Ambrosio Teodosio Macrobio escribió a principios del siglo V dos obras: los Conviviorum Primi Dei Saturnaliorum libri septem (Saturnalia), donde todos los cultos son reducidos a la veneración del Sol, y los In Somnium Scipionis commentaria. Sobre su persona no cabe sino conjeturar.
Excerto de LEWIS, C.S.. A Imagem descartada. Para compreender a visão medieval do mundo. São Paulo: É Realizações, 2015
Macróbio 1 viveu no fim do século IV e início do século V. Sua religião também foi posta em dúvida, mas parece não haver sólidas razões para supor que fosse outra que não o paganismo. Ele pertencia, entretanto, a um círculo em que cristãos e pagãos podiam manter contato livremente. O cristão Albino e um grande defensor do paganismo, o velho Símaco, estavam entre os seus amigos. De suas duas obras, a Saturnália, um diálogo longo, erudito, polido e tortuoso não nos interessa agora. Abordaremos o comentário 2 sobre a Somnium Scipionis. Este, e o texto que o acompanhava, preservou aquela parte da República de Cícero para nós. Quase cinquenta manuscritos sobreviveram; foi um trabalho de grande prestígio e de influência duradoura.
Sobre a geografia, Macróbio repete a doutrina das cinco zonas de Cícero. É razoável supor que a zona temperada meridional seja, como a nossa, habitada, “mas nunca tivemos, nem jamais teremos, a possibilidade de descobrir por quem”. Macróbio ainda acha necessário (isso não teria acontecido na Idade Média) remover o equívoco pueril do que chamamos de gravitação. Não há perigo de que os habitantes do hemisfério do sul caiam para o céu inferior; a superfície terrestre se encontrava “abaixo” deles, assim como se encontra para nós (II, V). O oceano cobria a maior parte da zona tórrida; dois grandes braços dele no Leste, e dois no Oeste, fluem para o Norte e para o Sul, de encontro aos polos. Do encontro das duas correntes resultavam as marés. A terra seca, portanto, tinha quatro divisões principais. A grande massa de terra da Europa, da Ásia e da África, sem dúvida, é uma dessas quatro (II, ix). Uma versão diagramaticamente simplificada desse esquema sobrevive nos “mapas circulares”3 posteriores. Assim como estamos separados, no espaço, dos antipodas,[[Partes do mapa-múndi que se encontram posicionadas de forma diametralmente oposta. (N.T.)]] assim também estamos separados, no tempo, da maior parte do passado. Quase toda a raça humana foi destruída com frequência por grandes catástrofes globais; quase, pois sempre houve remanescentes. O Egito nunca foi destruído; é por isso que os registros egípcios remontam a uma antiguidade desconhecida em qualquer outro lugar (II, X). A ideia remete ao Timeu de Platão (21e-23b), que, por sua vez, poderia ter sido sugerida pela encantadora história de Heródoto (II, 143): Hecateu, o historiador, em visita a Tebas, no Egito, vangloriava-se de ser descendente de um deus na décima sexta geração — o que seguramente o levaria de volta a uma época anterior a qualquer registro grego contínuo. Então, os sacerdotes o levaram para uma sala onde se encontravam estátuas daqueles que haviam exercido o sacerdócio hereditário, e traçaram a linha de volta ao passado num continuum, de pai para filho; quando eles chegaram à 145a geração, constataram que ainda não havia vestígio de deus, nem mesmo de semideus. Isso refletiria a diferença real entre a história grega e a egípcia.
