A IMORTALIDADE
Os sábios da antiguidade já discutiram se nossas almas sobrevivem à morte do corpo e estão emancipadas da força cega do destino: problema ainda mais intrincado e difícil, por um lado, pela ignorância dos homens; por outro, pela perversidade ou pelo vício daqueles que, tendo atribuído tudo aos sentidos corporais, concluíram que a alma nada sabe fora do qus cai sob o domínio dos mesmos. Outros, engolfados em seus deleites e prazeres, desejariam que tudo acabasse ao mesmo tempo que esta sua vida corporal, sem que houvesse um juiz que dela nos pedisse conta.
Tratando-se de questão de tal importância para toda a vida, para a religião e até para a felicidade dos homens, ou para sua total desgraça, a examinaremos com mais vagar. Não se deve tocar com leviandade o que é perigoso deixar sem resolver. (...)
Afirmam alguns que ninguém veio do outro mundo para contar-nos como são as coisas por lá e o que acontece; é esse o argumento do vulgo, que crê haver discorrido com isso algo engenhoso; mas sucede aqui como em tudo o que lhe é congênere. Porque ninguém havia ido às índias nem havia vindo nenhum índio a nosso país, não vamos negar que existam Índias c índios; e se de tantos milhares de anos até hoje não houve quem navegasse até aquele novo mundo, nem de lá até nós, nem se têm notícias de uma e outra parte, por que estranhar que não se haja estabelecido comunicação contínua entre as almas emancipadas de seus corpos e nós, seres corporais? Afinal, entre nós e aqueles homens remotos, há algum caminho, ainda que longo, intrincado, difícil, e é possível construi-lo e se o fez, mas impossível por leis naturais estabelecê-lo entre o homem e os céus ou o inferno; não pode haver correspondência alguma entre o corporal e o incorpóreo, nem seremos adequados à condição daqueles seres enquanto estivermos encerrados em um corpo corruptível. (...)
Nossos sentidos externos, como próprios da extensão, e dotados de ' quantidade, não percebem o que dela carece nem o que tem massa de maior amplitude que o seu alcance, nem o que está ausente. Os sentidos internos não percebem o espiritual, a saber, os anjos e Deus; assim, a inteligência, que é quem os concebe, conhece e compreende, única dos seres sublunares, é como aqueles um espírito, e quem entende a imortalidade daqueles tem também que ser imortal; em outro caso, não conceberia de maneira alguma o que a excedesse infinitamente em amplitude.
Demonstra-se todavia com mais clareza pelo fato de que não podemos compreender com nosso pensamento, opresso com tal magnitude, aquela porção da eternidade imensa anterior a nós, ao passo que concebemos e entendemos facilmente a que se seguirá pelos séculos infinitos; de onde parece notório que a primeira é mais vasta que nossa alma, a qual com ela não tem proporção nem qualquer analogia, mas sim com a segunda, que não é adequada a aquela, e o é a esta. (...)
Acontece com nossas almas o que com a água de um manancial, que sobe tão alto quanto a origem de onde procede, e não.mais, e assim como se detém abaixo do conhecimento de Deus, e ainda muito mais abaixo, também os sentidos estacam em ponto muito inferior às obras desta essência, não penetram em sua intimidade, exercitando-se sempre na superfície mais exterior. (...)
Um indício de que existe esse desejo da essência eterna, o qual nunca desaparece, é a ânsia de imortalizar nosso nome pelos séculos vindouros, tão inata no coração humano que mesmo aqueles que creem que tudo se acaba nesta vida, aspiram a fama apesar- disso, e até depois de sepultados desejariam ouvir falar bem deles; como aquele Epicuro, arauto da impiedade, recomendava no testamento que se celebrasse seu natalício oferecendo a seus discípulos um banquete no dia vigésimo da lua.
Aquele desejo natural de verdadeira imortalidade, depravado e corrompido pelas trevas do entendimento e por ignóbeis desejos da alma, degenerou nesta outra ambição de fama como uma semente boa ao cair sobre terra má. As paixões mesmas revelam qual é a natureza de nosso espírito e dos sentidos, a diferença entre aquelas e estes, tanto os internos como os externos. Com efeito: quando a alma começa a pensar em sua morte, os sentidos internos e a fantasia, se creem que esta vida há de ser longa, não se comovem muito com aquela outra morte, e chegam mesmo a não emprestar qualquer importância a tal pensamento. A alma, no entanto, envolve-se nessas trevas e enche-se de confusão ao ponto de nada mais temer e recusar. Os mesmos, vítimas dos maiores males, e que em um ímpeto cego desejam sua morte e aniquilamento total, se conseguissem voltar um pouco a si, tranquilizar-se e pensar na morte da alma, certamente abandonariam sua primeira intenção e estremeceriam ante a ideia de morrer, ajuizando que é um mal maior que todos os que sofreram antes. E, ao contrário, quando se pensa na morte imediata do corpo, todos os sentidos se comovem de imediato; porém o espírito, se estiver são e tranquilo, permanecerá imóvel, ridicularizará e corrigirá esse erro e esse medo dos sentidos. (...)
