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id da página: 8390 Sicuteri Lilith

Sicuteri Lilith

Simbolismo — Roberto Sicuteri


Excertos de seu livro "Lilith"

Na aurora do mundo, IHWH Deus pensou em criar o homem para que pudesse se tornar o coroamento da Criação. E Deus disse: "Façamos o homem, que seja a nossa imagem, segundo a nossa semelhança".

Assim, Ele estendeu a sua mão sobre a superfície da Terra, talvez ali onde estava o monte Moriah e, apanhando poeira fina, misturou-a com outra terra das quatro partes do mundo , borrifada com água de cada rio e cada mar existente. Uma massa de epher, dam, marah (pó, sangue e bile) que deu vida a Adão, o primeiro 'Homem vivente. YHWH Deus colocou Adão no Jardim do Éden para que lhe fizesse honra.

Qual era a natureza do primeiro homem? Conheceu ele a aspereza da solidão e da própria singularidade? Talvez observasse tantos animais entre seus semelhantes — cavalos, cabras, pássaros, répteis e peixes — que se admirava de se ver só.

Nós pensamos na primeira estrutura afetiva e sexual de Adão em termos antropológicos, mas existe um mistério ainda mais obscuro que devemos encarar, quando se fala da primeira companheira do homem, de sua primeira esposa. É a mitologia bíblica que nos ajuda a imaginar Adão — em sentido psíquico — como um verdadeiro e real androgginos, isto é, macho e fêmea. No Gênesis I, 27 é dito: "Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea o criou". É a passagem mais densa de mistério, pois introduz o conceito da androginia no indivíduo segundo o supremo princípio da harmonia total do Uno que é feito de Dois; mas é também conceito que consente em perpetuar na terra — mediante a multiplicação da espécie na união do macho com a fêmea — a imagem de Deus, pois o homem lhe é semelhante. Adão trazia em si, fundidos, o princípio masculino e o princípio feminino e tais princípios só depois foram separados sucessivamente. Já está implícita a resposta: Adão teve duas naturezas femininas, duas companheiras. Mas procedamos com ordem ao analisar o mito da primeira esposa do homem. Muitas são as fontes que permitem ver, nas aparentes contradições dos vários capítulos do Gênesis, uma criação da mulher que respondia primeiro a motivações teológicas e, depois, a justificações antropológicas. Adão era em si andrógino.

No Livro do Esplendor — o Sepher Ha-Zohar — é citada esta passagem:

Rabi Abba disse: O primeiro homem era macho e fêmea ao mesmo tempo pois a escritura diz: E Elohim disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gên. I, 26). É precisamente para que o homem se assemelhasse a Deus que foi criado macho e fêmea ao mesmo tempo.

O enigma está no versículo citado do Gênesis onde é dito . . o criou" e logo após é dito em vez "os criou". Adão teria sido, pois, para o Gênesis I, 26-27, dois em um, homem e mulher. Ainda o Rabi Simeão, no Zohar, fala assim:

Está escrito — Os criou macho e fêmea — (Gên. V, 2). Estes dois versículos do início do quinto capítulo do Gênesis encerram grandes mistérios. Nas palavras "Os criou macho e fêmea" é expresso o mistério supremo, que constitui a glória de Deus, que é inacessível à inteligência humana e que constitui objeto de Fé. É por este mistério que o Homem foi criado. Recordem que o homem foi criado pelo mesmo mistério através do qual foram criados o céu e a terra — as Escrituras se servem da expressão "eis a Gênese do céu e da terra", e para a criação do homem elas usam expressão semelhante: "eis o livro da Gênese do Homem".

O Rabi Simeão ben Jochai prossegue sua fala, sempre sobre o mesmo tema:

. . . Além disso, para a criação do céu e da terra, as Escrituras se servem do termo behibaream (= quando foram criados), e para a criação do homem as Escrituras se servem da expressão análoga beyom hibaream (= no dia em que eles foram criados). As Escrituras dizem: "os criou macho e fêmea". Nós deduzimos que cada figura, que não apresenta em si o macho e a fêmea, não se assemelha à figura celeste. Este mistério já foi explicado. Recorde-se que o Senhor . . . não permanece onde o macho e a fêmea não estão unidos. Ele cobre com suas bênçãos somente o lugar onde o macho e a fêmea estão unidos. É por isto que as Escrituras dizem "os abençoou e deu a eles o nome de Adão".

