PREPARAÇÃO PARA A QUARESMA
4 — O JUÍZO FINAL (Domingo da Abstinência de carne ou "carnaval")
O Domingo seguinte é chamado "domingo da abstinência de carne" porque na semana que segue, um jejum limitado, a "abstinência de carne" é prescrito pela Igreja. Esta prescrição deve ser compreendida à luz do que foi dito acima sobre o sentido da preparação. A Igreja começa agora a nos ajustar ao grande esforço que pedira de nós, sete dias depois. E gradualmente que ela nos introduz neste esforço, conhecendo nossa fragilidade e prevendo nossa fraqueza espiritual.
Na véspera deste dia (sábado da abstinência de carne), a Igreja nos convida a fazer a comemoração universal "de todos aqueles que adormeceram na esperança da ressurreição e da vida eterna". É o grande dia de oração da Igreja por seus membros defuntos. Para compreender o sentido desta relação entre a Quaresma e a oração pelos defuntos, é preciso se lembrar que o Cristianismo é a religião do amor. Cristo deixou a seus discípulos não uma doutrina de salvação individual, mas um mandamento novo — o de se amar uns aos outros. E acrescentou: "Nisso todos reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros". O amor é assim o fundamento, a própria vida da Igreja que é, segundo as palavras de S. Inácio de Antióquia, "a unidade de fé e de amor".
0 pecado, portanto, é sempre ausência de amor, e daí separação, isolamento, guerra de todos contra todos. A vida nova, dada por Cristo, e que a Igreja nos transmite, é, antes de tudo, uma vida de reconciliação, de "reagrupamento na união de todos aqueles que estavam dispersos", a restauração do amor quebrado pelo pecado. Mas então, como podemos sequer começar a retornar a Deus e a nos reconciliar com ele se, em nós mesmos, ainda não voltamos ao único e novo mandamento do amor? A oração pelos defuntos é a expressão oficial da Igreja enquanto amor. Pedimos a Deus que se lembre daqueles de quem nos lembramos, e nos lembramos deles porque os amamos. Orando por eles, reencontramo-nos em Cristo que é Amor e que, porque é Amor, triunfou sobre a morte, último bastião do isolamento e da separação.
Em Cristo não há nem vivos nem mortos porque todos estão vivos nele. Ele é a Vida e esta Vida é a Luz do homem. Amando Cristo, amamos todos aqueles que estão Nele; amando todos aqueles que estão nele, amamos Cristo: esta é a lei da Igreja e o que a incita naturalmente a orar pelos defuntos. É verdadeiramente nosso amor em Cristo que os mantém vivos, porque ele os mantém "em Cristo". Como estamos longe da concepção daqueles cristãos ocidentais que reduzem a oração pelos defuntos a uma doutrina jurídica de "méritos" e "compensações", ou que simplesmente a rejeitam como inútil! A grande Vigília pelos defuntos do sábado da abstinência de carne servirá de modelo a todas as outras comemorações de defuntos que se celebram no segundo, terceiro e quarto sábados de Quaresma.
B novamente o amor que constitui o Tema do Domingo da abstinência de carne. O Evangelho do dia é a parábola do juízo final (Mt 25, 31-46). Quando Cristo vier para nos julgar, qual será o critério de Seu julgamento? A parábola responde: o amor — não a simples preocupação humanitária de uma justiça abstrata e do "pobre" anônimo, mas o amor concreto e pessoal da pessoa humana, de toda pessoa humana, que Deus me faz encontrar na vida. Esta distinção é importante, pois hoje em dia um número cada vez maior de cristãos tendem a confundir o amor cristão com preocupações políticas, econômicas e sociais; em outras palavras, a substituir a pessoa única, com seu destino único, por entidades anônimas, Tais como classe, raça, etc... . Não que estas preocupações sejam um erro: é evidente que, em suas carreiras respectivas e em suas responsabilidades cívicas, profissionais, etc..., os cristãos devem se preocupar em construir uma sociedade que seja justa, equitativa e mais humana, e isso com o melhor de suas potencialidades e inteligência. E certo que tudo isso tem suas raízes no Cristianismo e pode ser inspirado pelo amor cristão. Mas o amor cristão como tal é algo de diferente, e essa distinção deve ser bem compreendida e mantida, se queremos que a Igreja preserve sua missão única e não se torne uma simples "agência social", coisa que ela absolutamente não é.