Deduz-se disto com evidência que a morte da alma é contra sua própria natureza, e que teme e repugna até o mencioná-la; que a morte corporal em nada afeta o espírito, mas que é só do corpo e daquele que lhe é anexo, isto é, dos sentidos internos e externos. (...)
Se a alma é mortal, tudo pertence a esta vida, e em vão o homem foi criado, visto não responder a nenhum fim proposto, ou a um que não seja digno de sua excelsitude, com o que em vão teriam sido formadas por Deus todas as coisas; nem teria objeto o creá-las se deveriam suprimir-se pouco depois de aparecerem, nem deveriam servir ao homem só para beber, dormir, divertir-se, sem em nada se diferenciar dos animais, sendo pelo contrário bem mais infeliz que eles, visto que nunca poderia alcançar aquilo que para ele é mais importante e apetecível, como declaram Aristóteles e Teofrasto. E se para nada é o homem trazido à vida, para quem no entanto estão a serviço todos os demais corpos de que só ele pode, quer e sabe usar, muito menos o serão as coisas que foram criadas para seu bem; inútil, portanto, a criação inteira, e indigna da majestade e sabedoria imensa de Deus, coisa que não é cabível pensar-se; igualmente nula seria a providência de quem governa o mundo; pois tão conexas e unidas se acham em nossa crença e convicção estes três preceitos: a religião, a Providência divina e a imortalidade de nossa alma, que de nenhum modo é lícito separá-las e dissociá-las uma de outra; se alguém tentasse destruir um deles, de fato prejudicaria a fé nos outros dois.
Se a alma não fosse "imortal", não haveria prêmios nem castigos para as ações boas e más, pois no transcurso desta vida vemos tão mesclados e confundidos nossos atos que toda ela não é mais que uma mera fraude, não existindo nesse caso "cuidado" algum endereçado a nós da parte de Deus; e se não nos "cuida", para que havemos de "servi-lo"? A "religião de Deus e a piedade" seriam crenças vãs e né-cias. (...)
Se alguém, como dizíamos há pouco, se põe a pensar que tudo absolutamente termina com a morte e mergulha em trevas perpétuas, toda pessoa boa e de coração nobre passará a aborrecê-la; nem será suficiente resignação alguma ou ânimo para deixar de temer a morte e evitá-la por todos os meios, assim como para esperá-la com a maior impaciência e para suportá-la quando a necessidade a fizer irremediável. Em meio a grandes sofrimentos, quando se deseja a morte e se a invoca como um porto de refúgio contra as tempestades, sobrevêm algum alívio e intervalo nas dores; quando alguém está com ânimo excitado, chama a morte, e ao apaziguar-se um pouco a excitação, consola-se a si mesmo com a esperança de que, ou cessara a dor, ou de que o tempo e o costume de sofrer o fará mais benigno. Em todo caso, essa luz é coisa grata de algum modo mesmo para os mais infelizes. Como não o será àqueles que não sentem sofrimentos corporais nem contratempos na vida? (...)
A um homem de ciência, após haver perscrutado com todo o esforço e propósito de sua inteligência os céus, os astros e os elementos; discorrido pelo estudo das plantas, animais, o homem, os anjos até o rei da criação; estudado os feitos da mais remota antiguidade, tudo o que no mundo aconteceu, nada mais amargo que lhe anunciar, nem que menor consolo traga, que em meio de tanta formosura, de um espetáculo tão risonho e admirável, há de extinguir-se a mente que contempla tais maravilhas, o receptáculo e tesouro de todas elas; que daí para diante cessará de perceber qualquer coisa, que não há de estar em nenhum lugar, da mesma forma que o abjeto espírito animal, vil e torpe, incapaz de toda elevação. Não haverá ninguém que após pensar isto não tema a morte, mesmo aquele que esteja sofrendo os mais graves males da vida.
E, pelo contrário, que grande consolo para o bom e o sábio em todas as circunstâncias da vida o saber que há um lugar de repouso, não de privação e ausência de todas as coisas, como imaginaram alguns nécios, pois o que não existe não pode repousar, mas lugar de felicidade disposto por um Deus justíssimo, onipresente e ótimo para aqueles que concorreram com sua boa vontade, com toda verdade e com toda sua alma, para viver bem e santamente! (...) Não quisera terminar este livro sem perguntar isto: "Por quê se admitem como verdades indubitáveis todas as demais que se afirmam da alma sem outra prova que conjeturas muito escassas e muito levianas, ao passo que só se tem por pouco firme esta da imortalidade, cercada e defendida por tal multidão de razões? Por mais que consideremos também como firmes e indubitáveis aquelas primeiras, o que nos interessa é declarar como certo que existe alguma força inimiga do homem, que se propõe contraverter essa verdade para nós tão necessária, e de cujas perniciosíssimas trevas Deus nos proteja, Ele luz imensa e verdadeira".