Das outras guerras — daquelas que se sofre — não falarei. Se disso falasse, isso seria literatura ordinária, um substituto, um na-falta-de, uma escusa. Como cheguei a empregar a palavra "terrível" enquanto não tinha o pelo eriçado. Como empreguei a expressão "cair de fome" enquanto ainda não havia chegado a roubar os mostruários. Como falei de loucura antes de ter tentado olhar o infinito pelo buraco da fechadura. Como falei da morte, antes de ter sentido minha língua sentir o gosto de sal do irreparável. Como alguns falam de pureza, que sempre se consideraram como superiores ao porco doméstico. Como alguns falam de liberdade, que adoram e repintam suas cadeias. Como alguns falam de amor, que só amam a sombra de si mesmos. Ou de sacrifício, que por nada se cortariam o dedo mindinho. Ou de conhecimento, que se disfarçam a seus próprios olhos. Como é nossa grande enfermidade de falar para não ver nada.
Isso sería um substituto impotente, como velhos e enfermos falam a vontade dos golpes que dão ou recebem os jovens saudáveis.
Tenho então direito de falar desta outra guerra — aquela que não se sofre somente — enquanto não está talvez irremediavelmente acesa em mim? Enquanto ainda nela estou em suas escaramuças? Certo, disto tenho raramente o direito. Mas "raramente o direito", quer dizer também "algumas vezes o dever" — e sobretudo "a necessidade", pois jamais terei muitos aliados.
Tentarei então falar da guerra santa.