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id da página: 3446 Schmemann Preparação para a Quaresma 3

Schmemann Preparação para a Quaresma 3

Alexander Schmemann — A Grande Quaresma

PREPARAÇÃO PARA A QUARESMA

3 — RETORNO DO EXÍLIO (Domingo do filho pródigo)


No terceiro Domingo de preparação para a Quaresma, ouvimos a parábola do filho pródigo (Luc. 15, 11-32). Através da hinografia deste dia, repleto de reminiscências desta parábola, o tempo do arrependimento se revela a nós como o retorno do exílio do homem. O filho pródigo parte para um país longínquo e lá dissipa tudo o que possuía. "um país longínquo": tal é a única definição de nossa condição humana, que devemos assumir e tornar nossa quando começamos a caminhar em direção a Deus. O homem que nunca teve esta experiência, ainda que brevemente, que nunca sentiu que é exilado de Deus e da verdadeira Vida, não compreenderá jamais o que é o Cristianismo. E aquele que está perfeitamente "em casa" neste mundo e na vida deste mundo, que nunca foi tomado pelo desejo nostálgico de uma outra realidade, não compreenderá o que é o arrependimento.

Não raro o arrependimento é simplesmente identificado a uma fria e objetiva enumeração de pecados e transgressões, e uma confissão de culpa perante uma acusação legal. Confissão e absolvição são encarados como atos de natureza jurídica. Mas negligencia-se uma coisa essencial, sem a qual nem a confissão, nem a absolvição têm significado real ou qualquer poder. E esta coisa é precisamente o sentimento de estar exilado de Deus, exilado longe da alegria dá comunhão com ele e longe da verdadeira Vida que é criada e dada por Deus. Com efeito é fácil confessar que eu não jejuei nos dias prescritos, que esqueci minhas orações ou que me encolerizei. E algo totalmente diferente perceber de repente que sujei e perdi minha beleza espiritual, que estou muito longe de minha verdadeira casa, de minha verdadeira vida, e que, na própria trama da minha existência, algo de precioso, belo e puro foi irremediavelmente quebrado. Entretanto, isto, e só isto, é o arrependimento, e é por isso que ele é também um desejo profundo de voltar ao que deixamos, de retornar, de reencontrar o "homem" perdido.

Recebi de Deus maravilhosas riquezas: antes de tudo a vi da e a possibilidade de aproveitá-la, de lhe dar um sentido, de enchê-la de amor e conhecimento; depois, no batismo, a vida nova do próprio Cristo, o dom do Espírito Santo, a paz e a alegria do Reino eterno. Recebi o conhecimento de Deus, e nele o conhecimento de todas as coisas, e o poder de ser filho de Deus. E tudo isso , eu perdi; tudo isso eu perco constantemente, não somente nas "transgressões" e "pecados" particulares, mas no pecado de todos os pecados, ao desviar meu amor de Deus, ao preferir "o país longínquo" à beleza da casa do Pai.

Mas a Igreja está aí para me lembrar o que eu abandonei e perdi. E quando ela me lembra, eu me recordo; como diz o Kondakion deste dia: "Longe da glória do Pai, afundado na malícia,errei, e dilapidei com os pecadores as riquezas que tu me deras. Por isso, com o filho pródigo, eu te exclamo: Bom Pai, pequei contra ti! Recebe-me, penitente, e aceita-me como um de Teus servidores assalariados!"

E quando eu me recordo, encontro em mim o desejo e a força e a força de voltar: "levantar-me-ei e retornarei ao Pai compassivo, e em lágrimas dir-lhe-ei: Recebe-me como um de teus servos!"

É preciso observar aqui uma particularidade litúrgica deste Domingo do filho pródigo. No Orthros do Domingo, após o canto solene e jubiloso dos Salmos do Polyeleos, canta-se o Salmo 137, triste e nostálgico:

"Junto aos rios do Babilônia nos assentamos o choramos lembrando-nos de Sião...

Como entoaremos o cântico do senhor em terra estranha?

Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, esqueça-se minha destra da sua destreza.

Apegue-se-me a língua ao falador, se me não lembrar de ti, se não preferir Jerusalém a minha maior alegria..."

E o Salmo do exílio. Os Judeus cantavam-no durante seu cativeiro na Babilônia, sonhando com sua cidade santa de Jerusalém. Tornou-se para sempre o cântico do homem que realiza seu exílio longe de Deus e, fazendo isso, torna-se novamente um homem: aquele a quem nada deste mundo decaído pode satisfazer, pois, por natureza e vocação, é um peregrino do Absoluto. Esse salmo será cantado ainda duas vezes, nos dois últimos domingos antes da Quaresma. E assim a Quaresma se revela como peregrinação e arrependimento, como Retorno.