Aquele que nele declarou esta guerra, está em paz com seus semelhantes, e, embora seja por inteiro o campo da mais violenta das batalhas, no fundo do fundo dele mesmo reina uma paz mais ativa que todas as guerras. E quanto mais reina a paz no fundo do fundo, no silêncio e na solidão central, mais voraz a guerra contra o tumulto das mentiras e a inominável ilusão.
Nesse vasto silêncio envolto em gritos de guerra, escondido do afora pela fugaz miragem do tempo, o eterno vencedor escuta as vozes de outros silêncios. Só, tendo dissolvido a ilusão de não estar só, não está mais só em ser só. Mas estou separado dele por exércitos de fantasmas que devo aniquilar. Possa eu um dia instalar-me nessa cidadela! Sobre as muralhas, seja destroçado até o osso, para que o tumulto não entre na câmara real!
"Mas matarei?", pergunta Arjuna o guerreiro. "Pagarei o tributo a César?", perguntou o outro. — Mata, lhe foi respondido, se eres um matador. Não tens escolha. Mas se tuas mãos se envermelharem do sangue dos inimigos, não deixes uma gôta comprometer a câmara real, onde espera o vencedor imóvel. — Paga, lhe foi respondido. Mas não deixes a César lançar um olhar sobre o tesouro real.
E eu que não tenho outra arma, no mundo do César, que não seja a palavra, eu que não tenho outra moeda, no mundo do César, que as palavras, falarei?
Falarei para chamar-me à guerra santa. Falarei para denunciar os traidores que alimentei. Falarei para que minhas palavras envergonhem minhas ações, até o dia onde uma paz encouraçada de trovões reinará na câmara do eterno vencedor.
E porque empreguei a palavra guerra — e essa palavra guerra não é mais hoje em dia que um simples ruído que as pessoas instruídas fazem com suas bocas, porque é agora uma palavra séria e carregada de sentido, se saberá que falo seriamente e que não são vãos ruídos que faço com minha boca.
René Daumal
Primavera de 1940