SHAYEGAN, Daryush. Les Relations de l’hindouisme et du soufisme: d’après le “Majma 'al-bahrayn” de Dârâ Shokûh. Paris: Éditions de la Différence, 1979.
A Descrição dos Quatro Mundos
- Os mundos pelos quais todos os seres devem passar são, para alguns sufis, quatro: nasut, malakut, jabarut e lahut; outros consideram cinco, incluindo o mundo dos Arquétipos-Imagens (alam-e mithal), e outros chegam a uma divisão quaternária ao considerar este último como um só com o malakut.
- Para os faqir indianos, o avasthat (avasthatman), que consiste nestes quatro mundos, é de quatro tipos: jagrat (jagrat), sapan (svapna), sakhupat (susupta), e tury (turiya).
- Jagrat corresponde ao nasut, que é o mundo aparente e o estado de vigília.
- Svapna corresponde ao malakut, que é o mundo dos Espíritos e o estado de sono com sonho.
- Susupta corresponde ao jabarut, no qual as imagens dos dois mundos e as distinções de "eu" e "tu" desaparecem, com os olhos abertos ou fechados.
- Este estado de "sentar-se por um instante sem preocupação mental" (tasawwof), como o Mestre Abol Qasim Jonayd Bagdadi e Mowlana-ye Rum indicaram, significa que as imagens do nasut e do malakut não perturbam o espírito.
- Turiya corresponde ao lahut, que é a Ipseidade pura, envolvendo, compreendendo e totalizando os três mundos.
- O progresso espiritual é o percurso do homem do nasut ao malakut, deste ao jabarut, e deste ao lahut.
- O avanasan (avasana - Verdade de todas as verdades) é a descida que a Verdade efetua a partir do lahut, atravessando o jabarut e o malakut, culminando no mundo do nasut.
- A diferença entre alguns sufis que descrevem os graus de descida em quatro ou cinco etapas é uma referência a este fato.
A Descrição do Som (awaz)
- O som é emitido pelo Soupiro do Misericordioso e foi manifestado pelo Imperativo divino "Kon" (Sê) no momento da existenciação.
- Este Som é chamado Sarasvati pelos místicos indianos e deu origem a todos os sons, vozes e ressonâncias.
- O Som, também chamado nada pelos indianos, é de três tipos:
- Anahat (anahata): o Som que sempre foi, que é, e que será, considerado pelos sufis como o Som absoluto (awaz-e motlak) ou o "Soltan das invocações" (Soltan-al-adhkar).
- A percepção do mahakas'a só se realiza pela audição deste Som original, que só pode ser apreendido pelos grandes sábios das duas comunidades.
- Ahat (ahata): o barulho emitido pelo contato de dois objetos sem a composição de palavras.
- Sabd (s'abda): que se manifesta pela composição de palavras e tem afinidade com Sarasvati.
- Anahat (anahata): o Som que sempre foi, que é, e que será, considerado pelos sufis como o Som absoluto (awaz-e motlak) ou o "Soltan das invocações" (Soltan-al-adhkar).
- Deste som emanaram o Nome supremo (ism-e azam) dos Muçulmanos e o bidmukh (veda mukha) ou a sílaba sagrada OM (A.U.M.) dos místicos indianos.
- O Nome supremo implica o possuidor dos três Atributos de existenciação, subsistência e aniquilação, e dele procederam o fatha, o zamma e o kasra, que se identificam com akar (akara), ukar (ukara) e makar (makara).
- O Nome supremo dos monistas indianos tem uma forma particular com perfeita semelhança ao islâmico, representando os símbolos dos elementos (água, fogo, terra, ar) e a Essência pura.
A Descrição da Luz (nur)
- A Luz é de três tipos:
- Se se epifaniza sob o Atributo de Majestade (jalal): é cor de sol, cor de rubi, ou cor de fogo.
- Se se epifaniza sob o Atributo de Beleza (jamal): é cor de prata, cor de pérola, ou cor de água.
- A luz da Ipseidade divina, que é livre de atributos, só pode ser percebida pelos Amigos de Deus (awliya-ye khoda), sobre os quais Deus o Altíssimo disse: "Allah para Sua luz dirige quem Ele quer..." (Corão XXIV: 35).
- Essa luz aparece quando o homem dorme ou se senta de olhos fechados, realizando todas as funções sensoriais por uma única faculdade, sem necessidade de membros ou sentidos externos, pois todos os sentidos se identificam e se fundem em uma única essência, sendo a luz da Essência, que é a luz de Deus.
