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id da página: 13254 Francis Utéza – J.G.R: Metafísica do ''Grande Sertão'' – Conclusão Guimarães Rosa

Uteza JGR

Francis Utéza – J.G.R: Metafísica do ''Grande Sertão'' – Conclusão

UTÉZA, Francis. JGR: metafísica do grande sertão. São Paulo, SP, Brasil: Edusp, 1994.

No começo desta pesquisa, fixamos um duplo objetivo: estabelecer os fundamentos metafísicos sobre que repousa a aventura de Riobaldo e chegar a uma visão global de GSV que dê conta ao mesmo tempo, no leque mais amplo possível de episódios, tanto do detalhe desse substrato metafísico como do instrumento linguístico que lhe serve de suporte.

Nesta perspectiva, nossa caminhada mostra no começo a necessidade de uma leitura crítica que recuse toda adesão incondicional às tomadas de posição do narrador e ainda mais às de sua encarnação anterior no mundo dos jagunços. Com efeito, o jagunço vivia num redemoinho de acontecimentos ignorando as forças reais que impunham a seu destino uma direção precisa; e do fazendeiro pode-se dizer que o conhecimento de que dispõe hoje é puramente intuitivo: não tendo atingido a plena luz da consciência, coexiste com a herança cultural de que o personagem não consegue se libertar completamente; e essa coexistência é uma fonte de conflito.

O conflito que agita sempre esse homem maduro não se reduz a uma oposição entre as estruturas religiosas primitivas da consciência e aquelas que se pretendem iluminadas pelo pensamento lógico e racional em vigor no mundo “civilizado”. O “ponteador de opostos”, portador do ponto de vista “moderno” do Ocidente racionalista que vimos manifestar-se mais de uma vez, entra em confronto em seu foro íntimo com uma dupla oposição: de um lado, a que vem dos mitos do Ocidente cristão com os quais está mais familiarizado e sob os quais continua vivo o substrato anterior ao cristianismo; do outro lado, a que ele não consegue identificar, porque se origina nos princípios metafísicos de um Oriente taoísta que ele desconhece. De qualquer maneira, a solução eventual deste conflito projeta-se numa volta às fontes religiosas, e não numa eventual repulsa do irracional em benefício da consciência agnóstica. Longe de preconizar nem sugerir a primazia da lógica cartesiana, o barranqueiro não pára de se interrogar sobre aquilo que, com Quelemém, qualifica de a “sobre-coisa”. Se a paz interior ainda não chegou, é que a gente não se liberta tão facilmente do sentimento de culpa fundamental sobre que repousa a educação judaico-cristã.

Respondendo ao convite para colaborar no estabelecimento dos fundamentos metafísicos desta “sobre-coisa”, trouxemos um conjunto de dados e argumentos que esclarecem, numa perspectiva coerente, a imensa maioria dos enigmas suscitados pelo discurso do narrador: se todos esses enigmas não foram sistematicamente abordados e resolvidos, pensamos ter demonstrado que um método eficaz de desvelamento passa por um crivo em que se conjugam os critérios esotéricos da alquimia e do taoísmo.

À luz desses critérios, vimos que os fatos retidos pela memória do narrador — quer se trate de acontecimentos próprios de episódios maiores sobre que ele se estende longamente, quer de “detalhes” aparentemente secundários que relata com negligência em seu discurso — tomam um relevo que nenhuma análise do tipo “realista” permitiu patentear até aqui. Pudemos, notadamente, pôr em evidência o fato de que o percurso de Riobaldo desenha no sertão geográfico uma rede sagrada, numa sucessão de “passagens pelo Centro”, de “saltos no Grande Tempo” que fazem reviver nas terras da América alguns grandes mitos das religiões antigas do Egito e da Babilônia, do mundo hebraico e da Grécia antiga, em alternância, e às vezes mesmo em simbiose com as referências tomadas dos relatos primordiais do Novo Testamento — relatos em que ocupa lugar de primeira importância São João. Concluímos que o narrador se toma um Sumo Pontífice que celebra os ritos da Religião Primordial, numa liturgia que tem como tela de fundo a Paixão do jagunço Riobaldo em busca da Coincidentia Oppositorum nas Veredas brasileiras do Grande Ser Tão.

