Jesus disse: O reino do Pai é semelhante a um homem que quis matar a um grande personagem. Sacou a espada em sua casa e a fez atravessar um muro, a fim de saber se sua mão era segura: então matou o grande personagem. (Roberto Pla)
- Ou, como pode alguém entrar na casa do valente, e roubar-lhe os bens, se primeiro não amarrar o valente? e então lhe saquear a casa. (Mt 12,29)
Segundo a Boa Nova há duas ordens de vida: a vida eterna, própria do que pertence ao reino do Pai, e a vida mortal. Mas o que tem esta última vida só existe tão tênue e leve como uma sombra sobre um muro. É uma sombra ainda que possa tomar no mundo a aparência de ser um grande personagem, e o que é sombra sucumbe sempre, ao final, sob o fio da espada do Reino.
- A vida única em si mesma (vide Vida Mortal e Eterna, Vida e Mortos, Alma Vivificada e Morte da Alma)
- Duas ordens de vida, mortal e eterna; distinção simplificadora, na medida que só há de fato a vida eterna, que é própria de Deus enquanto Ser eterno, e de tudo o que participa em seu Reino.
- Devemos contemplar o princípio de vida, entranhado na consciência, e o existir dos seres vivos, os quais vivem porque participam na vida, segundo o modo peculiar próprio de cada um
- A menção a duas ordens de vida é porque se referem à pluralidade do que vive, do que aparece diante de nós como vivente, e essa é a vida mortal; e em outros casos nomeiam a vida em si mesma, objetiva, como propriedade consubstancial do Pai e do que pertence a sua esfera celeste.
- A vida eterna, a única vida, a possui quem a tem em si mesmo, posto que é a vida mesmo, como transcorre com o Pai, ou por doação direta ou derivada do Pai.
Puech
- grande personagem = copto, megistanos
- A expressão "Reino do Pai" (Logion 57, Logion 76, Logion 96, Logion 97, Logion 98, Logion 113), empregada por Jesus juntamente com "Reino", "tout court", e mais frequentemente que "Reino dos céus", tem como equivalente nos sinóticos paralelos "Reino de Deus". O termo "Pai" é sempre usado em lugar de "Deus" (pnoute, ho theos) no Evangelho de Tomé, com exceção do Logion 100.
- Variante em Leloup:
- "Ele desembainha sua espada em sua casa, fura o muro para saber se sua mão é firme...
- BÍBLIA:
- E será que, apartando-me eu de ti, o Espírito do Senhor te levará não sei para onde; e, vindo eu dar as novas a Acabe, e não te achando ele, matar-me-á. Todavia eu, teu servo, temo ao Senhor desde a minha mocidade. Porventura não disseram a meu senhor o que fiz, quando Jezabel matava os profetas do Senhor, como escondi cem dos profetas do Senhor, cinquenta numa cova e cinquenta noutra, e os sustentei com pão e água: E agora tu dizes: Vai, dize a teu senhor: Eis que Elias está aqui! Ele me matará. E disse Elias: Vive o Senhor dos exércitos, em cuja presença estou, que deveras hoje hei de apresentar-me a ele. (1Reis 18,11-15)
- E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe uma orelha. (Mt 26,51)
- Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se senta primeiro a calcular as despesas, para ver se tem com que a acabar? Para não acontecer que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a zombar dele, dizendo: Este homem começou a edificar e não pode acabar. Ou qual é o rei que, indo entrar em guerra contra outro rei, não se senta primeiro a consultar se com dez mil pode sair ao encontro do que vem contra ele com vinte mil? No caso contrário, enquanto o outro ainda está longe, manda embaixadores, e pede condições de paz. (Lc 14,28-32)
- Para matar o grande personagem, ou aquele que se crê tal, quer dizer nosso ego com suas pretensões e as imagens que ele tem dele mesmo, é preciso a princípio atacar o muro, àquilo que nos separa uns dos outros. Fazer um buraco no muro, desembainhar para forçar uma passagem.
- Quando o muro está furado, então o grande personagem pode ser morto posto que encontrou-se a força, a "identidade" na oposição, àquilo que o cerca. O ego é uma imensa crispação, um mecanismo de defesa contra o fluxo da vida que nos cerca e no conduz.
- É preciso mão e espírito "firmes" para lutar contra as pulsões de morte que nos habitam: "o Inimigo do Vivente" é também uma realidade que é necessário saber desmascarar
Emile Gillabert
- A pessoa, que, enquanto se crê uma entidade separada, constitui o único obstáculo à realização, porta nomes diversos segundo as logia: é o grande personagem deste logion; são os pilhantes do Logion 21 e Logion 103; ou a cepa plantada fora do Pai (Logion 40); é ainda a construção sem a pedra angular (Logion 66), sem falar do cão adormecido na manjedoura dos bois (Logion 102).
- Para bem compreender o jogo do personagem, deve vê-lo no conjunto do jogo cósmico, chamado também Lila ou Maya. Neste jogo cósmico o do personagem está pré-determinado como o filme que passa sobre a tela. A pessoa só tem a importância que se dá, uma importância que pode parecer indiscutível enquanto não encontrou nada mais forte que ela, que tenha se comensurado a ela.
- Enquanto seu papel é de "laissez-faire" e de ceder, ela intervem por vezes com força como em nosso logion, as vezes com astúcia. De todos os modos, ela usurpa o poder que pretende exercer. E tudo isto faz parte do jogo.
- Quando reconheço minha identidade posso tomar distância e me tornar observador do jogo particular e ter para com ele a atitude justa.
- Se necessário posso desembainhar a espada para matar o grande personagem.