Assim, embora a civilização, na maior parte da Terra, seja sempre relativamente recente, o Universo sempre existiu (II, X). Se Macróbio descreve sua formação em termos que implicam tempo, isso deve ser considerado simplesmente uma conveniência discursiva. Tudo o que havia de mais puro e límpido (liquidissimum) foi elevado aos lugares mais altos e chamado éter. O que tinha menos pureza e pouco peso tornou-se ar e desceu ao segundo nível. O que ainda tinha certa fluidez, mas era bruto (corpulentum) o bastante para oferecer uma resistência tátil, juntou-se para formar a corrente de água. Por fim, de toda essa agitação da matéria, tudo o que era indomesticável (vastum) era podado e limpo dos (demais) elementos (ex defaecatis abrasum elementis) e rebaixado e posto no ponto mais baixo, cravado e preso em frio ininterrupto (I, XXII). A Terra é, de fato, “a escória da criação”, a lata de lixo cósmica. Essa passagem também pode lançar alguma luz sobre Milton. Em Paraíso Perdido, VII, o filho havia acabado de demarcar a área esférica do Universo com o seu compasso dourado (225). Então, o espírito de Deus
The black tartareous cold infernal dregs. (237)
...para baixo purgou
Os resíduos pretos infernais, frios como tártaro.
Verity4
diz que isso significa que Ele os expulsou da área esférica, lançando-os “para baixo” no caos, que em Milton tem, para certos propósitos, um alto e baixo absolutos. Mas “para baixo” também poderia significar em 71 direção ao centro da esfera cósmica, e “resíduos” se adequariam perfeitamente à concepção de Macróbio.
Ao leitor moderno, o que Macróbio diz sobre os sonhos (I, iii) parecerá um item pouco importante em seu comentário; a Idade Média deve ser pensada de forma diferente, uma vez que fica claro por que esse tema é intitulado Ornicensis ou Onocresius, nome que aparece em alguns manuscritos e é explicado ali como quasi somniorum index ou somniorum interpres: ambas as palavras teriam sido transliterações adulteradas de oneirokrites. Seu esquema é derivado da Oneirocritica de Artemidorus (século I). Segundo ela, há cinco espécies de sonhos — três verídicas e duas que não contêm em si nenhuma “adivinhação” (nihil divinationis). Os tipos verídicos são os seguintes:
1. Somnium (oneiros). Este nos mostra verdades veladas em forma alegórica. O sonho do faraó com as vacas gordas e as vacas magras seria desse tipo (Gênesis 41, 1-4). Todo poema alegórico onírico na Idade Média registra um somnium dissimulado. Os psicólogos modernos presumem que quase todos os sonhos são somnia, e o somnium é o “dreem” na The House of Fame [A Casa da Fama] de Chaucer, I, 9.
2. Visio (orama). Essa é uma previsão direta, literal, do futuro. O Experiment with Time [Experimento com o Tempo] de Dunne trata sobretudo de visiones. Esse tipo aparece como “avisioun” em Chaucer (op. cit. I, 7).
3. Oraculum (chrematismos). Nesse tipo, um dos pais do sonhador ou “qualquer outra pessoa seria e venerável” aparece e declara abertamente o futuro ou dá conselhos. Tais sonhos correspondem aos “oráculos” de Chaucer (op. cit. I, II).
Os tipos inúteis são:
1. Insomnium (enyprion). Esse meramente repete preocupações de trabalho — “o carroceiro sonhou com o sumiço de suas carroças”, como diz Chaucer (Parliament, 102).
2. Visum (phantasma). Esse ocorre quando, ainda não completamente adormecidos e crendo que ainda estamos acordados, vemos vultos passando sobre nós ou flutuando para cá e para lá. Epialtes ou pesadelos se incluem nessa classe. O “fantasma” de Chaucer é sem dúvida o visum (The House of Fame, I, II) e seu “sweven” supostamente é insomnium. Essa é mais provável que a identificação alternativa (“dreem” para visum e “sweven” para 75 somnium) em vista do desdém com o qual Dame Pertelote dialoga sobre “swevens” em B 4111-13; ela foi um pássaro bem-educado e conhecia tanto a física quanto o Distychs de Dionísio Cato.
Excertos de Macróbio:
NOTAS: