Nem sempre há, nos Exercícios, evocações tão fáceis quanto estas. Outras composições de lugar, ditas invisíveis, porque se relacionam com objetos que se têm que imaginar inteiramente, são mais difíceis para realizar, como precisamente na meditação sobre os pecados, a operação que consiste em considerar minha alma encarcerada neste corpo corruptível e todo o composto (o composto alma e corpo) neste rale, como exilado no meio de animais selvagens.
Muito se escreveu sobre a composição de lugar e mostrou-se que Santo Inácio, recomendando-a, inseria-se aqui ainda numa tradição que vai até a época da alta Idade Média, a do bem-aventurado Aelred, abade cisterciense de Rievaux, na Inglaterra, no século XII, e que continua com o pseudo-Boaventura e Lindolfo o Cartuxo, até João Mombaer e os místicos da escola flamenga. Mas Santo Inácio conserva a originalidade de ter elevado a composição de lugar à dignidade de um prelúdio preparatório à meditação.
Entretanto, este processo não foi universalmente ratificado. Santa Teresa de Ávila, por exemplo, declarava-se incapaz de fazer trabalhar desse modo sua imaginação. Diz-se igualmente que os verdadeiros místicos se dispensavam facilmente desses meios subalternos. Em compensação, na Companhia de Jesus o processo foi conservado constantemente com destaque. Mesmo para vir em socorro das imaginações um pouco fracas, Inácio de Loyola em pessoa, no fim da vida, decidiu publicar um livro onde as composições de lugar, se assim podemos dizer, estariam já feitas. Ele encarregou o padre Jerônimo Nadal de preparar um volume de estampas representando as cenas do Evangelho. Esta coleção só foi editada muito tempo após a morte do Fundador, a saber, em 1593, em Antuérpia, sob a forma de um grande in-fólio, onde as meditações evangélicas estão acompanhadas de 153 gravuras feitas por artistas flamengos de valor, especialmente Wierx e Collaert.
No século XVII, quando se publicavam tantos volumes de devoção enfeitados de estampas, os Exercícios Espirituais foram abundantemente ilustrados.
Parece que o emprego de imagens não tenha correspondido somente à preocupação de ajudar ao esforço da imaginação e de orientá-la em perspectivas dogmaticamente seguras, mas ainda de criar no espírito um tipo de esquemas análogos às lembranças de paisagens ou de espetáculos realmente observados e que a memória registra. Assim, a imaginação fica encerrada em limites estreitos e não vaga mais. Melhor ainda, a meditação se desenvolve a partir de reminiscências afetivas que representam, em tela de fundo, o mesmo papel de um álbum de família quando se evocam recordações preciosas.
No fim da primeira semana são inseridas adições. Notar-se-á, de passagem, que as recomendações suplementares ocupam o mesmo lugar neste livrinho quanto as próprias meditações.
Essas adições se referem a certas atitudes e procedimentos corporais que o retirante deverá adotar. Esta, por exemplo, que é curiosa: antes de começar sua meditação, ele ficará a um ou dois passos do lugar onde a meditação será feita e ficará em pé durante o tempo de um Pai Nosso, elevando seu pensamento para o céu. Dir-se-ia, a curta parada que um fiel, entrando numa igreja, faz perto da pia de água benta, antes de ir para o seu lugar.
A contemplação se fará ora de joelhos, ora prostrado no chão, ora em pé, da maneira mais favorável ao resultado a obter.
Outras recomendações dizem respeito ao regime do sono e da alimentação, bem como às penitências corporais que o retirante se infligirá. Inácio de Loyola não negligencia nenhum pormenor no momento em que toma a seu cargo um discípulo para 30 dias de ascese.