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id da página: 4380 Tertuliano – A Oração

Tertuliano Oração

Tertuliano — A Oração

Tradução Abade Timóteo Amoroso Anastácio
O pequeno tratado "De Oratione" deve ter sido escrito entre 198-200. Nele encontramos o mais antigo e belíssimo comentário do Pai nosso. Ele focaliza de modo admirável a novidade essencial do cristianismo: uma nova forma de oração é dada "aos novos discípulos do Novo Testamento", que podem chamar Deus de Pai.

Também faz menção das Horas menores, Terça, Sexta e Noa (XXV), baseando-as na Sagrada Escritura.

Na recomendação de rezar com o hóspede (XXVI, 1), por exemplo, encontramos uma das "fontes" de N. P. S. Bento.


Cristo ensina uma nova forma de oração


1 Jesus Cristo, nosso Senhor, que é tanto Espírito de Deus, como Palavra (sermo) de Deus e Verbo (ratio) de Deus, (Palavra do Verbo e Verbo da Palavra), instituiu para os novos discípulos do Novo Testamento uma nova forma de oração.

Convinha, realmente, que também nesse plano se guardasse o vinho novo em odres novos, e se costurasse um pano novo numa veste nova (cf. Mt 9,16-17; Mc 2, 21-22; Lc 5, 36-39). De resto, tudo que viera antes, ou foi inteiramente abolido como a circuncisão, ou foi completado como o resto da Lei, ou cumprido como a profecia, ou levado à perfeição como a própria fé.

2 A nova graça de Deus renovou todas as coisas, fazendo-as passar de carnais a espirituais, mediante o Evangelho, que opera a revisão de todas as coisas antigas.

Pelo Evangelho, nosso Senhor Jesus Cristo se fez reconhecer como Espírito de Deus, Palavra de Deus e Verbo de Deus: Espírito, por seu poder eficaz; Palavra, por seu ensinamento; Verbo, por sua vinda.

Assim, pois, a oração instituída por Cristo reúne três dimensões: a do Espírito, razão da sua grande eficácia; a da Palavra, em que ela se exprime; e do Verbo ...

João já ensinara seus discípulos a orar


3 Também João Batista já ensinara seus discípulos a orar. Mas tudo em João era preparação à vinda de Cristo.

Quando Cristo cresceu — e João já anunciara que era preciso que Cristo crescesse e ele mesmo diminuísse (cf. Jo 3,30) — toda a obra do precursor se transferiu para o Senhor, segundo o espírito de João.

Por isso, nada nos resta das palavras com que João ensinou a orar, pois as coisas terrenas deram lugar às celestes. "Quem é da terra, diz João, fala o que é da terra, mas o que vem do céu fala daquilo que viu" (Jo 3,31-32). E o que não é celeste no Cristo Senhor, inclusive o seu ensinamento sobre a oração?

Como orar


4 Consideremos, pois, irmãos abençoados, a celeste sabedoria de Cristo, que se manifesta, em primeiro lugar, pelo preceito de orar em segredo ( cf. Mt 6,6).

Por aí Cristo induzia o homem a acreditar que o Deus Onipotente nos vê e nos escuta em toda parte, mesmo em casa e nos lugares mais escondidos. Ao mesmo tempo, ele queria que a nossa fé fosse discreta, de modo que, confiante na presença e no olhar de Deus em toda parte, reservasse o homem só a Deus a sua veneração.

5 Já no preceito seguinte (cf. Mt 6,7), se manifesta uma sabedoria que se refere tanto à fé, como ao discernimento da fé.

Pois, certos de que Deus em sua providência olha pelos seus, não se deve pensar que para nos aproximarmos dele precisamos de muitas palavras.

Uma oração breve


6 Aqui chegamos, por assim dizer, ao terceiro grau da sabedoria. Com efeito, essa brevidade está apoiada na significação de palavras grandes e felizes, pois quanto mais curta, mais rica de sentido é esta oração.

De fato, ela não compreende apenas a exigência própria da oração, isto é, a veneração de Deus e a súplica do homem, mas quase todas as palavras do Senhor. Constitui uma lembrança de todo o seu ensinamento, de tal modo que nela temos uma síntese de todo o Evangelho.


"Pai, que estás no céu"

1 Começamos por um testemunho sobre Deus e pelo efeito da fé, quando dizemos: "Pai, que estás no céu" . De fato, aí não só oramos a Deus, mas também mostramos a nossa fé, que tem por consequência chamá-lo de Pai. Como está escrito, "Àqueles que creem em Deus, foi-lhes dado o poder de ser chamados filhos de Deus" (Jo 1,12).

2 Aliás, o Senhor, muitas vezes, nos faz saber que Deus é Pai. Até mesmo ordenou que a ninguém chamemos de Pai sobre a terra (cf.Mt 23,9), mas só àquele que temos no céu. Portanto, ao orar desta forma, cumprimos também um preceito.

3 Felizes aqueles que reconhecem o Pai. Eis o que Deus censura a Israel, eis o que afirma, chamando por testemunhas o céu e a terra: "Gerei filhos, e eles não me reconheceram" (Is 1,2).

4 Dizendo, pois, Pai, damos a Deus o seu nome, termo que significa atitude filial e autoridade.

5 Dizendo Pai, invocamos também o Filho. O Senhor disse: "Eu e o Pai somos um" (Jo 10,30).

6 Nem mesmo a Mãe Igreja é preterida, pois no Filho e no Pai reconhecemos também a Mãe, que nos atesta o nome do Pai e do Filho.

7 Assim, por esta única relação de afinidade, adoramos a Deus, cumprimos o preceito e condenamos os que esquecem seu Pai.


Cristo nos revela o Pai


1 O Nome de Deus como Pai, antes, a ninguém fora revelado. Mesmo a Moisés, que perguntara a Deus seu nome, um outro nome foi dito.

Quem no-lo revelou foi o Filho. É preciso que haja o nome do Filho, para de novo termos o nome do Pai. O Senhor disse: "Eu vim em nome de meu Pai" (Jo 5,43). E ainda: "Pai, glorifica o teu nome" (Jo 12,28). E ainda mais claramente: "Eu manifestei o teu nome aos homens" (Jo 17,6).

"Santificado seja o teu nome"

2 Pedimos, pois, que esse nome seja santificado.

Não que caiba aos homens desejar o bem a Deus, como se alguém lhe possa dar qualquer coisa. Ou que Deus passe necessidade, sem os nossos votos.

Mas é muito conveniente que Deus seja bendito em todo tempo e lugar pelo homem. Com efeito, todos os homens devem se lembrar, sem cessar, dos benefícios divinos. Este pedido tem a função de bendizer a Deus.

3 Quando, aliás, deixa o Nome de Deus de ser santo e santificado por si mesmo? Não é, acaso, por meio dele, que os outros são santificados? Os anjos em torno de Deus não cessam de dizer: Santo, Santo, Santo! Da mesma forma, também nós, destinados a viver em companhia dos anjos, se o merecermos, aprendemos desde já na terra, este louvor a Deus, assim como aprendemos o que faremos no futuro, na glória.

4 Eis o que se refere à glória de Deus.

Mas, o que é que pedimos para nós, ao dizer: "Santificado seja o teu nome" ?

Pedimos, na realidade, que ele seja santificado em nós, que o ouvimos, e também naqueles que Deus ainda aguarda com a sua graça.

Assim, orando por todos, observamos igualmente um outro preceito evangélico, que é de rezar por todos, mesmo os nossos inimigos (cf. Mt 5,44). Não dizendo que o Nome de Deus seja santificado em nós, estamos dizendo que ele seja santificado em todos.