piadas!
K: Não se pode deter a piada. Como disse, a investigação jamais terminará; talvez, então, se chegue à conclusão de que não há necessidade de conclusão. Tudo o que existe é uma história sem fim de pescaria.
P: De volta ao “sem saída”…
K: Sim, não há saída, porque tu és toda a loja.