- A luz referida no verso corânico "...Allah é a luz dos céus e da terra" (Corão XXIV: 35) é chamada pelos místicos indianos jun surup (jyothih-svarupa), syaparakas (svaprakas'a) e sapanparakas (svapnaprakas'a), sendo sempre luminosa por si mesma.
- Para o autor, a Nicha (mishkat - Corão XXIV: 35) é o mundo dos corpos materiais (alam-e ajsam); a lâmpada (misbah) simboliza a luz da Essência; o vidro (shisha) é o Espírito (ruh); e a frase "ela é acesa" é a luz do Ser.
- A Árvore bendita (shajara-ye mobarak) representa a Essência de Deus, livre de direções oriental e ocidental.
- A Oliveira (zayt) simboliza o Espírito universal, que não é pré-eterno nem pós-eterno, e, devido à sua extrema sutileza e pureza, é luminoso e resplandecente por si mesmo, não necessitando ser aceso.
- O sentido geral do verso é que Deus-o Altíssimo se manifesta em véus sutis e luminosos (Luz da Essência no véu do Espírito dos espíritos, este no véu dos espíritos, e estes no véu das formas corporais), e a Lamparina, graças à luz da Oliveira, manifesta-se no véu do Vidro, e este na Nicha, adicionando luz sobre luz.
A Descrição da Visão (royat)
- Os monistas indianos chamam a visão de Deus-o Altíssimo sachhatkar (saksatkara), que é a visão de Deus pelo olho exterior.
- Os profetas, os Amigos perfeitos de Deus (awliya), e os videntes de todo povo (Corão, Veda, Torá, Evangelhos, Salmos de Davi) tiveram fé na visão de Deus neste mundo ou no outro, seja com o olho aparente ou esotérico.
- A negação da visão é um erro, pois a Essência pura e santa de Deus é capaz de qualquer ato, incluindo a teofania de Si mesma, o que é explicado pelos doutores (olama) do sunismo.
- Dizer que se pode ver a Essência pura é impossível, pois ela é sutil, indiferenciada, e só se epifaniza no véu da sutileza.
- Dizer que a visão só é possível no outro mundo e não neste é sem fundamento, pois Deus tem imensa potência para se revelar quando e onde Lhe aprouver.
- Quem se privou da visão aqui embaixo terá dificuldade de vê-lO no além, como no Corão: "Quem quer que tenha sido cego nesta (vida) aqui, será cego na (vida) Última e mais extraviado (ainda) no caminho" (Corão XVII: 72).
- Os que contestaram a visão, como os filósofos mo'tazilitas e shi'itas, cometeram um grande erro ao negarem todas as categorias de visão, pois a maioria dos profetas e Amigos perfeitos de Deus tiveram a visão de Deus com o olho aparente e ouviram Suas santas palavras.
- É necessário ter fé na visão de Deus, assim como se tem fé em Deus, Seus anjos, Seus livros e Seus profetas.
- As palavras do Profeta Mohammad à esposa 'A'isha Saddiqa, "É uma luz, como O verei", não negam a visão, mas podem se referir à visão perfeita de Deus no véu de luz (o primeiro sentido) ou à Ipseidade pura e desprovida de toda cor (o segundo sentido).
- O versículo "Faces, neste dia, estarão brilhantes, para seu Senhor voltadas" (Corão LXXV: 22) é uma prova evidente da visão do Criador.
- O versículo "Os olhares não podem alcançá-Lo, enquanto Ele pode alcançar os olhares. Ele é o Sutil e o Informado" (Corão VI: 104) é uma prova de que Deus é sem-cor (os olhares não podem vê-Lo neste grau absoluto e livre de toda cor, enquanto Ele os vê), e o pronome Hu (Ele) refere-se à não-visibilidade da pura Ipseidade.
- Pode-se ter a visão de Deus de cinco maneiras:
- Vê-Lo em sonho, com o olho do coração.
- Vê-Lo em estado de vigília, com o olho exterior.
- Vê-Lo em um estado intermediário entre vigília e sono, que é uma ausência de si particular (bi-khodi-ye khas).
- Vê-Lo em uma determinação particular.
- Ver uma Única Essência na multiplicidade das determinações inerentes aos mundos aparentes e esotéricos.
- A quinta maneira é o grau perfeito da visão, contemplação e gnose, onde o vidente e o visto se identificam, e o sonho, o sono e a ausência de si parecem ser um, sendo possível em qualquer lugar e momento.