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id da página: 2478 Schuon Olho do Coração Frithjof Schuon

Schuon Olho do Coração

Frithjof Schuon — Olho do Coração


O olho, devido à sua correspondência particularmente adequada com o intelecto, se presta por assim dizer espontaneamente ao simbolismo tradicional, e o encontramos, embora em graus de importância muito diversos, na linguagem simbólica de todas as Revelações. Os outros órgãos de sensação – ou mais geralmente as faculdades que eles veiculam – são suscetíveis, é verdade, de aplicações análogas, mas de uma alcance menos “central,” poder-se-ia dizer: eles correspondem mais a funções distintas e portanto secundárias da inteligência, ou ainda a modos fundamentais de receptividade e de assimilação cognitiva, o que significa que eles demonstram menos diretamente que o olho – ou a vista – a analogia entre os conhecimentos sensível e espiritual; só a vista representa, entre as faculdades de sensação, o intelecto concebido como tal e em seu princípio. Esta correspondência evidente entre a vista e o intelecto se deve ao caráter estático e total daquela: a vista realiza, de fato, de uma maneira simultânea, – e no mesmo título que o espaço que lhe corresponde entre as condições da existência corporal, – as possibilidades de longe as mais estendidas no domínio do conhecimento sensível, enquanto que os outros sentidos só reagem sob as influências que têm uma relação com a sensibilidade vital; é preciso, contudo, excetuar a audição que, ela, reflete a intelecção, não estática e simultânea, mas dinâmica e sucessiva, e que, em relação à vista, joga um papel que se poderia chamar “lunar”; é por isso que ela se encontra ligada, não ao espaço, mas ao tempo, o audível se situando em suma na duração. Seja como for, a sensação mais importante – ou digamos aquela que é intelectualmente mais explícita – é incontestavelmente a da luz, qualquer que possa ser por outro lado a importância do “som primordial” e dos “perfumes,” “gostos” e “toques” espirituais; a vista sozinha nos comunica a existência de corpos celestes incomensuravelmente afastados e perfeitamente estranhos a nossos interesses vitais, e se pode, portanto, dizer que ela sozinha é essencialmente “objetiva”. Não é, por conseguinte, senão natural comparar a luz ao conhecimento e a escuridão à ignorância, e é isso que explica o largo uso que fazem as línguas mais diversas, e antes de tudo os Textos sagrados, do simbolismo da luz e da visão por um lado, e do da escuridão e da cegueira por outro.

A transposição simbólica do ato visual sobre o plano intelectual fornece uma imagem muito expressiva da “identificação pelo conhecimento”: neste processo, é preciso de fato “ver” o que se “é,” e “ser” o que se “vê” ou “conhece”; o “objeto” é Deus nos dois casos, com a diferença, no entanto, que ele aparece como “concreto” no primeiro caso e como “abstrato” no segundo. Mas o simbolismo da visão é universal e se aplica, portanto, também ao macrocosmo e a todos os graus deste: o mundo é uma visão indefinidamente diferenciada cujo objeto é em última análise o Protótipo divino de tudo o que existe, e, inversamente, Deus é o Olho que vê o mundo e que, sendo ativo lá onde a criatura é passiva, cria o mundo por sua visão, que é ato e não passividade; o “olho” se torna assim o centro metafísico do mundo do qual ele é ao mesmo tempo o “sol” e o “coração”. Deus não vê apenas o “exterior,” mas também – ou antes, com mais forte razão – o “interior,” e é esta última visão que é a mais real, ou antes, para se falar rigorosamente, a única real, já que ela é a Visão absoluta ou infinita da qual Deus é ao mesmo tempo o “Sujeito” e o “Objeto,” o Conhecedor e o Conhecido. O universo não é senão “visão” ou “conhecimento,” sob algum modo que este se realize, e toda a sua realidade é Deus: os mundos são tecidos de visões, e o conteúdo destas visões indefinidamente repetidas é sempre o Divino, que é assim o primeiro Conhecimento e a última Realidade –, Conhecimento e Realidade sendo dois aspectos complementares da mesma Causa divina.

Mas consideremos agora a função do Olho do Coração, no sentido habitual desta expressão, partindo do olho corporal como termo de comparação: diremos então que o olho corporal vê o aspecto relativo, “quebrado” por assim dizer, de Deus, enquanto que o Olho do Coração se identifica a Ele pela pureza de sua visão; o olho corporal é quebrado ele mesmo por sua bipolarização que o adapta à percepção, ou seja, ao conhecimento do manifestado como tal, a manifestação procedendo por sua vez da bipolarização principial do Ser em “Verbo” – ou “Essência determinante,” domínio das “Ideias” no sentido platônico – e em Materia prima; o Olho do Coração, pelo contrário, é único e central, como a Face divina que é sua visão eterna, e que, estando além de toda determinação, está também além de toda dualidade. O coração se encontra assim como situado entre duas visões de Deus, uma “exterior” e indireta e a outra “interior” e relativamente direta, e pode-se, deste ponto de vista, atribuir um duplo papel e um duplo significado ao coração: primeiramente, ele é o centro do indivíduo como tal e representa a limitação fundamental deste, – seu “endurecimento” como dizem as Escrituras, – e por isso mesmo todas as suas limitações secundárias; em segundo lugar, ele é o centro do indivíduo enquanto este se liga misteriosamente a seu Princípio transcendente: o coração se identifica então ao Intelecto, ao Olho que vê Deus – e que, por conseguinte, “é” Deus – e pelo qual Deus vê o homem. Não há, no fundo, no homem senão o coração que vê: no “exterior,” ele vê o mundo através do mental e dos sentidos, e, no “interior,” ele vê a Realidade divina no Intelecto; mas as duas visões, a exterior como a interior, não são, para se falar rigorosamente, senão uma única, a de Deus. Entre estas duas grandes visões, há incompatibilidade neste sentido que elas não podem se produzir uma ao lado da outra no mesmo título e sobre o mesmo plano, – não obstante o fato de que o mundo pode ser visto “em Deus” e Deus “no mundo,” – primeiro porque a visão do mundo é absorvida e aniquilada por aquela de Deus, de sorte que sob este aspecto não se pode sequer cogitar de uma reciprocidade qualquer, e depois porque o criado só existe por seu particularismo ilusório em relação ao Princípio e que, por este fato, ele implica por definição sua incompatibilidade com a Realidade absoluta.

