SCHOPENHAUER. Mémoires sur les Sciences Occultes, 1912
O destino do indivíduo
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Natureza da Investigação
- Reflexões classificadas como "fantasia metafísica" sem resultado prático imediato.
- Admissão de que tudo é duvidoso, incluindo o problema e a solução.
- Abordagem caracterizada como um "tatear na escuridão", um exame de um problema obscuro.
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A Crença na Providência e no Fatalismo
- Crença Popular: Crença numa providência especial ou condução sobrenatural dos eventos da vida individual, presente mesmo em cérebros pensantes, independente de dogmas.
- Origem da Crença: Surge da vontade e da necessidade, não do conhecimento. O acaso, por vezes favorável, é interpretado como providência.
- Fatalismo Demonstrável (a priori): Tudo o que acontece é absolutamente necessário. Esta verdade é confirmada a posteriori por fenômenos como a segunda visão e sonhos premonitórios, onde eventos anunciados ocorrem inexoravelmente, despite esforços para evitá-los.
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Fatalismo Transcendente: Vai além da necessidade cega. É a crença ou opinião de que a série de eventos da nossa vida forma um todo ordenado, com uma tendência determinada e uma significação cheia de sentido, como uma obra de arte. Surge da experiência de vida, não de teoria.
- Suporte Empírico: A observação de que a vida, quando retrospectiva, revela um plano ou direção, com eventos aparentemente acidentais convergindo para um objetivo (e.g., citação de Knebel).
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Fundamentos do Curso da Vida
- Imutabilidade do Caráter: O caráter inato, com suas consequências implacáveis, é um fator crucial, fazendo o homem agir de acordo com sua natureza, quase por instinto.
- Concorrência de Fatores: As ações resultam necessariamente de dois fatores: 1) o caráter (imutável, conhecido a posteriori) e 2) os motivos (exteriores, agindo com necessidade mecânica). O Eu que observa é um espectador.
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Unidade do Acidental e do Necessário: Postula-se uma unidade metafísica última onde o acaso é instrumento de uma necessidade mais profunda. O útil e justo (em sentido elevado) é o que se realiza na realidade objetiva (
sic erat in fatis).
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Impotência Humana e Onipotência do Destino
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Convicção da Antiguidade: Os antigos estavam penetrados da onipotência do destino (
potmos,aisa,eimarmene, etc.) e da impotência do homem perante ele. -
Sentimento de Condução: A retrospectiva frequentemente revela que um poder estranho parece ter guiado os passos, contra intenções momentâneas, para o verdadeiro bem (
Ducunt volentem fata, nolentem trahunt).
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Convicção da Antiguidade: Os antigos estavam penetrados da onipotência do destino (
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Origens da Individualidade e do Destino
- Origem da Individualidade: A individualidade única de cada um (física, moral, intelectual) resulta necessariamente do caráter do pai, intelecto da mãe e disposições físicas de ambos. A união dos pais, no entanto, frequentemente parece um puro acaso.
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Postulado Metafísico: Esta conjunção leva ao postulado de uma unidade última da necessidade e do acaso, raiz comum do que os antigos chamavam Destino (
fatum) ou Gênio, e os cristãos de Providência (pronoia).
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O Gênio ou Daimon
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Conceito Antigo: A ideia de um gênio (
daimon) assistindo a cada homem e presidindo sua vida, de origem possivelmente etrusca, era difundida. - Seleção do Destino: Em Platão (República), a alma escolhe seu destino e um gênio guardião antes de renascer.
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Interpretações: Visto como um espírito exterior (Paracelso), parte mais pura da alma pairando acima da cabeça (Plutarco), ou transformado no
spiritus familiarispela tradição cristã.
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Conceito Antigo: A ideia de um gênio (
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Analogias para Compreensão
- Teleologia da Natureza: A utilidade e adaptação na natureza (utilidade exterior e interior), onde coisas diversas conspiram para um fim sem conhecimento, serve como analogia para uma necessidade superior guiando eventos.
- Origem do Sistema Planetário: A teoria de Kant-Laplace sobre a formação ordenada do sistema solar a partir de forças cegas analogia para como o curso da vida individual, via acaso, é conduzido conforme um plano.
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O Sonho: A semelhança entre a vida e o sonho (já reconhecida e fundamentada pelo Idealismo transcendental) é a analogia principal.
- No Sonho: As circunstâncias parecem exteriores e acidentais, mas são dirigidas por um poder oculto (nossa própria vontade, de um ponto de vista não consciente no sonho) que combina tudo em relação a nós, muitas vezes contra nossos desejos conscientes no sonho.
- Na Vida ("Grande Sonho"): Estende-se a analogia. O poder secreto que dirige o destino teria suas raízes na profundidade de nosso próprio ser (a Vontade, em si mesma). Cada indivíduo é o herói de seu drama e um figurante no drama alheio, com uma "harmonia preestabelecida" entrelaçando todos os destinos. O sujeito único deste grande sonho é a Vontade de viver.
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Presságios e a Natureza do Acaso
- Presságios como Possíveis: A crença em presságios é generalizada e profundamente enraizada. Um evento não é menos necessário por ser presságio; sua inevitabilidade causal é justamente o que lhe confere esse caráter.
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Nada é Absolutamente Acidental: O "acidental" é o encontro no tempo de cadeias causais não diretamente ligadas. Todas as cadeias causais formam uma rede imensa e entrelaçada ("simultaneidade necessária"). Tudo se reflete em tudo (
sympnoia miade Hipócrates). - Astrologia e Presságios: A constelação astral e o presságio individual são ambos determinados necessariamente, apenas em escalas diferentes de visibilidade.
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Conciliação de Contradições (pós-Kant)
- A distinção entre fenômeno e coisa-em-si (Vontade) permite entrever a conciliação de três contradições:
- Liberdade da Vontade (em si) vs. Necessidade dos atos do indivíduo (fenomenal).
- Mecanismo (nexus effectivus) vs. Teleologia (nexus finalis) na natureza.
- Acidentalidade aparente vs. Necessidade moral/Providência no curso da vida individual.
- A distinção entre fenômeno e coisa-em-si (Vontade) permite entrever a conciliação de três contradições:
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Objetivo Final da Direção da Vida
- Bem Temporal Insuficiente: O objetivo não pode ser o bem-estar temporal, insignificante e fugaz.
- Objetivo Metafísico: O curso da vida é regulado para suscitar na Vontade (núcleo do homem) a impressão mais útil do ponto de vista metafísico.
- Desviar a Vontade de Viver: Baseado na filosofia schopenhaueriana, o último objetivo da existência é desviar a Vontade do querer-viver. Cada um é conduzido a este objetivo à sua maneira, o que explica a inevitabilidade do sofrimento e a função de fins trágicos.
- A Morte como Crise Final: A morte é o resultado e objetivo da vida. É uma crise solene ("juízo final") onde todos os poderes misteriosos (com raiz em nós) entram em conflito para decidir o destino eterno do indivíduo, preparando sua nova nascença com base em todo o bem e mal nele contidos.