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Richard Temple

RICHARD TEMPLE

Fundador da Temple Gallery em Londres há mais de cinquenta anos como um centro de estudo, restauração, exibição e começão de ícones. Publicou uma série de livros, catálogos e artigos sobre o tema e também proferiu palestras amplamente. Seus livros mais notáveis são Icons and the Mystical Origins of Christianity and Icons: Divine Beauty.

TEMPLE, Richard. Icons and the Mystical Origins of Christianity. Shaftesbury: Element Books, 1990

De acordo com as ideias esotéricas que estão no cerne do misticismo religioso, tudo o que pensamos, tudo o que sentimos e tudo o que acreditamos são ilusões. Escritos místicos, como a Filocalia, ensinam que, embora tenhamos uma mente e faculdades de percepção sensorial, não conhecemos a verdade nem vemos a realidade. E, na ausência da realidade (sem sequer saber que ela está ausente), permitimo-nos ficar satisfeitos com a substituição e a aparência. Isso é especialmente verdadeiro quanto ao que acreditamos ser nós mesmos. Não o vemos em nós, mas muitas vezes é evidente para os outros.

Em nossa vida comum, agimos exteriormente com convicção e autoconfiança que não são justificadas pelo que interiormente sabemos e compreendemos. Frequentemente defendemos nossas crenças com grande paixão e, às vezes, até com violência. Mas não é a verdade que defendemos tão energicamente, e sim o nosso ego.

O ego pertence ao mesmo nível de falsidade e substituição que as nossas crenças. É o eu falso, porém dominante, que constantemente usurpa o lugar do verdadeiro eu, que apenas finge ser.

O misticismo tradicional ensina, como sempre ensinou, que não há verdadeiro eu senão Deus habitando em nós.

Como isso pode ser, se Deus está no cume da criação, da qual somos apenas um fragmento infinitesimal?

O estudioso das origens das filosofias e religiões tradicionais logo percebe que estas se ocuparam essencialmente dessa questão misteriosa. De fato, a prática da verdadeira filosofia e da religião autêntica é, em si mesma, o meio pelo qual o ser humano se envolve em tais questões.

Gnosticismo, misticismo, esoterismo e diversos sistemas filosóficos — desde que autênticos — diferem apenas em método e terminologia, conforme as circunstâncias históricas, geográficas e culturais. Em sua essência, não diferem; são os mesmos e, coletivamente, podem ser designados, com propriedade, como a Filosofia Perene.

As origens dos ensinamentos que hoje chamamos de cristianismo pertencem naturalmente a essa categoria. Por isso, existe o conceito de cristianismo gnóstico, cristianismo místico, cristianismo esotérico, e assim por diante.

Viu-se que essas diferentes “formas secretas do cristianismo” existiram desde o início de nossa era e que se conformam ao espírito da Filosofia Perene. Ainda assim, o sentido interior desses caminhos tende a permanecer oculto, disfarçado sob a identidade oficial que lhes foi atribuída pela história. Lemos com demasiada facilidade sobre o cristianismo gnóstico, por exemplo, ou sobre os Padres do Deserto, ou os platônicos cristãos de Alexandria, sem perceber as profundas possibilidades que esses nomes exteriores recobrem.

Uma investigação dessas formas de cristianismo primitivo pode ser extremamente frutífera para aqueles que sentem necessidade de fé e de significado além das convenções sociais e morais da religião exterior, com suas formas fixas, crenças pré-fabricadas e história de fanatismo e compromisso. Tal pessoa é uma buscadora da verdade, ainda que não o saiba. Mas o caminho da verdade é uma jornada e, no início, é um caminho solitário. As pessoas dizem que o caminho não pode ser encontrado, que é errado procurá-lo; chegam mesmo a afirmar que ele não existe.

Apesar de sentir-se só e perdido, o buscador, de modo misterioso, já sabe o que procura, mesmo que não o possa definir. Está convencido de sua existência e é capaz de perceber a diferença entre o falso ou o imitativo e o autêntico. O que procura (e que já conhece) é um conhecimento que não se encontra em livros nem em histórias. É um sabor que já existe em nós desde o nascimento, uma memória conservada desde a infância mais remota, embora gradualmente coberta por camadas daquilo que chamamos de nossa vida. O conhecimento livresco é talvez a última dessas camadas e, embora retido na mente, não penetra através delas e, assim, não se conecta com a verdade essencial que já está presente em nós desde o nascimento.

