FIDELER, David. Jesus Christ, sun of God: Ancient cosmology and early Christian symbolism. New York: Quest Books, 1993
O Evangelho de João e a Gnose
O Evangelho de João apresenta a visão mais espiritual da natureza e da missão de Jesus, tendo pouco em comum com os três outros evangelhos do cânon do Novo Testamento. Clemente de Alexandria informa que “João, o último de todos, vendo que o que era corpóreo fora exposto nos [outros] Evangelhos, a pedido de seus amigos íntimos e inspirado pelo Espírito, compôs um Evangelho espiritual”. Esta obra admirável foi muito apreciada entre os cristãos gnósticos, mas, devido à sua mensagem espiritualizada e à sua afinidade gnóstica, encontrou, especialmente em Roma, “aceitação apenas muito hesitante”.
Um dos problemas mais interessantes apresentados pelo Evangelho de João são os longos discursos de Jesus descrevendo sua natureza, os quais não possuem paralelo nos evangelhos sinóticos. Característicos desses discursos são os enunciados “Eu sou”, nos quais Jesus revela abertamente sua natureza. O Evangelho de Tomé — que, em sua forma mais antiga, provavelmente precede o Evangelho de João — contém muitos ditos paralelos aos enunciados “Eu sou” de João, e há consideráveis indícios de que, na tradição cristã primitiva, inteiros discursos e diálogos se cristalizaram em torno desses ditos. Helmut Koester assinala diversos paralelos entre o Evangelho de João e o Evangelho de Tomé em sua excelente Introdução ao Novo Testamento: por exemplo, João 8,52, “Quem guardar a minha palavra não provará a morte”, é uma variante de Tomé 1, “Quem encontrar a interpretação destas palavras não experimentará a morte”. Logion 77, “Eu sou a luz que está acima do Todo”, “corresponde inteiramente” ao estilo joanino e a passagens como João 8,12, “Eu sou a luz do cosmos; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida”. Logion 108, “Quem beber da minha boca tornar-se-á semelhante a mim”, pode ser comparado com João 7,37-38:
“Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu coração brotarão rios de água viva.”
Pode-se também comparar com João 14,12, onde o crente assume a obra de Cristo: “Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço...”. Esses paralelos poderiam ser facilmente multiplicados, e qualquer leitura atenta desses dois evangelhos revelará inúmeras semelhanças subjacentes.
No Evangelho de João, o “Evangelho Espiritual”, a figura de Jesus aparece como o “Revelador Gnóstico”. O significado de Jesus reside em suas palavras e ensinamentos, que despertam uma humanidade adormecida para o mundo do espírito. Como observa Helmut Koester:
Considerando que Jesus corresponde à figura do Revelador Gnóstico no Evangelho de João e que o próprio evangelho baseia-se em uma “escatologia realizada” característica das posições gnósticas, é legítimo supor que o Evangelho de João seja “um escrito gnóstico”? Helmut Koester sustenta que, embora João contenha elementos modificados de Gnosticismo, o evangelho enfatiza o fato de que o Logos se fez carne e, assim, rejeita uma posição verdadeiramente gnóstica, que envolveria “a rejeição radical da esfera terrena e humana”. Segundo Koester, “A palavra do revelador, portanto, não apela, como faria no Gnosticismo, ao conhecimento divino último do ouvinte, mas aos anseios e expectativas que surgem da experiência humana.”
Gnosticismo: Pessimista, Otimista e Literalista
A dificuldade na posição do Dr. Koester reside em seu apego a uma definição demasiadamente rígida do Gnosticismo, conferindo-lhe o sentido restrito de uma doutrina sempre voltada à rejeição do mundo e de orientação anticósmica. O problema dessa visão está em que a própria definição de Gnosticismo é moderna, ao passo que as manifestações efetivas da Gnose na Antiguidade foram muito mais diversas do que aquilo que uma definição acadêmica pode abarcar. Assim, ao analisar se o Quarto Evangelho tem orientação gnóstica, Helmut Koester pode ter incorrido no erro de “confundir o mapa com o território”.
É verdade que a mitologia gnóstica apresenta frequentemente um quadro dualista do universo, em que o mundo do Pleroma, o reino da luz, é contrastado com o esquecimento da existência terrestre. Em certos ensinamentos, chega-se a afirmar que o universo físico foi criado por engano por um Demiurgo que, ignorantemente, proclamou a si mesmo o verdadeiro Deus, sem conhecer as realidades superiores. Tais ensinamentos, ao menos em aparência, representam uma forma “pessimista” de Gnose, que adota uma visão negativa do cosmos físico. Por outro lado, existiram também formas “otimistas” de Gnose, nas quais o universo físico era visto — no sentido platônico clássico — como uma teofania ou manifestação do divino. Uma forma de Gnose otimista é claramente visível em alguns escritos herméticos, nos quais o cosmos divinamente belo é apresentado como “um deus” em si mesmo ou como “o Filho de Deus”.
