LORY, Pierre. Les commentaires ésotériques du Coran: d’après ’Abd al-Razzâq al-Qâshânî. Paris: Deux Océans, 1980
O Espírito Primeiro
A primeira determinação que segue imediatamente à Essência divina será, ao contrário, em razão de sua posição ontológica e de seu papel primeiro na cosmologia sufista, objeto de alusões e comentários muito mais numerosos. Ela será evocada por toda uma série de termos técnicos que exprimem cada um um aspecto particular de sua função cósmica.
— Enquanto primeira determinação constituindo o limite exato entre a Existência absoluta e o mundo das existências relativas, será designada pelos termos Intelecto Primeiro (al-‘aql al-awwal) ou Espírito Supremo (ar-ruh al-a‘zam) ou ainda Espírito Primeiro (ar-ruh al-awwal), conforme uma terminologia de origem filosófica.
O simbolismo sufista de origem corânica a identifica em outro lugar ao “jujubeeiro do limite”, mencionado no versículo 14 da surata da Estrela (LIII): “(O jujubeiro), é o Espírito Supremo, que é o limite extremo dos graus do Paraíso, além do qual não há mais determinação nem grau existencial. Nada há acima dele, exceto a Ipsidade pura (al-huwiyyat al-mahda)” (2/556).
No comentário do primeiro versículo da primeira surata, Qashani recorre ainda ao simbolismo das letras. Aqui, o Intelecto Primeiro é simbolizado pela letra ba de bismillah, que é a primeira de todas as letras do Corão e a imagem mesma da saída das coisas à existência. “Todos os seres existentes provêm da letra ba de bismillah. Com efeito, o ba segue diretamente o alif; este correspondendo à Essência divina, o ba corresponde ao Intelecto Primeiro, que é ‘o primeiro ser criado por Deus’, e a quem Ele dirigiu estas palavras: ‘Nada criei que me seja mais caro e mais precioso do que tu. Por ti Eu dou e por ti Eu tomo, por ti Eu recompenso e por ti Eu castigo’” (hadith qudsi) (1/8). Aqui Qashani retoma especulações que haviam se tornado lugares-comuns nos meios esoteristas ismaelitas e sufistas.
O Espírito Primeiro, na medida em que engloba todos os graus inferiores de existência, será simbolizado pelo termo corânico al-‘arsh, o Trono: “Quanto ao Trono Glorioso Supremo, é o Espírito Primeiro. A imagem e a correspondência simbólica (do Trono e do Escabelo, al-kursi) no mundo manifestado é a esfera celeste suprema, a oitava, que envolve os sete céus e o que eles contêm” (1/143). O Trono é interpretado, no início da surata Qaf, pela letra qaf (que, para Qashani, designa metonimicamente al-qalb al-muhammadi, ‘o Coração muhammadiano’). Ora, segundo uma fórmula sufista, Qaf é uma montanha que envolve o mundo e atrás da qual se encontra a Fênix (al-‘anqa, símbolo da Essência divina). “Pelo fato de envolver o mundo e constituir o véu do Senhor, ninguém pode conhecê-la se não tiver alcançado a estação do coração (maqam al-qalb), e somente a conhece quem tiver escalado essa montanha” (2/526). Assim já aparece o vínculo que une a cosmologia sufista à realização espiritual.
Esse Intelecto Primeiro, enquanto contém sinteticamente todos os Atributos divinos, todos os graus de existência e todos os detalhes da criação, é designado pelo termo Muhammad. Trata-se, é claro, da Realidade Muhammadiana cósmica, ainda que o termo preciso não seja empregado por Qashani, que, segundo o contexto, falará do espírito, da alma, do coração, ou globalmente do ser muhammadiano. A propósito das letras liminares da surata XXVI, Ta Sin Mim — “Estes são os sinais do Livro claro” —, ele dirá: “Ta designa o Puro (al-Tahir), Sin designa o Pacífico (as-Salam) e Mim designa Aquele que envolve (al-Muhit) as coisas pelo Conhecimento. O Livro claro, cujos Nomes e Atributos são esses sinais, é o Ser Muhammadiano perfeito, dotado de clara eloqüência e de sabedoria” (2/171). Nessa Realidade suprema estão contidas todas as possibilidades universais de modo supraformal e simultâneo. Essas essências-arquétipos “são imutáveis, não se transformam, não mudam, não se corrompem e são preservadas de toda lacuna e de todo dano” (1/550).
