A Tradição Primordial
A Tradição Primordial e o Entendimento Ocidental
- As religiões dos povos asiáticos são vistas por estrangeiros como um amálgama popular de elementos primitivos, taoismo e confucianismo, que constituem as liturgias oficiais e populares. No entanto, esta é apenas a aparência; a Tradição Primordial, que é a verdadeira essência, é mantida oculta do povo e, com ainda mais rigor, dos "bárbaros distantes".
- Contrapõe-se a origem da tradição ocidental, que se baseou no judaísmo e no mosaicismo — vistos como "paródias sangrentas de velhos cultos hindus" e "adaptações egípcias desbotadas". Por outro lado, a tradição chinesa, que remonta a cinco mil anos, é considerada a primeira e verdadeira, e os monumentos de sua autoria, como os escritos de Fohi, datam de uma época em que a Europa ainda era habitada por homens primitivos.
- O imperador Fohi, que escreveu os arcanos metafísicos e cosmogônicos do Yiking 3.700 anos antes de Cristo, datou sua obra não por nomes convencionais, mas por um estado solar e estelar que poderia ser verificado por astrônomos do futuro. Esta abordagem demonstra o espírito prático, engenhoso e lógico dos antigos sábios asiáticos, que não precisaram de lendas ou de parábolas para transmitir seu conhecimento.
As Características Essenciais da Tradição Chinesa
- A tradição chinesa é caracterizada pela ausência de elementos sobrenaturais. Em toda a sua história, não se tem registro de revelações divinas, intervenções de deuses ou conversas com anjos. A tradição se declara puramente humana, baseada na sabedoria e na lógica, e não reivindica luzes divinas ou mistérios metafísicos.
- A revelação é entendida como o oposto de esclarecimento: ela é como uma nuvem que se coloca sobre a verdade, um "engano adequado" aos sentimentos do momento, destinado a ser questionado e substituído no futuro. Essa ideia é vista como uma consequência do antropomorfismo inconsciente que dominou as concepções teogônicas de muitas culturas.
- Por não ser uma tradição revelada ou dogmatizada por representantes de uma divindade, ela é reconhecida como verdadeira por ser suficiente para si mesma. Ela não é imposta e não possui os caracteres de obrigação ou de exclusividade que são próprios das coisas a priori superiores à natureza humana.
As Consequências Práticas na Vida e na Sociedade
- A tradição ignora a doutrina teocrática imposta e não constitui dogmas religiosos. As religiões e liturgias, que são consideradas "traduções" ou "adaptações" populares dessa tradição, não têm origem tradicional e não participam de sua autoridade.
- A máxima "Amem a Religião; desconfiem das religiões" resume a distinção entre a Tradição Primordial, que é puramente humana, e os cultos exteriores, que são meios menos exatos, mas mais acessíveis, de se chegar à Religião.
- A crença é vista como uma questão de consciência pessoal e de liberdade individual, com as seguintes consequências práticas:
- Ausência de Obrigação: Como a religião saiu de um cérebro humano, não se é obrigado a segui-la. Aqueles que não compreendem ou não têm tempo para isso não estão obrigados a nada, mas ainda assim são conduzidos na evolução geral.
- Ausência de Sanção: Não há penas nem punições, nesta vida ou na próxima, para aqueles que não seguem os ensinamentos tradicionais, pois a ameaça de punições é uma invenção de homens que se declaram porta-vozes de um Deus rigoroso.
- Ausência de Exclusivismo e Proselitismo: É lícito praticar qualquer culto, ou nenhum, desde que não se infrinjam as leis. Não há perseguição religiosa, nem anátema contra ninguém, pois cada ser é uma "parcela necessária" da universalidade do Céu.
- A Dignidade do Homem: A ausência de religiosidade não impede a fé em um Ser Supremo, que é natural e lógica. O homem, por ter sua origem no Céu, tem uma ideia de dignidade que o distingue da "humilhação" imposta pelas religiões reveladas. A crença em Deus, para um chinês, é crer em si mesmo.
A Natureza da Crença e a Dignidade do Homem
- O homem está ligado ao Céu por um "cordão metafísico" que jamais foi rompido. A tradição, sendo suficiente para si mesma, não precisou de uma intervenção divina. A crença no Ser Supremo é universal e razoável. Para os povos asiáticos, a divindade é como a fonte que gera o rio e o mar que o absorve, e não pode ser inimiga de suas próprias águas.
- A ausência de um ideal religioso não foi um fator de estagnação para a civilização asiática, mas sim um fator de calma histórica, já que a falta de um "poderoso fermento de discórdia" evitou muitos conflitos. A falta de sentimentalismo levou a um foco na vida terrena e na felicidade imediata, o que os tornou mais felizes.
- A tradição se baseia em duas fórmulas fundamentais: o rebaixamento do homem não é um elemento necessário da grandeza do céu, e o sofrimento do homem não é um elemento necessário de sua evolução.