O retorno à verdade preexistente é uma viagem através dessas múltiplas camadas (incluindo o conhecimento adquirido em livros) rumo ao nosso ser essencial. Nosso verdadeiro eu pertence à Eternidade e ao mundo celeste de onde descemos a este plano material, com seu ciclo de repetições infinitas. Mas não conhecemos o caminho; não lembramos de escutar o chamado — que, embora agora muito tênue, ainda ressoa.

Para alguns, esse chamado pode ser ouvido nos ícones criados por povos distantes e há muito esquecidos. O prodígio é que suas vibrações, capturadas nas formas e nas cores de sua arte, ainda podem ressoar com aquela verdade preexistente que jaz sepultada dentro de nós.

E, a partir dessa ressonância, outras notas podem ser soadas, seguindo uma direção precisa. Nossa busca conduziu-nos ao pensamento não apenas da cultura religiosa e mística cristã medieval, mas também além dela — aos mistérios do Egito e à filosofia helenística. Viu-se que, durante mil anos, do século IV ao XIV, a civilização esteve centrada em Constantinopla e no mundo bizantino, onde floresceu o cristianismo místico e onde os mosteiros eram o coração da cultura religiosa. Ao mesmo tempo, a chama do saber clássico não se extinguiu. Não se enfraqueceu sequer remotamente; Bizâncio foi a herdeira da Antiguidade e guardiã de suas realizações intelectuais e culturais, ainda que em formas cristãs, até a ascensão da Europa no século XV.

Sugeriu-se também que o cristianismo, em seu período formativo, foi nutrido por outra fonte de grandeza intelectual e espiritual. Como já se indicou, o vasto conhecimento do antigo Egito havia sobrevivido desde tempos remotos e ainda era preservado em Alexandria no início da era cristã. Schwaller de Lubicz demonstra isso de modo convincente em sua análise do Templo de Luxor, onde mostra que a sabedoria secreta era uma força viva tanto quando o edifício foi concluído em tempos helenísticos quanto quando fora iniciado três milênios antes.

Discutiu-se o significado alegórico do superior e do inferior e, de modo semelhante, o sentido das imagens do interior e do exterior. Procurou-se compreender seu valor como símbolos na arte. Considerou-se a ideia de luz e de iluminação, tanto como entidades físicas no cosmos quanto como símbolos de uma influência na alma. Esses elementos, juntamente com o princípio da unidade na multiplicidade, são referências visíveis pelas quais se pode estudar a espiritualidade dos ícones. Procurou-se também compreender referências invisíveis igualmente importantes, a saber: o silêncio e a quietude, a guerra interior, o pastor ou guardião interno da mente, a oração incessante e o sentido do eu. Todas essas ideias, reunidas, constituem um organon pelo qual os ícones podem ser estudados.

Mas não são propriamente os ícones em si que se estudam, e sim o seu significado. Os ícones existem para transmitir as mais elevadas ideias cosmológicas, filosóficas e teológicas. Foram criados e desenvolvidos há mais de mil anos para oferecer uma visão das tradições e escrituras esotéricas das quais brotou o que chamamos de cristianismo. Os ícones foram concebidos para desempenhar o mesmo papel que a tradição literária patrística, que ofereceu comentários místicos sem os quais não possuiríamos a chave dos enigmas da Bíblia.

Ao abordar as Escrituras, deve-se sempre prestar a máxima atenção aos comentários patrísticos e místicos; então se verá como o significado literal raramente basta por si só e como aparentes ingenuidades, incoerências e contradições se resolvem em dimensões de profundidade para as quais é preciso possuir a chave. O sentido literal é, frequentemente, uma linguagem cifrada que mais vela do que revela e que serve apenas para fornecer indícios de verdades de ordem cosmológica, metafísica e mística.