Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 10801 Paul Vulliaud – Cântico dos Cânticos – Comentários (críticas)

Vulliaud Cantico Critica Comentarios

VULLIAUD, Paul. Le Cantique des Cantiques. D’Après la tradition juif. Paris: PUF, 1925

Vulliaud

  • constata a pouca solidez das múltiplas hipóteses propostas pela escola racionalista para interpretar o Cântico dos Cânticos, salientando que cada significado atribuído ao poema, favorável por um momento, foi destronado por uma hipótese subsequente, e ironiza a afirmação de Renan sobre uma "quase unanimidade" entre os exegetas, observando que esse plano outrora "vitoriosamente estabelecido" está hoje em frangalhos.

  • recorda o sentido atribuído pelos partidários cristãos da alegoria, iniciado por Orígenes com base nas haggadoth judaicas, segundo o qual o poema significa o matrimônio de Cristo com a sua Igreja, uma ideia geralmente admitida, e, embora reconheça a existência de contraditores como Teodoro de Mopsuéstia, argumenta que a tradição patrística é favorável ao alegorismo, sendo a oposição composta por personalidades isoladas que combatiam a tradição eclesiástica em nome do seu senso privado.

  • critica a visão racionalista que faz remontar a J. F. Jacobi (1771) o início da verdadeira compreensão do poema, considerando tal entusiasmo infundado e reflexo de uma "monomania logomachique", e argumenta que, se a chave do sentido se perdeu e não pode ser encontrada nos autores mais próximos da sua composição, é pueril impertinência afirmar que um exegeta moderno a tenha descoberto.

  • descreve com sarcasmo os excessos da exegese alemã anterior a Jacobi, citando o luterano Heunisch, que via no Cântico uma profecia dos sete tempos da Igreja, correlacionando-o com o Apocalipse e prevendo eventos específicos como o ravio dos Turcos e a ruína do "papismo" em 1990, concluindo que todos os trabalhos que não respeitam o sentido tradicional são, na realidade, sem valor para a interpretação do poema.

  • defende que, sendo o Cântico uma obra judaica, o melhor meio para o compreender é estudar a tradição judaica, pois a tradição cristã primitiva é apenas uma adaptação da antiga interpretação judaica, e critica o Padre Jouon por, apesar de reconhecer esta necessidade, considerar a literatura rabínica incoerente e pueril, falhando assim em realizar plenamente as suas "judiciosas veleidades" de constituir uma mentalidade judaica.

  • afirma que os antigos doutores da Sinagoga reconheciam todos um mesmo sentido geral para o Cântico, e que a história da sua exegese entre os judeus segue um movimento paralelo ao dos cristãos, formando uma cadeia tradicional que se estende por uma dezena de séculos através do Talmude, do Targum e dos livros midráshicos, sendo as mesmas ideias tradicionais ainda oficialmente as da Sinagoga.

  • cita o conhecido aforismo de R. Akiba — "o mundo inteiro foi incomparável no dia em que o Cântico sublime foi transmitido a Israel, pois todos os 'Escritos' são santos, mas o sublime Cântico é o Santo dos Santos" — e, referindo-se a Joseph Halévy, sugere que a interpretação de Akiba, ao serviço de fins patrióticos, seduziu tanto os "patriotas" como os outros doutores, tornando-se oficial na Sinagoga.

  • reproduz uma seleção de citações talmúdicas que interpretam alegoricamente versículos do Cântico, demonstrando que Deus é o Esposo, a Assembleia de Israel é a Esposa, a Lei é simbolizada pelo vinho, etc., e que as interpretações particulares são obtidas através de métodos exegéticos rabínicos estabelecidos, como a separação de palavras, a transposição e a mudança de letras, e a substituição de palavras por analogia.

  • enfatiza que os métodos exegéticos e o sentido geral atribuído ao Cântico no Talmude são os mesmos de todos os antigos recónditos do judaísmo, como a Mechilta, o Siphra, o Siphré, o Targum, o Schir ha-Schirim rabba e os Pirké R. Eliezer, constituindo uma unidade de comentários inspirados pelo poema, sempre centrada na relação entre Deus, o Bem-Amado, e Israel, a Esposa.

  • reconhece a existência de textos excecionais, como um nos Pirké R. Eliezer e outro no Talmude (Eroubin), que utilizam uma alegoria fisiológica, referindo "jardim" à mulher, mas argumenta que os adversários do sentido místico, por não serem verdadeiros eruditos, ignoram estes textos e, sobretudo, negligenciam a esmagadora maioria de passagens que fundamentam os comentários místicos, salientando que os doutores aplicavam a sua arte simbólica nos vários planos: tropológico (moral), histórico e anagógico (espiritual).

  • conclui que é notável e decisivo o facto de os doutores, perante um poema que literalmente celebra um matrimónio, se terem aplicado particularmente a determinar o sentido histórico (eventos passados e futuros, incluindo a era messiânica) e o sentido anagógico, ou seja, o himeneu da alma (e da coletividade das almas israelitas) com Deus, um facto que confunde as teorias absurdas dos racionalistas e corrobora a interpretação tradicional e espiritual.