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id da página: 4348 Interpretação da Gnose (XI,1)

Interpretação da Gnose

BIBLIOTECA DE NAG HAMMADI – Interpretação da Gnose (XI,1)


Excertos de do livro de R. Kuntzmann e J.-D. Dubois, trad. de Álvaro Cunha

Esta homilia, bastante mal conservada, parece seguir a ordenação do culto, que previa uma leitura tirada do Evangelho e outra extraída do Apóstolo. Assim, Interpretação da Gnose, p. 9,21-14,15, parece interpretar o ensinamento e a paixão do Salvador, enquanto as p. 14,15-21,34 apresentam a Igreja como o Corpo de Cristo, a partir de 1Cor, Rm, Cl e Fl.

O autor do texto parece se defrontar com uma comunidade dividida, roída pelo ciúme e recusando a partilha dos dons espirituais. Assim, ele mostra o humilde rebaixamento de Cristo, que veio trazer o amor do Pai aos "pequenos irmãos" e daí deduz a necessidade da partilha:

Aliás, quando seu grande Filho foi enviado a seus pequenos irmãos, ele propagou externamente o desígnio do Pai e o proclamou diante do Todo. E anulou o antigo laço da dívida, a condenação. E eis aqui esse desígnio: aqueles que se reconhecem a si mesmos como estando reduzidos à escravidão, condenados em Adão, foram arrancados à morte, receberam perdão por seus pecados e foram salvos por (...) (p. 14,28-38).

Tendo um irmão que olha por nós, como também ele, glorifica o Um que nos deu a graça. Aliás, é conveniente para (cada qual) que amemos o (dom) recebido de (Deus e) que não sejamos ciumentos, pois sabemos que aquele que é ciumento coloca obstáculo em seu próprio caminho, já que somente se aniquila a si próprio com o dom, ignorando Deus. Ele deve re-jubilar-se, ficar contente e ter piedade e generosidade (p. 15,24-36).


A metáfora paulina do corpo e dos membros (1Cor 12) permite afirmar vigorosamente a unicidade do corpo da Igreja por sobre a multiplicidade e a riqueza dos dons espirituais:

Agora, os membros não podem tornar-se todos unicamente pés, unicamente olhos (ou unicamente) mãos, pois não podem viver sozinhos, senão estarão destinados a morrer. Assim, por que amais os membros mortos (em lugar dos) vivos? É que vós sois ignorantes quando os odiais ou quando tendes ciúme deles, (não recebendo) por isso a graça que neles habita, pois não estais predispostos à bondade do coração. Vós deveis dar graças por vossos membros e pedir para vos tornardes tão grandes quanto a graça que vos foi concedida. Pois a Palavra é rica, generosa e benevolente (p. 17,18-36).


Tal como se apresenta, este tratado parece ser comentário tardio de teses e imagens paulinas. No entanto, o texto é gnóstico pelo dualismo latente entre os invejosos e os odiosos, semelhantes ao demiurgo ciumento, e as testemunhas do amor do Pai, os verdadeiros gnósticos.


MEYER, Marvin W. The Nag Hammadi Scriptures: The Revised and Updated Translation of Sacred Gnostic Texts Complete in One Volume. 1st ed ed. London: HarperCollins Publishers, 2009.

O título do primeiro tratado do Códice XI, "A Interpretação (hermeneia) do Conhecimento (gnosis)", encontra-se tanto na folha de guarda do códice quanto ao final do texto. O significado preciso desse título não é claro; é possível que tenha sido criado no curso da transmissão. O gênero da obra é o de uma homilia ou, menos provavelmente, de uma carta. O texto encontra-se mal preservado, como ocorre em geral com o Códice XI; mais da metade perdeu-se, e muitas linhas só podem ser restauradas com reserva.

O tema principal da homilia é a humildade, e ideias relacionadas a esse tema, como a resistência nas adversidades e a importância da fé, são enfatizadas no texto. Exortar os ouvintes à humildade e à perseverança na fé é a preocupação dominante do autor. Tal preocupação provavelmente reflete uma situação de tensão social, tanto entre a comunidade a quem a homilia se dirige e seu entorno quanto dentro da comunidade. Uma situação de desafeição interna torna-se particularmente tangível na última parte da homilia (a partir da p. 15), onde os membros da comunidade são exortados a não ter ciúme uns dos outros, mesmo quando alguns exibem dons espirituais mais elevados que outros. Desse modo, a Interpretação do Conhecimento oferece um raro vislumbre das dinâmicas sociais de uma comunidade cristã gnóstica.

