Carregando...
 
Skip to main content

Literatura

Princípio da razão insuficiente

[...] e como uma pistola meteu-lhe no peito três perguntas: o que entendia por “verdadeiro amor à pátria”, “verdadeiro progresso” e “verdadeira Áustria”. Ulrich, perturbado em seu devaneio mas sem sair dele, respondeu da maneira com que sempre tratara Fischel:

— É o PDRI!

— O...? — soletrou o diretor Fischel, inocentemente, e dessa vez não pensou em nenhuma piada, pois aquelas siglas, embora naquele tempo ainda não fossem tão numerosas como hoje, eram conhecidas de sindicatos industriais e ligas, e inspiravam confiança. Mas depois disse:

— Por favor, não faça piadas; estou com pressa, preciso ir a uma reunião.

— O princípio da razão insuficiente! — repetiu Ulrich. — O senhor é filósofo e há de saber o que quer dizer o princípio da razão insuficiente. Só consigo mesmo o homem faz uma exceção nesse assunto; em nossa vida real, quero dizer a vida pessoal, e em nossa vida pública e histórica, sempre acontecem coisas que não têm razão suficiente.

Leo Fischel hesitou, sem saber se devia contradizer ou não; o diretor Leo Fischel do Banco Lloyd gostava de filosofar, ainda há dessas pessoas nas profissões práticas, mas estava realmente apressado; por isso respondeu:

— O senhor não quer me entender. Eu sei o que é progresso, sei o que é Áustria, e provavelmente sei o que é amor à pátria. Mas talvez não consiga imaginar direito o que é verdadeiro amor à pátria, verdadeira Áustria, e verdadeiro progresso. E por isso estou lhe perguntando!

— Muito bem; sabe o que é uma enzima ou um catalisador? Leo Fischel ergueu a mão, num gesto de recusa.

— Eles não contribuem com nada materialmente, mas desencadeiam os acontecimentos. Da história o senhor deve saber disso, pois que nunca existiram a verdadeira fé, a verdadeira moral, e a verdadeira filosofia; mesmo assim as guerras, perversidades e ódios causados por elas transformaram o mundo de maneira fecunda.

(MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Tr. Lya Luft & Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989)