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id da página: 10143 Alexandre Koyre – A Filosofia de Jacob Boehme – Alma Jacob Boehme

Koyre Boehme Alma

  • A Obra de Cristo como Vitória sobre o Mal e a Morte, não como Pagamento Expiatório
    • A concepção de Jacob Boehme de que a obra de Cristo consiste essencialmente numa vitória sobre o mal e a morte, enfatizando a ressurreição e o renascimento, e não a morte expiatória como um pagamento, satisfação da justiça divina, redenção ou justificação.
    • A substituição de Cristo por Adão para cumprir a sua tarefa, vencendo a si mesmo, a morte e a Turba, e reconstituindo em si a ordem dos poderes e princípios, devolvendo a Deus as forças da sua natureza e reabrindo para o homem o caminho do Paraíso.
    • A função de Cristo como exemplo, mostrando ao homem que, apesar da sua decadência, a criatura pode reconquistar os céus, inspirando-se na sua imagem e ação, e revelando Deus na sua essência verdadeira de amor.
  • A Divergência de Boehme em Relação a Sebastien Franck e Caspar Schwenkfeld
    • A distinção fundamental entre a doutrina de Boehme e a dos espiritualistas Franck e Schwenkfeld, apesar da similitude de fórmulas sobre temas místicos como o renúncia a si mesmo e o abandono do mundo.
  • A Diferença Fundamental: A Atitude perante o Mundo e a Unidade do Homem
    • A diferença crucial entre Boehme e os místicos predecessores, localizada na sua atitude perante o mundo e Deus, recusando-se a abstrair-se do mundo para encontrar Deus, antes ligando o conhecimento de Deus ao conhecimento do mundo.
    • A rejeição por Boehme do duofisismo de Schwenkfeld e Franck, que separava o homem espiritual do homem carnal, quebrando a unidade do ser humano.
    • A defesa por Boehme da unidade ontológica do homem, essencial para manter a identidade pessoal entre o homem velho e o novo, assegurando que é o mesmo homem, o viator e pecador, que deve reviver e obter a salvação, e não apenas a sua alma ou espírito.
  • O Voluntarismo de Boehme e a Luta Dinâmica e Perpétua pelo Salvação
    • A interpretação original dos temas místicos através da afirmação do valor da personalidade humana total, "psicofisiológica".
    • A concepção de que a vontade humana conduz ativamente a luta contra a Selbheit egoísta e colabora ativamente com a graça divina para a sua regeneração, sem que a ação divina se substitua jamais à do homem.
    • A compreensão da salvação como um estado de tensão dinâmica, uma vitória eternamente rematada sobre um adversário eternamente vencido, mesmo para os eleitos, sendo a vida eterna uma luta eternamente vitoriosa.
    • A impossibilidade, na vida terrena, de uma vitória definitiva ou de uma perda sem esperança, excluindo a certitude salutis e substituindo-a pela certeza da bondade divina e da luta contínua, que talvez se prolongue para além da morte num estado intermédia de inacabamento.
  • A Concepção da Alma como Centro da Natureza e Base da Unidade Ontológica
    • A definição da alma, no homem, como o primeiro princípio, o Centrum ardente e "enxofre" da sua natureza, tendo a sua origem no primeiro princípio da natureza divina, e sendo descrita como um "demônio irado", um "fogo sulfúreo".
    • A função desta alma como base da unidade ontológica do ser humano, conferindo-lhe uma natureza própria, uma base independente e eterna do seu ser, e sendo a fonte do "contrário", do Não, necessário para qualquer síntese verdadeira.
    • A presença no homem de uma marca divina, a Bildnisse, a imagem divina, que é a sua essência eterna, uma teofania individual de Deus que ele tem a missão de vivificar e incarnar em si através da sua ação própria, livre e voluntária.
  • A Liberdade Absoluta do Homem e a sua Missão de Autorealização Divina
    • A participação do homem nos três mundos, pertencendo aos dois mundos eternos e exprimindo-se no do tempo, com a liberdade de se decidir a realizar-se no bem ou no mal.
    • A missão conferida por Deus ao homem de realizar a sua própria imagem ideal, a "assinatura" divina que ele deve ser, harmonizando o caos das forças da natureza que porta em si para incarnar o espírito.
    • A autonomia absoluta do homem, que possui em si os céus e a terra, o Paraíso e o Inferno, a graça e o Cristo, não necessitando de nada exterior para a sua salvação, sendo o único preceito "torna-te tu mesmo".
  • O Relativismo Personalista e a Individualização da Religião
    • A conclusão, derivada do personalismo de Boehme, de que cada pessoa humana é uma teofania individual de Deus, devendo tornar-se cada vez mais pessoal e distinta, o que leva a diferenças individuais irredutíveis nas suas expressões de Deus e do mundo.
    • A aceitação de que os "dons" de Deus são individualizados e a religião de cada personalidade é própria, sendo o mesmo espírito divino que fala uma linguagem única em cada alma, resultando numa tradução pessoal do mesmo tema.
  • As Consequências para a Interpretação das Escrituras e o Papel da Inspiração
    • A aplicação deste princípio à interpretação das Escrituras, onde o sentido único e verdadeiro só pode ser compreendido pelos inspirados pelo Espírito, mas deve traduzir-se em palavras e concepções individualmente distintas, pois cada um traduz as suas intuições a partir do seu próprio fundo.
  • A Doutrina das "Assinaturas" como Explicação da Conhecimento e da Expressão Individual
    • A explicação de como a palavra ou ação externa provoca ressonâncias na alma, que contém as "assinaturas" das coisas, transpondo a melodia original de acordo com a sua individualidade, tal como um instrumento musical possui uma gama e um timbre únicos.
    • A definição de conhecimento como conhecimento das "assinaturas" que exprimem a essência das coisas, sendo os pensamentos humanos "assinaturas" de segundo grau, expressões ao mesmo tempo da individualidade pessoal, da natureza das coisas e de Deus.
  • O Homem como Órgão da Palavra Divina e o Enriquecimento da Realidade Cósmica
    • A função do homem como órgão da palavra divina que fala ao mundo e da resposta do mundo a Deus, através da qual o mundo temporal se exprime na sua essência e o sentido eterno do Universo é desvendado.
    • A ideia de que o mundo temporal era necessário para enriquecer a própria ideia divina, pois a multiplicidade real dos seres, através da liberdade irracional da criatura que colabora no seu próprio ser, introduz um elemento novo e imprevisível, qualitativamente distinto do mundo da Sabedoria divina que realiza.
    • A síntese final sobre o Deus de Boehme, que, não querendo salvar o homem sem ele, o deixa colaborar na sua própria criação.