Primeira parte — A estrutura temporal da esfera objetivante e a experiência da individualidade
- Capítulo I — Panorâmica sobre a esfera objetivante
- A subjetividade objetivante e temporalidade
- Da vontade de poder como princípio de unidade da estrutura temporal objetivante
- A transcendência temporal da subjetividade objetivante
- A encarnação abstrata e as relações entre a essência e a existência
- A constituição objetivante e o desvelamento da essência objetiva
- A subjetividade objetivante e temporalidade
- Capítulo II — O problema da individualidade ao nível da esfera objetivante
- A individualidade objetiva e o fenômeno. O estatuto da individualidade ao nível da ontologia mecanicista
- A individualidade, a essência e o fenômeno ao nível das ciências físico-químicas (macrofísica clássica)
- O fenômeno enquanto propriedade e o problema da individuação no espaço
- O fenômeno como modificação no tempo e o estatuto ontológico da lei
- O fenômeno enquanto substância e estrutura: a individualidade, a estrutura e a essência
- A individualidade e a substância
- A ontologia do ponto material (a individualidade e a interação)
- A individualidade , a essência e a estrutura
- O problema da individualidade na microfísica contemporânea
- A perda da individualidade na microfísica contemporânea
- A interpretação mecanicista ou a negação da individualidade
- A individualidade, a essência e o fenômeno ao nível das ciências físico-químicas (macrofísica clássica)
- A individualidade e o ser: o estatuto da individualidade ao nível da ontologia finalista
- A interpretação finalista da microfísica e a individualização do real
- O ser e a individualidade em biologia
- O ser vivo e a finalidade
- A realidade da espécie e os lmites da individualidade biológica
- A individualidade biológica e a espécie: os graus da individualidade biológica
- A individualidade e a "colonização""o indivíduo e a coletividade biológica
- Individualidade e pessoa humana
- Conhecimento do homem; espécie, coletividade e devir humano
- O privilégio da subjetividade humana: a personalidade a historicidade "objetivantes"
- A individualidade a as coletividades humanas
- A individualidade e o devir das coletividades
- Os conflitos das coletividades. A individualidade e o devir da humanidade
- Existência do homem no quadro da esfera objetivante
- Conhecimento do homem; espécie, coletividade e devir humano
- A individualidade objetiva e o fenômeno. O estatuto da individualidade ao nível da ontologia mecanicista
O caráter mais geral desta esfera consiste numa integração do real no quadro de certas estruturas inteligíveis de ordem teórica (Ciência) ou prática (Técnica industrial ou social), tais que a subjetividade tenha o sentimento de triunfar ou pelo menos de poder triunfar a priori de todos os obstáculos e de todos os mistérios que se oporiam a seu desejo de apropriar-se e de assimilar 1
a totalidade do real existente. Não se trata aqui de caracterizar um momento psicológico particular de uma luta da subjetividade contra o real que visa integrar em totalidade na esfera de sua dominação: por exemplo o momento do desejo, do esforço, ou aquele da posse, isto é, da dominação esperada e aguardada, com o que ainda implica de risco eventual e de incerteza, ou o momento da dominação realizada que implicaria a calma apaziguadora e a transparência da posse.
Trata-se de um caráter que domina a totalidade dos diversos momentos que desdobra a atividade objetivante da subjetividade "lógica" e que é mais profundo que a aparente incerteza do desejo orientado para o futuro ou a aparente segurança de sua satisfação presente. De fato, esta "vontade de poder" que aqui se caracteriza apenas sob o aspecto que reveste na estrutura temporal objetivante, e que é por essência uma atividade de temporalização, comporta uma espécie de inquietude fundamental ou de negatividade sem a qual a sucessão temporal seria impossível, mas comporta ademais e simultaneamente uma certeza a priori concernente à totalidade do real que visa. A subjetividade objetivante enquanto tal está assegurada a priori de suas vitórias; seus fracassos aparentes não são senão limitações provisórias no arranco ilimitado de seu dinamismo conquistador.
As conotações afetivas e ativas desta noção de vontade de poder devem pôr em guarda contra uma interpretação puramente "teorizante" da subjetividade objetivante. Esta última revela-se simultaneamente atividade teórica orientada para a assimilação do real pelo conhecimento e atividade prática visando à posse do real na satisfação do desejo. Uma distinção demasiado radical entre a ordem "teórica" e a ordem "prática" arriscaria mascarar a unidade profunda desta estrutura, que banha numa atmosfera afetiva inclusive em suas démarches mais teóricas (a do cientista, por exemplo) e que implica inversamente uma atividade de conhecimento objetivante inclusive em suas démarches mais concretas, de ordem técnica ou social. A transcendência para um mundo objetivado que caracteriza esta estrutura temporal implica pois uma relação de ser, uma relação ontológica que faz que a subjetividade se acorde afetivamente com o aspecto do mundo que desvela, e que constitui a essência de todas as démarches que realiza, no juízo teórico e no raciocínio científico tanto quanto no manejo das ferramentas, ou em qualquer conduta social no quadro da vida "habitual". A racionalização científica do mundo, enquanto démarche teórica de "puro" conhecimento implica em sua raiz uma relação ontológica de desejo de posse em relação ao mundo e não o suposto desapego e o desinteresse da "razão pura".
A razão humana enquanto tal e sob sua forma mais "pura" está engajada no mundo que busca conhecer e compreender. Cada uma das modalidades de sua intencionalidade fundamental traduz um desejo de dominar o mundo, de conhecê-lo conforme às categorias do pensamento e às necessidades da atividade humana. Este engajamento no mundo ou este "ser-no-mundo", é correlativo de uma ligação necessária e íntima entre o pensamento e a ação. Se se pode dizer que a atividade teórica da subjetividade objetivante implica uma exigência necessária de atividade prática ulterior, é porque a atividade teórica enquanto tal implica já em sua essência e em sua raiz este elo fundamental de ordem afetiva e ontológica que se chamou "vontade de poder" e pelo qual a subjetividade está orientada para a dominação e a posse do mundo. Tal é a justificação verdadeira, cremos, das pretensões de um idealismo de tipo kantiano de fazer da subjetividade humana a legisladora da Natureza. Se a razão humana pode aparecer a si mesma como impondo suas próprias leis à Natureza, é porque a consciência identificou-se com a vontade de poder.
Isso não significa que o mundo apareça como um puro produto da subjetividade humana, mas que suas principais estruturas e articulações são delimitadas em função da vontade de poder pela qual a subjetividade busca assimilá-lo e dominá-lo.
Ter-se-á de examinar posteriormente de que maneira opera-se esta "tomada em carga" do real pela subjetividade objetivante, e como a pureza das "essências" visadas pela razão é como contaminada aqui por uma necessária "existencialização" em virtude da determinação ontológica e afetiva que constitui a "vontade de poder". Mas cumpre descrever antes a atividade de temporalização sobre a qual se fundam em última análise os diversos modos de desvelamento do real que caracterizam a subjetividade objetivante.