Pois as Escrituras não dizem: o abençoou e lhe deu o nome de Adão, visto que Deus só abençoa quando o macho e a fêmea estão unidos. O macho não merece o nome de homem, enquanto não está unido à fêmea; é por isto que as Escrituras dizem: "E deu a eles o nome de homem" (I, 55b).

É evidente aqui a referência à imagem das núpcias místicas, a verdadeira e profunda alquimia dos contrários, a coincidentia oppositorum dos princípios antagônicos e complementares de Sol e Lua, que C. G. Jung analisou no comentário ao Rosarium Philosophorum.

No Zohar, o Rabi Abba repete ainda que, no momento da criação, Deus fez o homem à imagem do mundo do alto e à daquele de baixo; ele era a síntese do todo, a imagem do todo; nele estavam todos os Sephiroth, isto é, todas as modalidades cifradas das manifestações de Deus no humano. A luz de Adão se expandia em todo lugar da terra e tinha duas classes compostas de macho e fêmea. Por isto Adão tinha duas faces.

Na tradição talmúdica, na Torah e nos Midrash, se encontram os mais extensos comentários ao Gênesis. No Midrash aramaico do Beresit-Rabba (Rabi Oshajjah) encontramos outras indicações que não deveriam ser esquecidas pelos estudiosos, especialmente os psicanalistas (pense-se na tese de T. Reik, da qual falaremos mais adiante), que muito superficialmente superam a hipótese mais ampla de uma forma andrógina do Adão bíblico. Pois bem, o Beresit-Rabba comenta, a propósito do versículo de Gênesis I, 26, de modo a não deixar dúvidas. Citemos integralmente:

I. E Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. (Gên. I, 26). R. Johanan principiou: De costas e de frente você me abraça (Sl. 139,5). Disse R. Johanan: Se o homem o merece goza de dois mundos.

. . . Disse R. Jirmejah b. Eleazar: Quando o Senhor, Ele seja bendito, criou o homem, o criou hermafrodita, como é dito: Macho e fêmea os criou e chamou o nome deles "Adão".

Disse R. Shemuel b. Nahman: Quando o Senhor, Ele seja bendito, criou o homem, o criou bifronte, dividiu-o e resultaram dois dorsos, um aqui e um ali.

Em uma passagem ulterior do mesmo capítulo comenta-se assim:

11. Macho e fêmea os criou (Gên. I, 27). Esta é uma das coisas que mudaram para o rei Ptolomeu. O macho e seus orifícios criou.

Na nota ao texto é explicado que o termo "orifícios" é escrito em hebraico com as mesmas letras do termo "fêmea".

Não insistamos nas citações rabínicas e passemos a considerar que também em Platão, no Banquete (189d a 190d), é mencionado claramente o mito do primitivo homem hermafrodita. Para nós é interessante esta hipótese, porque em nosso estudo queremos ver como se separou o feminino do masculino.

Fontes mais próximas de nós oferecem um estudo onde se atribuem também aos babilônicos opiniões relativas à androginia do primeiro homem.

Fílon de Alexandria teve uma intuição análoga, sobre um Adão bifronte ou hermafrodita com uma estrutura que evoca os "irmãos siameses". Também Benz segue o mito do andrógino, dos gnósticos até os místicos modernos. Theodor Reik, na sua Psicanálise da Bíblia, cita outros autores que seguiram esta hipótese: Judah Abravanel de 1525, depois o Misterium Magnum de Jacob Boehme (1630), o próprio Swedenborg, o russo Berdjaiev e o filósofo espanhol Leão Hebreu na sua obra Dialoghi d'Amore. Esta androginia de Adão é o semblante simbólico de Deus, mas o hermafroditismo, no que concerne à organização sexual e afetiva de Adão, faria pensar em uma completa harmonia do ser? Não havia ainda nenhuma negação possível? É uma coisa obscura. Aqui, em realidade, não se concilia o significado teológico rabínico do andrógino, como semelhança da totalidade do divino, com o fato de que o primeiro Adão tinha, evidentemente, uma sexualidade de todo indiferenciada. Mesmo no Gênesis bíblico coloca-se em evidência um comportamento sexual que parte de uma perversão.

VIDE: ADÃO E LILITH