Sintetizando assim todos os Atributos divinos, Muhammad é o Homem Perfeito. Como indica Qashani, “não há lugar epifânico para o cumprimento de Sua Ciência interior (batin) e de Sua Sabedoria senão no Homem Perfeito. Ora, o Profeta é Seu aspecto exterior quanto à forma, e Seu aspecto interior quanto ao significado (ma‘na). A Ciência divina desce sobre o seu coração, manifesta-se em sua língua e por meio dela chama as criaturas à Sua Essência. Não há dualidade, exceto se se considerar a particularização de Seus Atributos; mas se se considera a síntese (jam‘), nada existe senão Ele, e o Profeta não é outro senão Ele” (1/387). Ele é o protótipo da criação, o Nome supremo de Deus (1/7). É ele quem encarna, em termos de cosmologia espiritual, o que é o homem no nível microcósmico, isto é, o plano epifânico de todos os Atributos divinos. Essa síntese das perfeições metafísicas será expressa por e na pessoa de cada um dos profetas enviados aos homens, mas encontrará seu cumprimento mais perfeito e definitivo na pessoa histórica de Muhammad que, nesse nível também, é o “Homem Perfeito”, o pólo (qutb) de seu tempo. “A predisposição perfeita que porta o Corão foi concedida somente a ti, pois tu és o Pólo do mundo” (1/732).
Qashani designa o conjunto dos conhecimentos (al-ma‘lumat) contidos nesse nível da realidade metafísica pelo termo Corão, ou, mais precisamente, “intelecto corânico” (‘aql qur’ani), isto é, a enunciação das verdades divinas sob o aspecto da síntese. Esse termo será constantemente oposto ao de Forcan (“distinção”) e de “intelecto forcânico” (‘aql furqani), que indica a enunciação das verdades divinas sob o aspecto do detalhe, da particularização (tafsil).
Nesse sentido, Qashani pode afirmar, comentando o início da surata XLIII: Ha-Mim. Pelo Livro explícito, que “se pode interpretar o Livro (o Corão) como sendo o próprio Muhammad, pelo fato de ele explicitar a Verdade sintética e detalhadamente” (2/441). Sinteticamente, isto é, no nível metafísico da Realidade Muhammadiana, e detalhadamente, pelo desenrolar histórico da missão do Profeta. A “recepção” por Muhammad da Revelação corânica durante a Noite do Destino (Corão, XCVIII) constitui, com efeito, o cumprimento total de sua natureza, o Corão representando, de certo modo, sua predisposição originária. Qashani o sugere no comentário dos versículos 3 a 5 da surata XXXVI: “Tu és, em verdade, entre os Enviados (...) Revelação do Poderoso, do Muito Misericordioso.” “Isto é, o Corão, que contém a Sabedoria e que é a imagem de tua predisposição, é uma revelação na medida em que apareceu detalhadamente em teu ser manifestado, saindo do lugar onde se oculta a Totalidade, para que ele fosse o Forcan revelado pelo Poderoso, o Vitorioso, que venceu tua individualidade e tuas qualidades de criatura, constrangendo-as por Seu Poder, a fim de que elas não aparecessem e não impedissem a manifestação do Corão, que estava oculto em teu ser não manifestado, na superfície de teu coração, e que não o impedissem de tornar-se Forcan” (2/323).
Considerado sob o aspecto do processo da execução da Vontade divina quanto à predestinação das coisas existentes, esse mesmo nível será denominado:
— “A Mãe do Livro”, segundo o termo corânico mencionado no versículo XLIII, 4, e comentado como sendo o “fundamento da existência (asl al-wujud) no primeiro grau existencial e o primeiro ponto de existência relativa (wujud idafi), distinto da primeira determinação da Existência absoluta” (2/442). Em outro lugar, Qashani precisará que as disposições da Mãe do Livro são “Ideias Universais não submetidas ao tempo, transcendendo as particularizações, pois seu lugar é o Espírito Primeiro, que é puro de toda limitação espacial” (1/356).
— Ou “a Tábua do Decreto eterno” (lawh al-qada’ al-azali), diferente das Tábuas dos graus existenciais inferiores: Tábua do Destino (lawh al-qadar), Tábua das almas particulares celestes e, por fim, Tábua da matéria-prima, que constituem os graus de particularização progressiva desse Decreto eterno (1/645).