Além disso, descobrimos que certas componentes desta “sobre-coisa” jazem no subconsciente de quem fala, sob forma de reminiscências de vidas anteriores, e estão, pois, ligadas ao tema maior da reencamação e de seu corolário, o carma — doutrina esotérica característica do hinduísmo, mas também do espiritismo cujo porta-voz em GSV é Quelemém. Esse tema, nós o vimos surgir desde o começo na série de exemplos que abre o discurso; e permitiu, na sequência, não somente compreender certos sentimentos do protagonista — por exemplo, essa atração pelos estrangeiros que cruzam seu caminho, como o alemão Vupes, Rosa’uarda e o turco seu pai, ou esse ódio visceral que tem ao Hermógenes —, mas, ainda e sobretudo, decifrar formas de comportamento que ele mesmo não consegue explicar — como a execução de Treciziano pelo avatar brasileiro de um samurai japonês, ou a designação de Garanço e do Montesclarense na véspera da batalha dos Angicos por um agente da Diké, levando-os por essa escolha à morte. Numa ultrapassagem da dialética do Bem e do Mal, de fato é o seu próprio destino que o narrador sugere interpretar pela doutrina espírita-hinduísta do carma, quando inclui até sua própria relação com Diadorim num encadeamento que termina com a eliminação do Hermógenes:

Para poder matar o Hermógenes era que eu tinha conhecido Diadorim, e gostado dele, e seguido essas malaventuranças, por toda a parte? [p. 409]

A modo que o resumo da minha vida, em desde menino, era para dar cabo definitivo do Hermógenes — naquele dia, naquele lugar [p. 434].


Demonstramos ainda que esta “sobre-coisa” se exprime também no comportamento do protagonista, por meio das energias que escapam ao controle de sua vontade e que identificamos: são as forças que regem o conjunto do Cosmos, ritmando a vida nos tempos de expansão e de retração — e isto em todos os níveis, com o movimento do Microcosmos correspondendo, da sístole à diástole, à respiração do Macrocosmos. Deste modo, o protagonista sente vibrar em seu coração poderes que o ultrapassam, pondo em movimento os mecanismos que levam ao ato. Desvelamos igualmente o funcionamento desses mecanismos na interação dinâmica dos Arquétipos yin e yang, materializados no sertão terrestre pelas encarnações de múltiplas facetas, positivas e negativas, da Grande Deusa e do Pai Todo-Poderoso — facetas ao mesmo tempo opostas e complementares, de que o Andrógino anima a convergência paradoxal na pessoa de Diadorim.

Em presença desses dados metafísicos cuja conjugação determina a travessia iniciática do herói, desde seu despertar para a vida consciente até a volta simbólica para a Terra-Mãe onde ele revive sua Odisseia, não nos cabe discutir sua validade nem pesquisar em que medida eles ilustram uma ortodoxia qualquer: GSV é uma obra de arte, não um tratado de teologia nem um compêndio de metafísica, e quanto ao que nos cabe, não pretendemos trazer nenhuma “mensagem” de qualquer tipo de “revelação”. Nós nos limitaremos, pois, a lembrar que é exatamente sobre esses dados que repousam as tradições esotéricas do Oriente e do Ocidente, e a formular nossa tese segundo a qual essas duas tradições, de que o escritor estava perfeitamente informado, se integram de modo sutil, até mesmo em seus detalhes mais específicos, no texto de GSV, constituindo chaves particularmente eficazes para sua compreensão — chaves que, entretanto, não se oferecem inconsideradamente a todos os que dele se aproximam.

Nestas condições, as qualidades “romanescas” da narrativa funcionam como iscas suscetíveis de levar à metafísica: a intriga que seduz — Rosa, é preciso não esquecer, lhe atribuía apenas vinte por cento do valor de sua obra em carta de 25 de novembro de 1963 dirigida a Bizzarri —, o décor regionalista que exita a curiosidade, a arte da narração que cativa o interesse, a violência que eriça e o humor que distende são concessões a uma leitura de primeiro grau. Mas, espicaçado pela multiplicidade de problemas que se põem, o leitor para o qual a literatura não é um passatempo inconsequente se esforçará para contribuir com sua pedra na edificação do monumento, atendendo ao convite do escritor que o solicita através do narrador. A partir de uma teia muito densa de índices sobre a qual se elabora o discurso de Riobaldo, ao último destinatário incumbe reconstruir o puzzle com um máximo de coerência: muito frequentemente, as questões que se põem encontram formas de respostas no meio linguístico próximo; não é raro, porém, que se insiram no contexto dados que parecem nada ter a fazer ali — uma ilustração muito clara vimos no caso de Sizino Ló. É um andamento que nada tem de original. É o andamento dos filósofos hermetistas que, embaralhando a ordem das ideias, exigem do leitor que disponha de um mínimo de saber e esforço para ter acesso aos arcanos:

Vocês, filhos da Doutrina e da Sabedoria, procurem neste livro, reunam aquilo que disseminamos e demos como migalha aqui e ali. Aquilo que parece escondido num lugar está explicado em outro, a fim de que se possa descobrir.1


Esta citação de Cornélio Agripa que figura como epígrafe no último romance de Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault, podería muito bem estar no frontispício do Grande Sertão: Veredas.