0 amor cristão é "a impossível possibilidade" de ver Cristo em um homem, seja qual for, que Deus, em seu Plano misterioso e eterno, decidiu introduzir em minha vida, ainda que por alguns instantes; de introduzi-lo não como ocasião para mim de uma "boa ação" ou de um exercício de filantropia, mas como o começo de uma amizade eterna em Deus mesmo. Pois, na verdade, o que ê o amor senão o poder misterioso que permite transcender o acidental e o exterior no "outro" — seu aspecto físico, sua posição social, sua origem étnica, suas qualidades intelectuais — para atingir a alma, a raiz única e pessoal de um ser humano, ou seja, a parte de Deus nele? Se Deus ama todo homem, e porque só ele conhece o inestimável tesouro, absolutamente único, " a alma" ou "a pessoa" que ele deu a cada homem. 0 amor cristão é então a participação neste conhecimento divino e o dom deste amor divino. Não existe amor "impessoal" porque o amor é a maravilhosa descoberta, em cada homem, do que pode ser objeto de amor nele, do que vem de Deus para ele.
Nesta perspectiva, às vezes o amor cristão é o oposto do ativismo social, tão frequentemente identificado hoje em dia ao Cristianismo. Para um "ativista social", o objeto de amor não é a pessoa, mas o homem, a unidade abstrata de uma humanidade não me nos abstrata. Para o Cristianismo, o homem pode ser objeto de a mor porque é uma pessoa. Lá, a pessoa é reduzida ao homem; aqui, o homem é considerado unicamente enquanto pessoa. O ativismo social não tem nenhum interesse pelo "pessoal" e o sacrifica facilmente ao "bem comum". O cristianismo pode parecer, e de uma certa maneira é de fato, cético em relação a essa "humanidade" abstrata; mas ele peca contra si mesmo — e gravemente — cada vez que renuncia a seu cuidado e seu amor à pessoa. O ativismo social é sempre "futurista" em suas perspectivas; age sempre em nome de uma justiça, de uma ordem, de uma felicidade futura por acontecer. O Cristianismo se preocupa pouco com um futuro problemático, mas dá toda importância ao agora, como o único tempo decisivo para amar. As duas atitudes não se excluem necessariamente, mas é preciso não confundi-las. Os cristãos têm, ê verdade, responsabilidades a respeito "deste mundo", e devem cumpri-las. É o domínio do ativismo social, que pertence inteiramente a este mundo. Já o amor cristão aponta para além deste mundo. Ele próprio é uma irradiação, uma manifestação do Reino de Deus; transcende e ultrapassa todas as limitações, todos os condicionamentos deste mundo, porque suas motivações, assim como seu objetivo e sua realização, são em Deus. E sabemos que mesmo neste mundo "que está mergulhado no mal", as únicas vitórias que realizam uma transformação duradoura são as do amor. Lembrar ao homem esta vocação e este amor pessoais, encher este mundo pecador deste amor, tal é a verdadeira missão da Igreja.
A parábola do Juízo final trata do amor cristão. Não so mos todos chamados para trabalhar pela "humanidade", e entretanto cada um de nós recebeu o dom e a graça do amor de Cristo. Sabemos que todos os homens têm imensa necessidade deste amor pessoal que revela neles sua alma única onde se reflete, de uma forma original, a beleza da criação interna. Sabemos também que, se os homens estão aprisionados, têm fome e sede, é porque este amor pessoal lhes foi recusado. E enfim sabemos que, por mais estreito e limitado que seja o quadro de nossa existência, cada um de nós tornou-se responsável por uma pequena parte do Reino de Deus, responsável pelo próprio dom do amor de Cristo, sim ou não, aceitamos esta responsabilidade? Amamos ou nos recusamos a amar? É sobre isto que seremos julgados. Pois "cada vez que o fizestes a um dos menores dentre meus irmãos, a mim o fizestes..."