Que a perspectiva do texto é gnóstica fica claro desde a primeira página: "O mundo é o lugar da incredulidade e da morte" (1, 36–38). O tom gnóstico também é evidente em afirmações como: "Enquanto estávamos nas trevas, costumávamos chamar muitos de 'pai', porque ignorávamos o verdadeiro Pai. E este é o maior de todos os pecados" (9, 35–37). Mais precisamente, o tratado pode ser atribuído à tradição homilética valentiniana devido às numerosas semelhanças com outros textos valentinianos: a distinção entre fé e persuasão (p. 1) também se encontra no Tratado sobre a Ressurreição; a afirmação de que o Pai conheceu seus membros desde o princípio e os revelará ao final (p. 2) é paralela ao Evangelho da Verdade; a metáfora do "rastro" (2, 31) ocorre no Evangelho da Verdade e no Tratado Tripartido; a imagem do ser humano como uma hospedaria (pandokeion) habitada por demônios (p. 6) aparece em uma carta de Valentino (fragmento 2); a representação do Salvador como mestre-escola ensinando as letras verdadeiras (9) também é encontrada no Evangelho da Verdade; a associação do sábado ao cosmos e a interpretação da "obra no sábado" do Salvador para recuperar a ovelha perdida como metáfora de sua encarnação e descida ao mundo (11) também ocorrem no Evangelho da Verdade; o Nome (12) é noção central no valentinianismo; a preocupação com evitar o ciúme (phthonos; 15ss.) também surge no Evangelho da Verdade, no Tratado sobre a Ressurreição e em outras fontes valentinianas; enfim, na página 19 parecem existir referências a Igreja e Vida, nomes valentinianos de éons.

A soteriologia e a cristologia do tratado revelam-se em afirmações de que o Salvador sofreu e morreu uma morte vicária pelos mortais; que tornou-se "pequeno" (10, 27–28) — referência à encarnação; que humilhou-se e suportou o escárnio; e que ele mesmo foi redimido pela Grandeza que desceu — obviamente em seu batismo. Além disso, ele clamou e foi separado — alusão à crucificação — e mostrou o caminho ao Pai. Todos esses temas situam a Interpretação do Conhecimento firmemente no contexto da doutrina valentiniana oriental.

A soteriologia e a cristologia não são, contudo, as principais preocupações da homilia. As descrições do Salvador sofredor destinam-se sobretudo a servir como paradigma moral aos ouvintes. A ênfase específica na humildade do Salvador e em sua disposição de suportar escárnio e perseguição deve ser entendida em sua função paraenética. Isso sugere que a comunidade à qual o texto se dirige enfrenta aflições semelhantes. Parece que a comunidade sofre pressão de oponentes externos — ou outros cristãos, que zombam dos valentinianos à moda dos heresiólogos, ou não cristãos, que se opõem ao cristianismo em geral. A homilia, portanto, encoraja os membros a permanecerem firmes na fé diante de tal pressão.

Entretanto, as dificuldades são internas também. A parte final da homilia (a partir da p. 15) revela que alguns membros estão descontentes por serem considerados de status inferior na comunidade. Há membros que se destacam em dons espirituais: fala profética e habilidade retórica. Outros não possuem tais dons. O homileta procura persuadir os descontentes, primeiro, argumentando que o ciúme é um sentimento indigno de pessoas espirituais e, segundo, utilizando a imagem de um único corpo (de 1 Coríntios 12): todos os membros, grandes e pequenos, são igualmente importantes, e o que um deles realiza beneficia o corpo todo. Com essa retórica, o homileta aparentemente busca evitar uma crise de desintegração e de afastamento na comunidade.

Devido ao estado fragmentário do texto, muitas partes do tratado permanecem obscuras. É o caso sobretudo das partes que mencionam uma ou mais figuras femininas. Ouvimos falar de uma virgem (pp. 3–4, 7), uma jovem (3–4, 8), uma mulher aflita (7–8), uma mãe (7–8, 13), uma mulher associada ao primeiro homem (11), uma figura feminina que é esposa do Verbo (3), e uma mulher que é útil e dá à luz (3, 14). Em um contexto valentiniano, a referência mais natural para uma figura feminina seria Sofia, o éon caído e redimido que também desempenha o papel de alma do mundo na cosmologia valentiniana. Embora essa interpretação pareça plausível em algumas passagens, pode não ajustar-se a todas, e é possível que outro tipo de narrativa, cujo tema nos escapa completamente, estivesse sendo relatado (por exemplo, nas pp. 7–8).

A Interpretação do Conhecimento distingue-se pelo uso arrojado de imagens — a associação da crucificação com a "fixidez" da fé (p. 1), o ato de pregar na cruz utilizado como metáfora do Salvador sendo "apreendido" na igreja (5), e a imagem da "cabeça" que olha para seus membros desde a cruz, puxando-os para fora do Tártaro (13). O emprego retórico criativo de imagens e a exploração do potencial metafórico da vida e paixão do Salvador são caracteristicamente valentinianos. O mesmo pode ser dito do uso de ditos e parábolas de Jesus (5–6, 9) e das amplas alusões às cartas de Paulo. As palavras de Jesus (9, 27–10, topo) são citadas a partir de uma coleção de seus ditos também atestada em Clemente de Alexandria e em fontes egípcias, e não a partir dos evangelhos escritos. O texto, portanto, reflete um estágio da história do cânon em que os ditos de Jesus e as cartas de Paulo constituem as principais fontes de autoridade.

Não se sabe quem escreveu a Interpretação do Conhecimento, nem há indicações seguras quanto à data de sua composição. O texto mostra uma congregação em crise, mas isso não implica necessariamente data tardia. Uma estimativa plausível seria situá-lo no final do século II, em Alexandria ou em outra região do Egito.