HIPÓSTASE E PESSOA
Hipóstase, segundo o uso mais frequente desta voz, é o mesmo que suposto ou pessoa. Esta asserção só depende da noção e significado desta voz hipóstasis, que é grega, e tem várias significações. Pois se deriva essa voz do verbo grego histemi ou histamai com a preposição hipo, que pode significar ser ou estar sob, pelo que hipóstase significava antigamente tudo aquilo que está sob algo, como a borra ou a matéria espessa que está no fundo dos líquidos, segundo se pode entender o Salmo 68: Estou preso ao lodo do mais profundo, e não há substância, em grego hipóstasis, isto é, e não há fundo em que me possa suster. Significa também o fundamento de uma coisa, como diz São Paulo (Hebreus, II) da fé: Ba substância das coisas que se esperam, em grego hipóstasis, isto é, fundamento. Porém, porque o subsistir convém propriamente à substância, e é como o fundamento de toda coisa existente, essa voz passou a significar a substância, quer absolutamente, quer em especial, a substância singular e incomunicável. . . E como a voz latina substantia é equívoca, e signilica às vezes a essência, em certas ocasiões se tomou aquela voz para significar a essência.. . E por esta razão São Jerônimo, . . negava-se a conceder três hipóstases na Trindade. . . Porém se definiu e distinguiu os significados destas vozes, para suprimir esse equívoco, tanto no uso dos gregos como dos latinos. Pois a natureza substancial, enquanto se distingue real ou racionalmente do suposto, chama-se em grego usía, em latim essentia. Por sua vez, a substância subsistente singularmente, e incomunicável com as demais substâncias semelhantes, assim como em latim se denomina suposto e pessoa, em grego se chama hipóstase, e por isto, como nós admitimos três pessoas, os gregos admitem na Trindade três hipóstases, e deste modo cessou a leve discórdia que começara a surgir pela probreza dos vocábulos entre os católicos latinos e gregos, como disse elegantemente São Gregório Nazianzeno. . . Portanto, já se toma no uso comum, mesmo dos latinos, a voz hipóstase, quase sempre nesta última significação. Entretanto se usa no geral para significar uma coisa subsistente de um modo incomunicável em qualquer natureza, e assim significa o mesmo que suposto, e deste modo diz São Tomás que a pessoa acrescenta à hipóstase uma natureza determinada, a saber, racional...; porém algumas vezes. . ., embora o nome hipóstase signifique em grego, pelo sentido próprio da língua, uma substância individual de qualquer natureza, pelo uso dos que falarn significa um indivíduo de natureza racional somente. Assim se vê, pois, como é o mesmo hipóstase que pessoa, segundo vários significados.
Porém São Tomás acrescenta que hipóstase e subsistência são realmente o mesmo, mas diferem pela razão, pois uma mesma substância primeira, enquanto subsiste se chama subsistência; mas enquanto está sob, se chama hipóstase. Porém, pelo que toca ao nome hipóstase, embora se acha imposto talvez por aquele modo de ser, não o significa, nem sequer o exige sempre na coisa significada, pois as pessoas divinas são, no sentido mais próprio, hipóstase, embora não "estejam sob". Inclusive referentemente à etimologia, embora hipóstase se diga como supstante, não se pode dizer, no entanto, do subsistir, pois, como disse em outro lugar o mesmo São Tomás, diz-se que algo subsiste enquanto está sob seu ser, não porque tenha seu ser em alguém como em um sujeito, mas o que é como por si e, por assim o dizer, sustenta-se em si, e ele mesmo é como sujeito primeiro ou fundamento de seu ser. Pelo que se refere ao nome de subsistência, já se disse mais acima que em se o tomando na força da abstração, não significa a mesma coisa subsistente, mas a razão de subsistir, a qual, se inclui a incomunicabilidade, é também a razão que constitui a hipóstase; porém em se o tomando em concreto e sendo uma subsistência incomunicável, é o mesmo que a hipóstase e o suposto. Quanto ao mais, pela força do significado e da razão significada, parece mais ampla a subsistência que a hipóstase, pelo menos em Deus, no qual pode haver uma subsistência comunicável; nas criaturas, porém, são conversíveis e se equiparam entre si do mesmo modo que a substância primeira e o suposto, pelas mesmas razões dadas acima.