JEAN HERBERT. L’enseignement de Râmakrishna. Paris: Albin Michel, 1972
O DESTINO DO HOMEM
1 Nasce em vão aquele que, tendo o privilégio raro de nascer como homem, é incapaz de “realizar” Deus nesta vida.
2 Recebes conforme pensas. Deus é como o kalpataru, a árvore dos desejos: cada um obtém d’Ele o que busca. O filho de um homem pobre, se tiver recebido educação e, após muito esforço, tornar-se juiz de Alta Corte, pode sentir-se facilmente satisfeito consigo mesmo. Então Deus faz eco aos seus pensamentos e diz: “Muito bem, continua assim...” Mais tarde, quando o mesmo juiz se aposenta, começa a ver as coisas como são e pergunta-se: “Ah! De que serviu tudo isso? O que realizei em minha vida?” E Deus, fazendo novamente eco às suas reflexões, responde: “É verdade. Em realidade, o que realizaste?”
3 O homem traz consigo, ao nascer neste mundo, duas tendências: uma (vidyâ), que o impele a buscar o caminho da libertação; outra (avidyâ), que o arrasta à vida terrena e à servidão. No nascimento, essas duas tendências estão equilibradas, como os pratos de uma balança. Logo, o mundo deposita de um lado os seus prazeres e gozos. No outro prato, o Espírito coloca o atrativo de suas promessas. A balança inclina-se para o lado da avidyâ se o homem escolhe o mundo — e ele é arrastado à terra; mas, se opta pelo Espírito, o prato de vidyâ o elevará até Deus.
4 Obtém primeiro Deus, e depois as riquezas — mas não tentes o inverso. Se levares uma vida mundana apenas depois de haver adquirido espiritualidade, não correrás o risco de perder a paz da alma.
5 Falas em reformas sociais. Antes de empreendê-las, realiza Deus. Lembra-te de que os rishis de outrora renunciavam ao mundo para alcançar o Divino. Essa é a única coisa necessária; o resto te será dado em acréscimo, se verdadeiramente o desejares. Vê primeiro a Deus; depois poderás discursar e falar de reformas sociais.
6 Um viajante recém-chegado a uma cidade deve, antes de visitá-la, assegurar-se de um bom alojamento para a noite e aí depositar sua bagagem. Só então poderá percorrer a cidade. Sem essa precaução, corre o risco de não encontrar abrigo e passar a noite ao relento. Do mesmo modo, aquele que assegurou para si o repouso eterno em Deus pode, sem medo, dedicar-se ao trabalho cotidiano. Quando a noite sombria e terrível da morte descer sobre ele, se não tiver tomado essa precaução, passará por incontáveis dificuldades e sofrimentos.
7 À porta dos celeiros cheios de arroz e grão-de-bico colocam-se armadilhas para os ratos. Atraídos pelo cheiro do arroz torrado que se põe nelas, eles deixam o arroz do celeiro e vão buscá-lo na armadilha — onde morrem. Assim acontece com a alma. Ela está à beira da Bem-Aventurança divina, que equivale a milhões das mais intensas alegrias terrenas — mas deixa-se atrair pelos mesquinhos prazeres do mundo e cai na armadilha de Mâyâ, a grande ilusão, onde perece.
8 Um pandit disse um dia a Sri Ramakrishna: “Os teósofos afirmam que existem mahâtmas. Dizem também que o corpo astral do homem pode deslocar-se por diferentes planos — o plano astral, o devachana, as esferas solar, lunar etc. Dizem ainda muitas outras coisas. Qual é a vossa opinião, Senhor, sobre isso?” O Mestre respondeu: “O amor é o essencial — bhakti, a devoção a Deus. Procuram eles a bhakti? Se sim, tudo está bem, e é bom que tenham como desejo e meta a realização de Deus. Mas, se se ocupam apenas de coisas tão sem importância como as esferas solar, lunar ou astral, os mahâtmas e outras curiosidades, não buscam a Deus. Para alcançar a devoção aos pés de lótus do Senhor é preciso realizar sâdhanas, é preciso desejá-Lo com lágrimas e ardente anseio no coração. O pensamento deve retirar-se de tudo o mais e concentrar-se exclusivamente n’Ele. Ele não está nos Vedas, nem no Vedanta, nem em nenhum livro. Só pode ser atingido por fervor intenso. É necessário orar com ardor, pois não se pode realizá-Lo facilmente; a prática das sâdhanas é indispensável.”
9 Verão todos os homens a Deus? Ninguém é obrigado a jejuar o dia todo. Uns comem às nove da manhã, outros ao meio-dia, outros às duas da tarde e outros, enfim, só ao pôr do sol. Assim também, todos os homens poderão e deverão ver Deus, mais cedo ou mais tarde — seja nesta vida, seja após muitas outras existências.
10 Uma mãe tem vários filhos. A um dá um brinquedo, a outro uma boneca, a um terceiro alguns doces, e, absortos por essas coisas, eles se esquecem da mãe. Mas se um deles atira o brinquedo e grita: “Onde está mamãe?”, ela vem imediatamente consolá-lo, tomando-o nos braços. Assim também, ó homens, não pensais na Mãe Divina porque estais absorvidos pelos apegos do mundo; mas, logo que os rejeiteis e invoqueis a Mãe Divina, podeis estar certos de que Ela virá até vós e vos acolherá em Seus braços.
11 Meditai sobre a Sabedoria e a Bem-Aventurança eternas, e encontrareis a bem-aventurança. A Bem-Aventurança é eterna, mas está velada e obscurecida pela ignorância.
12 O sinal distintivo da riqueza é ter uma lâmpada acesa em cada aposento. Os pobres não podem dar-se ao luxo de muito azeite, e por isso têm pouca luz. O templo do nosso corpo não deve permanecer nas trevas; é preciso acender nele a lâmpada do conhecimento. Acendei a lâmpada da sabedoria em vossa câmara e contemplai o rosto da Mãe Divina. Cada um pode alcançar esse conhecimento.
13 Há o eu pessoal e o Eu superior. Todo indivíduo está ligado ao Eu superior. Há um encanamento de gás em cada casa; obtém-se uma ligação dirigindo-se à companhia de gás. Fazei vossas diligências, procurai quem de direito e tereis o vosso contador. Então, o vosso quarto será iluminado.
14 Quando um dos pratos de uma balança está mais carregado que o outro, os dois ponteiros jamais se encontram frente a frente. Um deles é como a nossa mente; o outro, como Deus. O que se entende por yoga é a união desses dois ponteiros.
15 O objetivo do vedantista é a união entre o não diferenciado (a Alma universal) e o diferenciado (o jîva).
16 Poucos são os homens que compreendem que o fim da vida humana é ver Deus.
17 Se conheces o Único, conheces tudo. Os zeros que se colocam após o número 1 tornam-se centenas de milhar; mas, se apagas esse 1, nada resta. A multidão só tem valor por causa desse Único. Primeiro o Único, depois a multidão. Primeiro Deus, depois o mundo e os seres individuais (jagat e jîvas).