Excertos de sua apresentação ao livro O DESPERTAR DO BUDA
Superação do Desejo
A tentação dos extremos
Encontrou seu primeiro mestre que o introduziu no mundo do monacato brâmane de seu tempo, e com zelo de noviço, começou a segui-lo até dar-se conta de que esse não era o seu mestre. Deixou-o para procurar um segundo, e um terceiro. E também se deu conta de que, sendo ele quem era, seguir um mestre não era a solução. Passou seis anos seguindo os ensinamentos desses três mestres, e com zelo de convertido chegou aos extremos, diminuindo a cada dia os grãos de arroz que comia, até que, conta a lenda, foi possível ver-lhe o esterno por trás, suas costelas ficaram transparentes e ele ficou reduzido praticamente a um esqueleto.
Cruzando o rio, um dia encontrou uma linda donzela, chamada Sujâtâ, recordada mais tarde por todas as Escrituras, que lhe deu comida, com certeza movida pela compaixão. Os cinco discípulos que ao final desse período o acompanhavam, escandalizados com o fato de ele ter aceitado comida das mãos de uma donzela formosa, o abandonaram e ele ficou só (porque, depois de dar-lhe de comer, Sujâtâ também desapareceu). Continuou sozinho, mas compreendeu que todo extremo ascético é contraproducente e que nem no palácio real, nem na cabana do mendicante, poderia encontrar aquilo que buscava, e só sabia aquilo que não queria: não queria ser rei, não queria ser monge, não queria poder, não queria renunciar a tudo. Assim, deixou de ser sannyâsi e prosseguiu sua peregrinação para as cercanias do Ganges, passando por uma das capitais de seu tempo, Pâtaliputra, e se estabeleceu num lugar que hoje em dia tem uma parte de seu nome, Bodhi-Gayâ, e ali, debaixo de uma árvore, a ficus religiosa, árvore sagrada da tradição brâmane, ficou, tentando decifrar o mistério da vida e da morte, entender a injustiça da pobreza e a realidade do divino, abarcar o passado e o presente; e quando ficou de todo sossegado, deu-se conta de que também podia ultrapassar a ordem temporal e ver o futuro.