(...) Existe no — eu gostaria de utilizar a palavra “intelectual” —, digamos, portanto, nos meios intelectuais — mas refiro-me aos da literatura —, um preconceito favorável a respeito das infrações contra a matemática, a lógica e a exatidão; na categoria dos crimes contra a mente, elas são facilmente classificadas como crimes políticos que honram seus autores, aqueles nos quais o promotor público encontra-se, propriamente falando, no papel do acusado. Sejamos generosos, portanto. Spengler deve ser abordado assim-assim; ele trabalha com analogias e, ao fazer isso, sempre se pode ter razão em algum sentido. Quando um autor quer pôr denominações erradas nos conceitos, de uma ponta à outra, ou confundi-los, eles próprios, podemos acabar por nos acostumar com isso. Mas é preciso manter um código de decifração, alguma ligação unívoca, em suma, do pensamento com a palavra. Também isso está ausente. Os exemplos que apresentei, e que foram levantados entre muitos outros, sem que fosse preciso procurar muito, não são erros de detalhe, mas um modo de pensar!
(MUSIL, Robert. “Geist und Erfahrung, Anmerkungen für Leser, welche dem Untergang des Abendlandes entronnen sind”, in: Gesammelte Werke in neun Bänden, v. VIII, pp. 1043-4.)