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id da página: 9743 Leo Schaya – A Criação em Deus - Passagem ao Mundo Futuro

Schaya Mundo Futuro


SCHAYA, Léo. La Création en Dieu: à la lumière du judaïsme, du christianisme et de l’islam. Paris: Dervy, 1983

O fim de nosso mundo é anunciado tanto pelo Corão quanto pela Bíblia, que, esta, fornece detalhes a respeito da passagem ao mundo a vir, ao novo paraíso terrestre e aos ciclos futuros. Estes últimos são profetizados pela Gênese, enquanto que é o Apocalipse que desenvolve mais explicitamente o tema do fim deste mundo e da transição à nova Cidade de Deus. Em sua escatologia transparece o mistério sétuplo da cosmogonia: o ritmo heptamétrico do fim reflete, por analogia inversa, aquele do começo. O próprio fim desemboca aqui na criação de um novo céu e de uma nova terra; em outras palavras, a mesma Potência criadora e transformadora que, na Gênese, passa ao ato cosmogônico, põe, no Apocalipse, um termo a um dos mundos criados que é o nosso, a fim de o transmutar em uma esfera de existência nova e mais perfeita.

Ora, esta transmutação implica a destruição exterior do que deve desaparecer e sua reintegração material e espiritual na divina Origem, antes que esta manifeste o novo mundo. Mas trata-se apenas da destruição das expressões materiais das formas: em si, nem a matéria nem as formas são destruídas. As formas se reabsorvem em seus arquétipos celestes, tendo eles mesmos seus modelos espirituais na Forma supraformal e universal do Espírito, a qual, por sua vez, possui seu Protótipo infinito no Verbo transcendente, que é Deus se revelando a Si mesmo; ao mesmo tempo, a matéria, composta, do ponto de vista tradicional, dos quatro elementos sensíveis, é reabsorvida em sua quintessência, o «Éter» (Avir). Este é a presença misteriosa do «Éter principial» (Avir qadmon) no coração ou fundo deste mundo, portanto de toda coisa terrestre. Avir qadmon, nós o vimos, é a materia prima, o princípio de toda substância cósmica: o princípio insuscetível de ser apreendido da substância celeste, sutil e anímica, que é eminentemente fluida, assim como da matéria corporal, «cristalizada» em modo etéreo e incorruptível no paraíso terrestre, e «condensada», grosseira e corruptível em nosso estado de queda. Enfim, o «Éter principial», em tanto que ele não se manifesta a partir do Eixo universal atravessando os estados múltiplos da existência, quer dizer, que ele não age como princípio dos diversos modos da substância cósmica, mas repousa em sua transcendência, é nomeado, lembremo-lo, o «Éter-supremo», Avir elyon, — ou Avira ilaah em aramaico, — a Receptividade pura e própria de Deus, a qual, em seu estado de absoluta não-manifestação, se identifica, segundo os Cabalistas, a Ain, o «Não-Ser» ou Sobre-Ser. Mas lá onde Deus, em tanto que «Ser» puro e uno, se revela a Si mesmo, Ele Se revela à sua Receptividade, em tanto que ela se encontra ela mesma no estado ontológico; e desta Revelação procede, sempre no nível do Ser, sua causalidade compreendendo seus efeitos cósmicos no estado de unidade incriada. Esta Revelação, em preenchendo sua Receptividade, a determina em tanto que «Mãe suprema» do cosmos. É por ela que o Ser manifesta toda existência e que ele reabsorve e liberta tudo nEle: é ela que atrai e acolhe nEle toda criatura; porque é dela que sua luz, sua Beleza e seu Amor se irradiam em iluminando e tornando perfeita a criação, como é nela, por definição, que toda substância cósmica é finalmente transmutada, enquanto que toda forma, toda luz, todo espírito são reintegrados na Forma arquetípica do divino Espírito, no Espírito puro do Verbo criador, em sua pura Essência luminosa que é aquela do Ser-Sobre-Ser.

Esta reabsorção, da mesma forma que a manifestação cósmica têm lugar na «superfície das águas» onde a Receptividade divina está presente como «Mãe inferior» ou «Esposa» do Verbo imanente. Será portanto assim na reabsorção de nosso mundo e na descida do mundo a vir. Este novo mundo descerá como um puro receptáculo e habitáculo da Presença divina, como uma imensa cidade de luz onde Deus habitará com os homens: esta será a descida da «Jerusalém nova, vestida como uma nova noiva paramentada para seu esposo» (cf. Apoc., XXI, 2). As «núpcias» do Esposo e de sua Esposa, que terão lugar no novo mundo, se cumprem perpetuamente aos «dois dos céus»; todos os seres participam delas no sétimo céu: estas são as núpcias espirituais do «Bem-Amado» e de sua «Noiva», descritas pelo Cântico dos Cânticos e escondidas nos mistérios da Gênese. Nascidos desta divina união, todos os seres desfrutam dela portanto no céu supremo: a «Voz do Bem-Amado» e seu Sopro espiritual se fazem ouvir através deles «como a voz de uma multidão imensa, como o barulho de grandes águas, como o fragor de poderosos trovões», — diz o profeta do Apocalipse (XIX, 6). Os seres saindo desta união e absorvidos por ela são outras tantas vibrações espirituais revestidas da manifestação primeira da materia prima «pura e insuscetível de ser apreendida». Sua perfeição espiritual e sua pureza primordial foram atualizadas aqui embaixo no homem paradisíaco e serão reatualizadas na humanidade futura. Mas já neste mundo decaído, elas são realizadas pelos santos de que fala o Apocalipse: é sua pureza e todas suas outras virtudes que tecem, por assim dizer, a «roupa da noiva», a roupa etérea e cintilante da Esposa que abarca o Espírito. Graças à sua espiritualização, os santos se tornam novamente neste velho mundo que vai para seu fim, o que eles eram no céu: seres vivendo da Vida de Deus, palavras espirituais de seu Verbo, vibrações luminosas de sua Voz, irmãos de seu Filho, sóis de seu Espírito, imagens de sua Perfeição. A carne do «velho homem» que eles revestem ainda, eles a purificaram do interior: a substância de sua alma e de seu corpo foi penetrada de mais em mais pelas manifestações da materia prima e do Espírito puro, até o despertar do «homem interior». Este é desde então o «homem novo» no corpo de glória celeste e paradisíaca, tão longo tempo adormecido e sepultado no interior do velho homem, como num sepulcro. Embora seu velho corpo de corrupção continue a subsistir até sua morte decretada desde o pecado original, ele se encontra desde então como regenerado por seu arquétipo primordial e incorruptível, como revestido interiormente deste corpo de ressurreição, cuja substância se assemelha ao «linho brilhante e puro» (Apoc., XV, 6) das roupas que vestem os anjos.