Um dos livros mais influentes na formação da concepção moderna de “Gnosticismo” foi A Religião Gnóstica: A Mensagem do Deus Estrangeiro e os Primórdios do Cristianismo, de Hans Jonas, publicado em 1958. Embora Jonas tenha oferecido uma análise brilhante do Gnosticismo, que se tornou referência para muitos estudiosos, é importante notar que sua própria perspectiva foi fortemente influenciada pela visão niilista do existencialismo. Ele definiu o Gnosticismo como uma forma de “niilismo antigo”, um dualismo radical no qual o homem se encontra alienado do cosmos. Jonas chegou a acrescentar um epílogo ao seu livro, intitulado “Gnosticismo, Existencialismo e Niilismo”, no qual afirmava que o existencialismo moderno oferece a chave mais importante para a compreensão da atitude gnóstica antiga.
Quando certos mitos gnósticos descrevem o mundo como tendo sido criado por engano por um Demiurgo ignorante, teólogos existencialistas como Jonas prontamente os interpretaram de modo superficial e literal. Contudo, uma vez que os gnósticos afirmavam que seus ensinamentos eram secretos e esotéricos, parece equivocado ignorar seu sentido interior. A mitologia gnóstica, de fato, apresenta um quadro radical e dramático da existência, mas trata-se de uma mitologia com um propósito, e nada sugere que esses ensinamentos esotéricos devam ser lidos literalmente, assim como os escritos dos alquimistas espirituais não devem ser tomados como manuais laboratoriais. Em qualquer caso, se um mito possui finalidade, ele não pode ser considerado niilista.
Se quisermos compreender os mitos gnósticos, em vez de tomá-los ao pé da letra, devemos investigar que função desempenham. A função inicial e evidente da mitologia gnóstica é demonstrar, de modo impactante, que o mundo não é tão simples quanto parece; existe um nível oculto da realidade raramente reconhecido pela sociedade ou pelas instituições religiosas. Ademais, vive-se em um mundo em que a ignorância predomina, e a ignorância é fonte de imenso sofrimento. Isso foi expresso mitologicamente por Valentim, quando ensinou que o mundo foi criado a partir das paixões de Sophia — sua dor, medo, perplexidade e ignorância —, que brotaram de seu desejo não correspondido de conhecer a Fonte inefável. A referência aqui, porém, não diz respeito tanto ao universo físico ser produto da ignorância, mas sim ao mundo humano. A natureza em si não é feia nem má; tais qualidades ingressam no universo apenas por meio da humanidade, quando os indivíduos se afastam de sua natureza intrínseca — quando esquecem o que realmente significa ser humano. É propósito do Revelador Gnóstico recordar-nos disso. Talvez os mitos gnósticos tenham surgido para cumprir função semelhante: despertar-nos a um nível mais elevado de consciência, invertendo o familiar e obrigando-nos a olhar o universo com novos olhos, a repensar as coisas importantes que costumamos tomar por certas.
Embora a mitologia gnóstica possa ser estudada em termos de sua função, ela também reflete a experiência humana, e esses dois fatores estão intrinsecamente relacionados. Os gnósticos interessavam-se, acima de tudo, pela experiência espiritual, e dessa experiência brotou a percepção de que as formas religiosas de sua época eram incapazes de acomodar as profundas realizações às quais eram conduzidos. Pode-se, portanto, discernir em seus mitos uma crítica, por vezes radical, ao simbolismo religioso contemporâneo. O Demiurgo ignorante que criou o mundo por engano é identificado com o Deus ciumento do Antigo Testamento, não por crer-se necessariamente que o mundo tenha sido criado em erro, mas por se reconhecer que a imagem do Deus irado de Javé era incapaz de refletir as mais altas realizações do Espírito. Assim, nesse caso, temos uma realização espiritual interior combinada a uma “crítica social” reveladora, expressa em forma mitológica.
As tendências dualistas presentes na Gnose, como nas demais religiões helenísticas, foram talvez excessivamente enfatizadas por uma leitura literal de textos esotéricos. Quanto ao mito do mundo criado por engano, esse tema cumpriu função importante ao reconhecer a presença da ignorância e do mal no mundo e ao criticar radicalmente sistemas de crença inadequados; mas, como diz Jesus no Evangelho gnóstico de Tomé, “Aquele que acredita que o Todo é deficiente é (ele mesmo) deficiente.” Do mesmo modo, a gematria grega presente no Novo Testamento é certamente “gnóstica”, mas representa uma forma de gnose que escapa à definição contemporânea limitada do que teria sido o Gnosticismo. Os estudiosos modernos sabem que certos gnósticos interessavam-se pela gematria e pelo simbolismo numérico, mas, por não terem levado o tema a sério, ignoraram o fato de que existia uma linguagem científica da gematria, baseada no estudo dos primeiros princípios — os princípios que os pitagóricos viam como subjacentes à harmonia do universo. Nesse sentido, tanto a geometria dos 153 peixes na rede quanto a multiplicação dos pães e dos peixes são certamente gnósticas, mas refletem uma gnose da harmonia cósmica, e não um Gnosticismo de um mundo criado em erro.
