SCHIMMEL, Annemarie. Mystical dimensions of Islam. 35th anniversary edition ed. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2011.
Em 1311, Shabistari, que vivia não longe de Tabriz, escreveu um poema persa intitulado Gulshan-i raz, “Jardim de Rosas do Mistério”, como resposta a dezoito questões que lhe foram colocadas por um amigo sufi. Este poema é a mais prática introdução ao pensamento do sufismo pós-Ibn 'Arabi; ele aborda, entre outras coisas, o Homem Perfeito, os estágios de desenvolvimento e a terminologia mística. Shabistari descreve a beleza divina que se encontra oculta sob o véu de cada átomo, porque “o Absoluto é de modo tão aparente nu à visão do homem que não é visível” — uma ideia frequentemente expressa pelos místicos: a proximidade avassaladora cega o olho, assim como a luz não velada se torna invisível, “negra”. O Homem Perfeito é, na definição de Shabistari, aquele que percorre o duplo caminho: para baixo, no mundo dos fenômenos, depois para cima, em direção à luz e à unidade divina. Essa ideia perdurou como a teoria central da maioria das ordens sufis; ela foi desenvolvida antes de Ibn 'Arabi e seus seguidores, mas ainda não tinha sido formulada em uma terminologia que permitisse sua compreensão pelo sufi comum. Os místicos geralmente vivenciavam esse movimento como dividido em quarenta etapas — vinte para baixo, da Primeira Inteligência até a terra, e depois o “arco de ascensão” de vinte etapas em direção ao Homem Perfeito. Essas ideias — derivadas de especulações neoplatônicas — tornaram-se tão comuns nas fraternidades místicas que mesmo uma ordem bastante pouco sofisticada, como os Bektashis turcos, se detinha, em seus chamados poemas devriye, sobre os círculos que descrevem a “trilha exterior” e a “trilha de retorno”.
O Gulshan-i raz de Shabistari deu impulso à disseminação dessas ideias, especialmente quando utilizado com o excelente comentário de Lahiji, composto na segunda metade do século XV. Para os dervixes Ni'matullahi no Irã, o livro “serviu (e talvez ainda sirva) como um manual tradicional para todos aqueles homens ou mulheres (instruídos em grupos separados) que ficavam sob sua direção em uma espécie de Terceira Ordem”. Sua popularidade no Oriente tornou-o interessante também para os estudiosos ocidentais. É um dos primeiros livros sobre sufismo a ser traduzido para línguas ocidentais: para o alemão por Hammer-Purgstall em 1838 (quase tão sem sucesso quanto suas traduções de Ibn al-Farid), e para o inglês por E. H. Whinfield em 1880. Sua forma e conteúdo inspiraram Muhammad Iqbal a compor seu Gulshan-i raz-i jadid, “O Novo Jardim de Rosas do Mistério”, publicado em 1927; neste poema, ele segue as noções de Shabistari e oferece suas próprias soluções para as questões do Homem Perfeito (uma de suas ideias centrais), de Deus e do destino.