JEAN HERBERT. L’enseignement de Râmakrishna. Paris: Albin Michel, 1972
18. — Ao acrescentar zeros, pode-se elevar o algarismo "um" a qualquer valor — mas estes mesmos zeros não valerão nada por si mesmos se este algarismo "um" for omitido.
Da mesma forma, também enquanto a alma individual (jiva) não está unida a Deus, ela não tem nenhum valor, pois todas as coisas daqui de baixo só o adquirem na medida em que estão em contato com Deus. Só Deus, além deste mundo, é a personalidade que pode conferir valor. O jiva ganha, portanto, enquanto trabalha para o Senhor e se apega a Ele. Se, ao contrário, O deixar de lado, ainda que trabalhando com sucesso para sua própria glória — não colherá nada disso.
19. — O verdadeiro Eu do homem é Sachchidânanda, mas a Mâyâ do ego O revestiu de diferentes upadhis, e ele esqueceu sua verdadeira natureza (*).
20. — Assim como uma lâmpada não pode queimar sem óleo, assim um homem não pode existir sem Deus.
21. — A alma acorrentada é o homem, mas quando não está ligada pela corrente (Mâyâ), ela é o Senhor (2).
A alma individual (jivâtman) reside no coração do homem como um pedaço de ferro, e a alma universal (paramâtman) está em sua cabeça como um ímã.
O mal recobre o jivâtman como uma camada de argila. Se esta argila das tendências más puder ser lavada pelas lágrimas fervorosas do Amor (bhakti), imediatamente o ímã (alma universal) atrai a si o ferro (alma individual) (3).
23. — Qual é a natureza da união entre a alma individual (jivâtman) e a alma suprema (paramâtman)? É como a união dos ponteiros que marcam as horas e os minutos no algarismo do meio-dia de um relógio. Eles estão ligados e são interdependentes; embora geralmente separados, unem-se sempre que a oportunidade se apresenta.
24. — A água e suas bolhas são da mesma essência, pois a bolha nasce da água — flutua nela e nela se dissolve. Da mesma forma, a alma individual (jivâtman) e a alma universal (paramâtman) na realidade são uma só. Há apenas uma diferença de grau entre elas. O que as diferencia é que uma é dependente e limitada, enquanto a outra é livre e infinita.
25. — Se você jogar um pedaço de madeira no Ganges, ele parecerá separar a água em duas. Da mesma forma, a ideia do ego parece diferenciar a alma individual (jivâtman) do Eu supremo (paramâtman). No entanto, não há nenhuma divisão real entre os dois.
26. — A ideia de um ego individual é como se, após separar um pouco de água do Ganges, você chamasse essa quantidade separada de seu próprio Ganges.
27. — Se você jogar um pedaço de chumbo em um recipiente que contém mercúrio, ele logo se dissolve. Da mesma forma, a alma individual perde sua existência limitada quando mergulha no oceano de Brahman.
28. — Havia uma vez um boneco de sal que quis medir os abismos do oceano. Ele levou para isso uma linha de sondagem e um prumo. Chegou à beira da água e contemplou o poderoso Oceano que se estendia diante dele. Até aquele momento, ele continuava sempre o mesmo boneco de sal e conservava sua individualidade própria. Mas mal deu mais um passo, mal pôs o pé na água, e já não era mais que um com o Oceano. Ele estava perdido, tornara-se impossível vê-lo! Todas as partículas de sal que o compunham haviam se dissolvido na água do mar. O sal de que era feito provinha do Oceano, e eis que ele havia feito retorno ao Oceano para se unir novamente a ele.
O "diferenciado" havia se tornado novamente um com o "indiferenciado".
A alma humana é como esse boneco de sal, o ego diferenciado, individualizado. O Absoluto, o Incondicionado, é o Oceano salgado infinito, o ego indiferenciado.
O boneco de sal não pôde voltar para explicar a profundidade do grande Oceano. Tal é o caso daquele que tem a felicidade de realizar o Deus absoluto nas profundezas insondáveis do nirvikalpa-samâdhi, que apaga toda individualidade. Indiferenciado como está, ele não pode sair dos abismos para explicar ao mundo a natureza do Deus absoluto e incondicionado. E se alguma vez, pela vontade de minha Mãe, fosse possível ao boneco de sal voltar ao estado diferenciado, ele teria que (se expressar em função do limitado, na linguagem da diferenciação; ele teria que se comportar como um habitante do mundo relativo e fenomenal.