Diante desses fatos, e reconhecendo a insuficiência do termo contemporâneo “Gnosticismo”, é possível perceber com maior clareza se o Evangelho de João possui ou não uma orientação gnóstica.
Desde sua descrição do Logos, o autor do Quarto Evangelho insere todo o relato em um quadro cosmológico que se harmoniza com uma perspectiva gnóstica: Jesus é identificado como o Logos, um poder cósmico característico da especulação gnóstica. O kosmos foi feito por meio do Logos, mas o mundo não o conheceu, tendo esquecido sua própria origem celeste. Assim como em outros relatos gnósticos, o Revelador manifesta-se no mundo, mas nem todos o reconhecem; aqueles que o fazem, contudo, tornam-se iluminados: tocados pelas energias do Logos, tornam-se filhos de Deus.
Em seguida, é dito que o Logos se fez carne e se manifestou entre os homens — afirmação que, para alguns, mostra que o Quarto Evangelho “não é gnóstico”, por não ser “docetista”. O problema dessa posição é supor erroneamente que todas as formas de Gnose fossem intrinsecamente docetistas ou afirmassem que Jesus “apenas parecia” ser humano. Isso não é necessário; de todo modo, trata-se da manifestação de um poder cósmico preexistente na esfera terrena. Mesmo se interpretado literalmente, trata-se de uma “pneuma cristologia”, da qual o docetismo é apenas uma variação. Em ambas as concepções, “Cristo é um ser celeste (seja espírito ou anjo) temporariamente revestido de carne, isto é, aparecendo em forma humana.” Ademais, não é sua aparência terrena que é decisiva, mas sua origem celeste e transcendente, perceptível apenas pela fé. Que ele tenha vindo “em carne” significa unicamente que entrou na esfera terrena e humana, tal como a Gnose também supõe em relação ao redentor. Mas o “Cristo carnal” não é o verdadeiro; o verdadeiro é o não carnal, o Cristo da glória, o Logos.
É sobre esse pano de fundo — o Cristo como Poder Celeste — que todo o Quarto Evangelho se estrutura.
Diferentemente dos outros relatos do Novo Testamento, João apresenta Jesus primordialmente como o Revelador do conhecimento salvador. Embora a palavra gnosis nunca seja usada, a ideia é claramente expressa. Além disso, em muitos dos discursos e enunciados “Eu sou”, torna-se evidente que Jesus não fala como mero ser humano, mas em sua condição de Logos, o Revelador Gnóstico. Quer Jesus diga “Sou eu quem é a luz que está acima de todos” no Evangelho de Tomé, quer “Eu sou a luz do mundo” em João, ou outras expressões semelhantes, é altamente improvável que estejamos diante das palavras do Jesus histórico; antes, trata-se de declarações que somente podem ser proferidas pelo Logos Celeste, o poder primordial de harmonia que transcende o tempo e o espaço.
Como outros relatos gnósticos, o Evangelho de João caracteriza-se por numerosas expressões dualistas. A luz é contrastada com as trevas; o mundo do Pai, com o estado deste mundo. Os indivíduos que são “de Deus” contrastam-se com os que “não são de Deus”, enquanto aqueles que são “da verdade” ouvem a voz de Jesus, e os que não são da verdade não a ouvem. Ainda mais sugestivo de uma perspectiva gnóstica é o fato de que a ênfase de todo o evangelho recai sobre as palavras salvíficas de Jesus: a salvação é transmitida mediante a conscientização de suas palavras, não por meio dos sacramentos de uma instituição eclesiástica. Consequentemente, não há menção à instituição da eucaristia na última ceia, onde aparece, em seu lugar, a cena da lavagem dos pés.
Por fim, como já se observou, João apresenta uma “escatologia realizada” muito semelhante à expressa no Evangelho de Tomé. O Reino dos Céus, o dia do juízo e a realidade da vida eterna não são realidades futuras, mas presentes, agora, para aqueles que têm olhos para ver: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna; não entra em juízo, mas passou da morte para a vida.” A ênfase aqui recai sobre a mudança interior de perspectiva que resulta do “nascimento do alto”. Aqueles que reconhecem a natureza do Logos experimentam a luz divinizadora do Cristo interior; tornam-se “filhos de Deus” e, por meio dessa transformação, são conduzidos à experiência da “vida eterna”, que em grego é zoe aionios, a “vida dos éons”.
Ainda que não se trate de uma Gnose mitológica complexa como a encontrada em outras fontes, o Evangelho de João é um claro exemplo de uma Gnose cristã. Jesus é o Logos, o plano cósmico de harmonia sobre o qual o universo se fundamenta. Ele desce à esfera terrestre da mortalidade para recordar àqueles que são “de Deus” e “da verdade” sua natureza essencial. Como os ramos da “videira verdadeira”, esses “filhos de Deus” são a descendência do Logos e, portanto, compartilham algo de sua natureza. Aqueles que são conduzidos a essa realização reconhecem sua afinidade intrínseca e relação com o Logos; ademais, percebem sua imortalidade essencial no aqui e agora, e assim manifestam o Reino dos Céus na terra.