Enquanto mundo superior constituindo o arquétipo, o correspondente espiritual do mundo humano, essa primeira determinação será designada pelo termo “Mundo da Onipotência” ou “Mundo da Constrição” (‘alam al-jabarut), em razão de sua posição primeira no processo da predestinação. Esse mundo é habitado pelos Anjos Próximos (muqarrabun) e pelos Espíritos despidos (de toda matéria) “que, por suas essências e qualidades, são da mesma espécie que os homens; são eles o parentesco dos homens sob o aspecto da Realidade essencial” (1/33).
Esses Anjos e Espíritos são as “palavras” que Deus dirige aos homens (cf. Corão, II, 37): “Todo ser despido é uma Palavra, pois provém do Mundo da Ordem (‘alam al-amr); assim, Jesus é chamado ‘Palavra’” (1/41). O papel dos anjos em relação ao mundo humano é o de serem mediadores de toda iniciativa divina, os agentes da Sabedoria divina desdobrando-se no mundo dos seres existentes (1/573).
— Finalmente, enquanto elemento cósmico que transmite ao nível inferior as disposições do Decreto divino que contém em modo sintético, esse mundo é chamado Cálamo, conforme Qashani explica em seu comentário dos primeiros versículos da surata LXVIII: “Pelo Cálamo: essa última invocação é metafórica, pois as formas dos seres existentes são traçadas na Alma (universal) pela ação do intelecto (universal), assim como se traçam formas sobre uma tábua com um cálamo. E pelo que eles escrevem, em matéria de formas e de ipsidades das coisas, e de estados que lhes são atribuídos segundo o que deve lhes ocorrer. Os agentes do ‘que eles escrevem’ são os intelectos intermediários que escrevem, os espíritos santificados. Atribui-se-lhes essa ação no nível da presença dos nomes, ainda que, na realidade, seja Allah mesmo quem escreve” (2/683).
Mas se o termo Cálamo é empregado para designar o elemento ativo em relação à Alma Universal (= a Tábua Guardada), Qashani empregará o termo Intelecto Agente (al-‘aql al-fa‘al), que é Gabriel, também chamado Espírito de Santidade (ruh al-qudus), quando considera o elemento ativo em relação a todos os níveis de existência inferiores a ele, inclusive o mundo formal da Realeza.
Assim, Qashani relata que Jesus declarou a seus discípulos, no momento de se separar deles: “Vou reunir-me a meu Pai, vosso Pai celeste”, e comenta em termos destes: “Vou reunir-me ao Espírito de Santidade, que dá as formas, que provoca o desdobramento cósmico dos espíritos e das perfeições, o Mestre que educa os homens pela insuflação do espírito, a fim de que ele derrame sobre vós sua efusão” (1/191). Em outro lugar, comentando as três letras liminares da segunda surata (Alif, Lam, Mim), Qashani as interpreta assim: “Alif designa a Essência, que é o princípio da existência, conforme foi dito. Lam designa o Intelecto Agente, Gabriel, termo médio da existência que bebe na fonte existencial (al-mabda) para difundir até o fim (al-muntaha). Mim designa Muhammad, termo último da existência, em quem o ciclo existencial se cumpre e se liga ao seu começo” (1/13).
A função de Gabriel aparece assim em toda sua dimensão cósmica; pois Gabriel não é apenas o mestre de todos os anjos (1/18), o “rei dos reis dos espíritos” (1/605), ele é a Essência com seu Atributo de Ciência (1/421). E constata-se, por outro lado, que o grau ontológico atribuído por Qashani ao Intelecto Agente é realmente o primeiro depois da Essência divina, diferentemente, por exemplo, da cosmologia de Farabi ou de Avicena, em que ele ocupa apenas o décimo lugar na ordem das “emanações”.
Por outro lado, importa sublinhar a estrutura mesma da processão das “descidas” na cosmologia sufista. Cada nível de existência contém, com efeito, simultaneamente dois aspectos: um aspecto passivo e “feminino” — em relação ao grau superior — e um aspecto ativo e “masculino” — em relação ao grau inferior.
Resultará, portanto, um duplo aspecto, uma bipolaridade no nível de cada um dos “mundos” da cosmologia espiritual sufista. Assim, o Espírito Primeiro é passivo e “feminino” em relação à Essência divina, mas ativo e “masculino” em relação à Alma Universal. Sob o primeiro aspecto, Qashani falará da Mãe do Livro ou da Tábua do Decreto; sob o segundo aspecto, será questão do Cálamo ou do Intelecto Agente. Essa estrutura bipolar, fundamental para a compreensão da cosmologia descrita por Qashani, reencontra-se em todos os níveis espirituais ou materiais da existência.