Para se voltar à dualidade do olho corporal, diremos que, no processo de bipolarização requerido pela “projeção” do Ser em modo manifestado, o par de olhos marca, no mesmo título, aliás, que a audição e os outros sentidos, o limite extremo e o resultado deste processo; é assim que se explica a equivalência orgânica e a posição simétrica dos olhos, enquanto que, entre o coração e o cérebro, há no máximo uma certa “equivalência” fisiológica. O par de olhos representa uma projeção bipolar do cérebro em um domínio de “menor possibilidade”; o cérebro se encontra então como o intermediário entre a visão analítica dos olhos e a visão sintética do coração, e este papel de intermediário é mesmo, a um certo respeito, toda a sua razão de ser, já que o indivíduo, por sua “individuação,” se separou ilusoriamente da Realidade e deve a encontrar fora de si mesmo. Se se representa o coração e o cérebro pelas duas extremidades de um elemento de vertical, e os olhos pelas extremidades de uma horizontal posta sobre a extremidade superior da vertical, se obtém uma forma do que pode ser considerada como a fórmula geométrica do processo de bipolarização, e que pode simbolizar a este título a relação entre duas dualidades – concebidas aliás de forma qualquer, a condição que o primeiro par seja principial em relação ao segundo.

Se o Olho do Coração é geralmente concebido como se encontrando escondido no homem e olhando para Deus, embora, em toda rigorosidade, esta maneira de falar seja contraditória, este mesmo Olho, dissemos, é também – e mesmo sobretudo – o de Deus que olha para o homem; ou, em outros termos, ele é o do Princípio divino que engloba a manifestação em Sua Onisciência. Agora, se dizemos, por um lado, que o Olho do Coração é o Olho da manifestação vendo o Princípio, e, por outro lado, que ele é o Olho do Princípio vendo a manifestação, estamos em presença de uma relação de analogia inversa, a visão partindo da manifestação devendo se operar a título de projeção ou de reflexo invertido da visão partindo do Princípio; e se determinamos a primeira destas duas visões como sendo passiva vis-à-vis de seu Objeto divino, devemos, como dissemos mais alto, considerar a Visão divina como ativa, o que equivale a identificá-la ao Ato criador. Por conseguinte, Deus pode ser concebido segundo quatro grandes Visões, ou seja, como “se realizando” Ele mesmo, em Sua Todo-Conhecimento, de quatro maneiras: primeiramente, Deus se vê a Si mesmo em Si mesmo, em Sua Essência; em segundo lugar, Ele se vê a Si mesmo pela Criação, que não é outra coisa senão Sua Visão de Si mesmo em virtude da realização da possibilidade negativa, e portanto limitativa, incluída em Sua Todo-Possibilidade; em terceiro lugar, Ele se vê pelas criaturas que O veem na Criação; em quarto lugar, Ele se vê pelas criaturas O vendo a Si mesmo pelo Olho do Coração. A primeira destas visões está além de toda dualidade; a segunda visão se efetua pelo Olho do Coração; a terceira visão se opera pelo olho corporal, que significa o indivíduo como tal; a quarta visão emana ainda do Olho do Coração, desta vez no sentido corrente do simbolismo, ou seja, significando a visão “interior” que o Intelecto tem de Deus. A “visão” de Deus procede Dele e termina Nele, como um círculo que nasce e se fecha.

Quando se estabelece uma analogia entre este Olho interno e o Olho frontal de Shiva, este correspondendo nos homens à consciência da eternidade, – perdida, enquanto faculdade natural, para a humanidade decaída da “idade de ferro,” – poder-se-á dizer que este terceiro olho se retirou da “superfície” do ser, da mesma forma que o Paraíso terrestre, segundo certas tradições asiáticas, se retirou para debaixo da terra; e como este reino deve reaparecer no fim da idade escura, o Olho do Coração pode ser concebido, na realização espiritual, como devendo remontar, parecido ao sol nascente, em direção à testa que representa a “superfície,” para iluminar e absorver o plano da obscuridade individual, de sorte que o mundo “exterior” será espontaneamente concebido em sua essência e se confundirá com a Realidade “interior”. Esta maneira de encarar as coisas é, contudo, um pouco humana, já que, no fundo, é o homem que se afastou do Olho eterno, e é a humanidade que se afastou do Paraíso, e não inversamente, da mesma forma que é a terra que se desvia do sol, apesar das aparências contrárias; poder-se-á, portanto, dizer que o homem em busca de Deus deve “descer” em seu coração para reencontrar o Paraíso perdido e realizar a “Unicidade da Existência” (Wahdat el-Wujud).

Esta unicidade ou identidade foi expressa pelo Sufi Mansur El-Hallaj em termos que são como uma síntese de toda a doutrina: “Eu vi meu Senhor com o Olho de meu Coração; e eu disse: Quem és Tu? Ele me disse: Tu!”.