SCHAYA, Léo. La Création en Dieu: à la lumière du judaïsme, du christianisme et de l’islam. Paris: Dervy, 1983
A queda de Adão, seu arrependimento, e sua reunião espiritual com Deus de que falam as tradições semíticas, se perpetuaram nos pecados e na penitência de seus descendentes, assim como no divino perdão restituindo aos penitentes o estado interior de graça e de união ao Uno. Ora, este estado, da mesma forma que o pecado, a penitência e o perdão, são considerados diferentemente pelo exotismo e pelo esoterismo ou a elite espiritual das religiões. Para o exotismo, se trata de reencontrar a conformidade com o Senhor permitindo uma coexistência bem-aventurada com Ele, — para a elite de recobrar, a partir desta conformidade, a unio mystica e, por ela, o so Real. O que nos interessa aqui, é este domínio puramente espiritual e sua perspectiva unânime, que é subjacente às múltiplas revelações da lei divina universal, cujas expressões formais se apresentam de diferentes maneiras. Estas formas variadas, sob as quais se exprime a divina vontade nas religiões, e notadamente em seus mandamentos específicos, não ocupam portanto nossas presentes considerações.
Assim, o pecado, se ele representa do ponto de vista formal certo não-respeito da lei divina própria a tal religião, nós o encaramos aqui antes de tudo, segundo a perspectiva unânime da espiritualidade universal, como uma não-conformidade do homem à natureza das coisas e, partindo daí, à sua divina causa e essência. E se se prossegue a abordagem espiritual até seu termo, o pecado aparece em sua raiz mesma: o abandono do estado de união primordial com o so Verdadeiro e Real, a não-unidade com Deus ou com o divino «Si».
No que diz respeito à penitência, — quaisquer que sejam a religião ou o nível de interpretação desta noção, — ela implica o arrependimento do pecador por seu ato oposto à vontade divina, e sobretudo por seu desacordo interior com Deus. A verdadeira penitência é o movimento interior do retorno a Deus; mas ela é também o ato exterior de reparação do pecado: «fazer penitência», é sofrer corpo e alma a pena compensadora, imposta pela lei divina, pela autoridade espiritual ou pelo penitente ele mesmo. A penitência perfeita, é a reconversão profunda do ser humano ao Ser divino, sua readequação interior e exterior a Ele, em vista da união deificante.
É aí o objetivo último da penitência, que coincide com aquele da remissão dos pecados e nos conduz à definição suprema do perdão. Segundo esta definição própria à perspectiva puramente espiritual, não se trata de obter o perdão de Deus para reencontrar unicamente — como o busca o exoterista — uma coexistência bem-aventurada com Ele, mas para recobrar o acesso direto à Sua Presença real e para se absorver inteiramente nEle. Tudo o que Deus pedia a Adão, era de «cultivar e de guardar o jardim» desta união, quer dizer, de tomar posse dele de forma ativa e total, o homem personificando o Ato integral de Deus, sua Toda-Realidade mesma. É o que o distingue dos anjos e dos espíritos, cuja perfeição é passiva e dos quais cada um representa apenas uma manifestação de tal ou qual aspecto do Real. Mesmo o homem pecador possui ainda o livre-arbítrio e a razão, o pensamento; e esta «reflete» em modo analítico a Toda-Realidade, discerne o Real do irreal, o Verdadeiro do falso, a partir de sua própria essência espiritual, concentrada intrinsecamente sobre o Uno e apta a realizar a síntese universal em reabsorvendo o ser inteiro no Princípio mesmo do universo. Mas, como o prova seu pecado, o homem, ao mesmo tempo em que possui este aspecto unitivo e universal, compõe também a sombra ou a inversão mental e individual de seu discernimento espiritual, a possibilidade do dualismo, da confusão, do erro; e seu livre-arbítrio lhe permite de escolher o falso no lugar do Verdadeiro, o mal no lugar do Bem, a ilusão no lugar do so Real. Esta escolha da separação de com o Uno, é a passagem voluntária da assimilação contemplativa e unitiva da «árvore da Vida» à nutrição mental e sensorial colhida sobre a «árvore do conhecimento do bem e do mal»; é a escolha do bem relativo separado do Bem absoluto ou da Vida eterna e se transformando por lá mesmo em mal: é o pecado original, o abandono do estado de união deificante, a queda e a dispersão no múltiplo tendo por termo a morte. «Porque no dia em que tu dela comeres, tu morrerás da morte» (ibidem II, 16-17).
Desde então, o retorno ao Uno significa para o homem a passagem do estado de pecado ao estado de graça unitiva; em outras palavras, ele deve se converter de seu estado decaído ao seu estado perfeito, conversão que supõe, por definição, a afirmação da perfeição deiforme e o renunciamento ao pecado. É o que a religião chama o «arrependimento» concretizado pelo «ato de penitência»; é por lá que o homem pode esperar ser gratificado do divino perdão o libertando dos sofrimentos do múltiplo e o unindo à Beatitude do Uno. Este perdão, nós o vimos, se manifesta não apenas na conformidade terrestre do homem a Deus e no salvamento póstumo de sua individualidade, mas em último recurso, na eliminação de tudo o que pode impedir seu ser de se reintegrar, desde o aqui embaixo, em sua essência sobre-humana ou supra-individual que, no sentido pleno, é idêntica à Essência divina. Esta última concepção do perdão, própria à elite espiritual, exige do homem esforços interiores e exteriores em consequência; o ser de elite se encontra constantemente na posição de um homem situado face a face com Deus, seja para a graça, seja para o julgamento. Ele está em busca do Absoluto hic et nunc; ele «faz violência ao Céu» a fim de que suas portas se abram, desde agora e para a eternidade. O perdão reside para ele na «abertura das portas interiores» que se superpõem hierarquicamente em seu mais íntimo enquanto estados múltiplos de seu ser integral, ao mesmo tempo individual e universal. As chaves destas portas se encontram entre as mãos do Senhor: quando ele perdoa, os acessos se abrem para Ele.