Porém, aqui, o acesso a esta “sabedoria” se complica um pouco mais pelo fato de que o conteúdo esotérico, em si próprio árduo, se cristaliza sob a forma de um enunciado que, se não é propriamente falando sibilino, não deixa de ser menos codificado. O manejo desse instrumento linguístico — o segundo volet de nossas preocupações iniciais — reclama da parte do leitor uma disponibilidade permanente para um trabalho de depuração capaz de eliminar as escórias acumuladas por gerações de usuários e que ocultam as fontes vivas da língua. Ora, os hábitos de pensar impregnam até mesmo a linguagem: por detrás das palavras se projeta um visão estereotipada do mundo. Assim, na língua portuguesa jaz boa parte do Ocidente cristão, e Riobaldo adverte de início que ele não pretende se reduzir apenas a esta perspectiva:

Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca [p. 15].


Para isto ele se obriga a diferenciar sua linguagem em relação à norma de seu meio. A pseudolinguagem do interior de Minas que ele parece utilizar é apenas um engodo suplementar que oculta a “sobre-coisa”. Mas, para “aqueles que têm ouvidos para escutar”, é também um convite para empreender a exegese de que esperamos ter demonstrado que a análise etimológica constitui um dos métodos mais fecundos.

Mas esta análise etimológica não é nem forçosamente nem unicamente a dos filólogos: inscreve-se na linha direta dos diálogos de Platão sobre a origem das palavras e dos nomes de pessoas — o Crátilo em primeiro lugar, onde, curiosa “coincidência”, o interlocutor de Sócrates se chama Hermógenes, filho de Hipônico, ou “o vencedor dos cavalos”, que não está distante do nosso Hermógenes Rodrigue Felipes. Esta análise liga-se igualmente ao Nirukta 1 védico e, de um modo mais geral, a todas as especulações que dizem respeito ao caráter sagrado da origem das línguas, a que se pretende remontar pelo jogo das analogias sonoras até o Verbo primordial. É, sem dúvida, a teoria de que Rosa falava a Lorenz quando afirmava:

O idioma é a única porta para o infinito.


A partir do magma fornecido à guisa de matéria-prima, insiste-se com o leitor para que ele também empreenda a Grande Obra Alquímica do Verbo, sob o patrocínio de um guia que se esconde por detrás do narrador semi-analfabeto e que não se pode considerar como um contador de estórias que borda a talagarça de suas lembranças com o objetivo de extrair a narrativa da própria vida, de modo a manter suspensa a respiração de um auditório ávido de um mundo exótico. A aparente fluidez oral de GSV não é suscetível de variantes, pois o essencial da “mensagem” repousa na precisão dos termos, escolhidos de acordo com uma sábia dosagem. Não é um texto que seu autor pretendia fazer passar por um discurso, mas um poema no sentido forte, mágico e encantatório. Não seria possível admitir outra forma sem perder sua virtude apocalíptica.

Nesta via, o escritor encontra os filhos de Hermes que, para transmitir a “Gay Science”, se utilizam daquela “Língua dos Pássaros” em que, uma vez partida a casca das palavras, aguarda-se o resplendor da divina luz do Espírito. Nela encontra também os Fedeli d’Amore, preocupados em comunicar pelo Trobar Clus literário uma mensagem espiritual oculta e, entre eles, evidentemente, Dante, de quem sopramos para Riobaldo, que a aprovaria com certeza, a fórmula com que se despedir:

Agora, se tu queres um prazer que ultrapasse
Tua pena, ó meu leitor, continua sentado em tua cadeira,
Meditando por ti mesmo naquilo que aqui aflorei.
Eu te servi; come agora sozinho.
(Paraíso, X)


Explorador do real que não é a realidade a que se confinam as ciências experimentais, alquimista do Verbo a imprimir um sentido mais puro nas palavras da tribo, João Guimarães Rosa de Cordisburgo — o Cavaleiro da Rosa do Castelo do Coração — ocupa um lugar original entre todos os êmulos de Orfeu cujo canto repercute nas veredas da caverna dos homens o eco sonoro das vozes do Grande Sertão.