VIDE: Símbolo, Símbolos
Jean Borella: Le mystère du signe
Esse termo symbolon, aliás, não era apenas propriedade da filosofia grega. Possuía uma espécie de caução escriturística (ao contrário de allegoria), já que aparece uma vez em um dos livros da Bíblia. Trata-se do “Livro da Sabedoria de Salomão”. Esse texto, redigido diretamente em grego por um escriba judeu de Alexandria na primeira metade do século I a.C., lê-se na versão dos LXX, entre Jó e o Eclesiástico. Geralmente se diz que era admitido no cânon das Escrituras pelos judeus alexandrinos e recusado pelos judeus palestinenses porque escrito em uma língua distinta do hebraico. Mas essa tese parece pecar por anacronismo: nenhuma autoridade havia oficialmente proclamado a lista dos livros inspirados, naquela época. Sabe-se que à Torah, ou “Lei” (o Pentateuco) legado por Moisés ao povo eleito, a tradição havia unido não somente as palavras dos Profetas (tem-se assim “a Lei e os Profetas”, de que fala o Cristo), mas também uma terceira categoria de textos, os Hagiógrafos ou Escritos. É entre estes que deve ser colocado o “Livro da Sabedoria de Salomão”. Ora, a lista desses Escritos variava segundo o uso e as comunidades sinagogais. É certo que, na Palestina, onde se lia a Escritura em hebraico ou em aramaico, havia tendência a ignorar os textos usados pelo judaísmo alexandrino, que lia a Escritura em grego. Foi somente por volta de 90 d.C., no sínodo de Jâmnia, que as autoridades judaicas fixaram a lista dos livros autenticamente inspirados, obedecendo à preocupação de preservar a fé judaica de qualquer contaminação essênia ou cristã. Mas, nem no judaísmo palestinense, que continuou por vezes a usar livros rejeitados (por exemplo o Eclesiástico), nem, a fortiori, no judaísmo alexandrino, essas decisões modificaram totalmente os usos. O que o prova é que os primeiros cristãos receberam o Cânon da Escritura legado pela tradição grega como cânon autêntico e diretamente revelado, e esse cânon compreendia a “Sabedoria de Salomão”. Entre os cristãos também não houve decisão solene e pública a esse respeito durante os dois ou três primeiros séculos. E se surgiram discussões acerca da canonicidade da “Sabedoria de Salomão” ou do “Sirácida”, eram devidas a uma influência estrangeira e lateral à tradição recebida do judaísmo grego nos tempos apostólicos, e não a “uma intrusão secundária no cânon judaico tradicional”.
Esse breve histórico era necessário para melhor marcar a importância excepcional que constitui o encontro do judaísmo com a cultura grega para a história das religiões e da civilização ocidental. Seria sem dúvida preciso consagrar-lhe desenvolvimentos bem mais longos, sobretudo em uma época como a nossa em que a tendência é antes a “judaizar” a história das origens cristãs. Já, aliás, há mil e quinhentos anos, a versão hieronimiana da Bíblia visava reencontrar a veritas hebraica. Mas, ao fazê-lo, esquece-se um pouco que milhões de judeus e de cristãos, durante séculos, veneraram uma Bíblia escrita em língua grega, e que essa versão não lhes parecia menos sagrada e inspirada que a Bíblia hebraica. De certo modo, o grego tornou-se assim patrimônio próprio das revelações judaica e cristã. Transplantada e enxertada no ramo cultural judeu, a língua de Homero e de Platão, lamente-se ou regozije-se, estabeleceu-se definitivamente como veículo da mensagem abraâmica e cristã.
É nesse sentido que se pode dizer que a palavra symbolon recebe a caução escriturística e torna-se parte integrante da linguagem da revelação. Com efeito, o “Livro da Sabedoria” declara (XVI, 6): “Eles possuíram um Símbolo de salvação (symbolon soterias) para lhes recordar o mandamento de tua lei. E aquele que se voltava (para esse símbolo) era curado, não por aquilo que via, mas por ti, Salvador de todos os homens.” O escriba alude aqui ao episódio da Serpente de bronze contado em Números. Os judeus, cansados de errar no deserto, murmuraram contra YHVH, que os puniu enviando-lhes serpentes abrasadoras. Arrependendo-se, suplicaram a Moisés que intercedesse por eles. Deus acolheu a oração de Moisés e lhe disse (segundo a versão dos LXX): “Faz para ti uma serpente de bronze e coloca-a como um sinal (semeion) (e pendura-a em um poste, segundo o hebraico); todo aquele que tiver sido mordido e a olhar, viverá.” É interessante notar que o escriba helenista, que lia a Bíblia na versão dos LXX, e portanto para quem o termo semeion estava garantido pela Escritura, não retoma esse termo e lhe substitui o de symbolon: fala de um símbolo de salvação. A razão dessa preferência, pensamos, é que, para um judeu impregnado de cultura grega, a significação religiosa de symbolon aparecia muito mais premente que a de semeion.
Mas a história não se encerra aí. Por única que seja a ocorrência escriturística da palavra símbolo, ela é, de certa forma, retomada e autenticada pelo uso que Cristo faz do episódio da Serpente de bronze, convidando seus discípulos a nele verem uma figura do Filho do Homem: “Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja elevado, a fim de que todo aquele que nele crer não pereça, mas possua a vida eterna.” Assim, do mesmo modo que, na Torah, é uma serpente não venenosa cuja contemplação cura das serpentes venenosas (mas, diz o escriba alexandrino, porque é o símbolo da salvação, o sinal da virtude do Salvador), do mesmo modo Cristo, serpente salvadora pendurada na cruz, sinal de redenção, cura pelo sangue de suas feridas a ferida original, obra da serpente enganadora. Essa interpretação, comum a numerosos Padres da Igreja (santo Ambrósio, Teodoreto, santo Agostinho) e a santo Tomás, é tanto mais notável por fazer do symbolon não apenas um sinal e um tipo (serpente que representa Cristo), mas um rito e um sacramento, conforme às conclusões já recolhidas na literatura grega não judaico-cristã.