É por isso que o Grande Mistério desafia todas as tentativas de explicá-lo. O Absoluto, o Incondicionado não pode ser expresso em função do relativo e do condicionado. O infinito não pode ser descrito na linguagem do finito.
29. – É o próprio Senhor que atua como o grande prestidigitador, e esta fantasmagoria de jiva e de jagat é Seu grande truque. Só o prestidigitador é real; o truque é uma ilusão.
30. — Um prestidigitador veio diante de um rei exibir seus truques. Depois que ele se afastou a uma certa distância, o rei viu aproximar-se dele um cavaleiro armado, coberto de ornamentos suntuosos. O rei e seus cortesãos tentaram discernir a ilusão e a verdade no que viam. Descobriram que nem o cavalo nem os ornamentos eram reais. E, finalmente, viram que o pretenso cavaleiro estava a pé e sem cavalo. Em outras palavras, Brahman é verdadeiro, mas o mundo é irreal — toda análise o destrói.
31. — O corpo humano é como uma panela; a mente, o intelecto e os sentidos são como a água, o arroz e as batatas. Quando você coloca no fogo uma panela contendo água, arroz e batatas, eles ficam quentes, e se os tocamos queimamos os dedos, embora o calor não pertença em realidade nem à panela, nem à água, nem à batata, nem ao arroz. Da mesma forma, é o poder de Brahman no homem que faz a mente, o intelecto e os sentidos desempenharem seu papel; quando essa força deixa de agir, eles também param.
32. — Os legumes dançam ao cozinhar na panela, de modo que as crianças os creem vivos. Mas os pais lhes explicam que esses legumes não se movem por si mesmos — se a panela for retirada do fogo, seus movimentos parariam imediatamente. Da mesma forma, é a ignorância que diz: "Eu sou aquele que age." Toda nossa força é a força de Deus — afaste este fogo, e tudo se torna inerte novamente.
33. — Uma marionete dança enquanto se puxam os fios que a fazem mover, mas assim que a mão do mestre para, ela fica imóvel novamente.
34. — Havia um homem santo que vivia em estado de êxtase e nunca conversava com ninguém. Passava por louco. Um dia, tendo mendigado comida na vila, foi sentar-se em um cão e começou a comer e a dar de comer ao cão. Foi um espetáculo estranho que atraiu uma multidão de curiosos, pois o homem santo metia alternadamente um pedaço em sua boca e um pedaço na boca do cão, de modo que o homem e o animal comiam juntos como um par de amigos. Alguns dos espectadores começaram a zombar do homem santo, considerando-o louco. Então ele lhes disse: "Por que riem?
Vishnu está sentado sobre Vishnu, Vishnu alimenta Vishnu, Por que riem, ó Vishnu? Nada do que existe é outro senão Vishnu."
35. — O Ashtâvakra-Samhitâ trata do conhecimento do Eu. Aquele que conhece o Eu declara: "so’ham, Eu sou Ele", isto é, o Eu mais elevado. É uma palavra que convém a um sábio praticando a renúncia. É a concepção de todos os sannyâsins vedantistas. Mas não é bom para um homem mundano ter essa ideia. O mundano faz todo tipo de coisas; como poderia ele ao mesmo tempo ser esse Eu superior, Deus absoluto, que está além de toda ação?
36. — A maior manifestação de Deus está no homem. Você pode se admirar de que aquele que tem todas as imperfeições do homem comum (a fome, a sede, e mesmo a doença e a tristeza), possa ser uma Encarnação de Deus. Mas está escrito que "até Brahman chora, quando é apanhado na armadilha dos cinco elementos". Veja Shri Râmachandra: como ele chorou quando perdeu Sita!
O Senhor também Se encarnou em um javali para destruir Hiranyâksha (5). Mas Sua tarefa uma vez cumprida, Ele se recusou a retornar à Sua própria esfera. Ele continuou a viver como javali, com uma porca, e teve com ela leitões. Ele era perfeitamente feliz. Os deuses se perguntaram: "O que significa isso? Parece que o Senhor não quer voltar." Eles foram todos encontrar Shiva e Lhe submeteram o problema. Shiva Se dirigiu ao javali e insistiu para que voltasse, mas este não quis ouvir. Então, com Seu tridente, Shiva matou o animal. O Senhor irrompeu em risos e subiu aos céus.
37. — Não atribuamos importância excessiva a uma fotografia, pois ela representa apenas o corpo. Adoremos antes Aquele que reside na alma e é seu Senhor.