Études Traditionnelles Ano 85 N. 485 (1984)
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O Príncipe do Erro
- A chave vedântica para o problema dos anjos caídos é a doutrina dos gunas, as três tendências: sattwa (ascendente), rajas (expansiva) e tamas (descendente).
- Na oração canônica do Islã, os gunas são designados, respectivamente, por aqueles que seguem o "caminho ascendente" e "beneficiam de seus benefícios", "aqueles sobre quem está tua cólera" e os "extraviados".
- A tradição judaico-cristã oferece um equivalente nos relatos da queda dos anjos, onde "anjos viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram delas para esposa" (Gênesis VI, 2).
- O relato detalhado dessa queda por "mésalliance" (união imprópria) se encontra no livro apócrifo de Enoque (VII).
- Outra versão da queda, encontrada no Alcorão e nas tradições judaicas e cristãs (e nos livros Adam e Eva), é a de que Satanás (um anjo) e outros anjos foram expulsos do céu por terem se recusado a adorar Adão.
- A paixão (rajas) dos anjos se desdobra no ramo horizontal da cruz, enquanto a oposição (tamas) de Satanás se coloca no eixo vertical descendente.
- É o erro segundo tamas, o erro fundamental de direção, que é o erro irreversível e mortal.
- Satanás pode, a justo título, ser nomeado "Príncipe do erro".
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O Papel de Satanás nas Escrituras
- No Antigo Testamento, Satanás é pouco nomeado, sendo mencionado na quarta visão de Zacarias (Za. III) como o "satan" que se punha à direita de Josué para acusá-lo.
- Em Crônicas (L, XXI), é dito que "Satanás se levantou contra Israel e incitou David a denominar Israel".
- Satanás também acusa Jó (Jó, I) de não louvar a Deus senão pelos benefícios que d'Ele recebe.
- A permissão que o Senhor concede a Satanás para pôr à prova a fidelidade de seu servidor é de grande importância, pois seria contraditório na perspectiva monoteísta que Satanás pudesse agir inteiramente por si mesmo.
- No caso de David, a origem da falta é em última análise atribuída a Deus, pois, segundo Samuel (2º livro XXIV, 1), "A cólera do Senhor se inflamou contra os Israelitas e Ele excitou David contra eles.
- A literatura israelita ampliou o papel de Satanás, responsabilizando-o pela queda de Adão e pela incitação de Abraão a sacrificar seu filho.
- A origem da atividade satânica é explicada pela recusa de Satanás em se prostrar diante de Adão, recusa que foi contagiosa e imitada por outros anjos que caíram depois dele.
- A multiplicidade de anjos caídos (um número variável) serve para exprimir uma hierarquia (com Satanás como chefe) ou uma variedade funcional inexaurível.
- Esta multiplicidade se explica pelo fato de que as entidades ou os estados em questão estão além do número, cujo domínio próprio é limitado ao mundo corpóreo.
- Satanás age com a permissão do Eterno, sendo o "adversário" (Satan) não apenas do homem, mas também de Deus, induzindo o homem ao erro para desviá-lo do Único Verdadeiro e Real.
- Segundo a tradição judaica (Baba bathra, 16 a), "Satanás, yetser hara (o 'mau pendor') e o anjo da morte não fazem senão um".
- Deus criou o bom e o mau pendor do homem, concedendo-lhe o livre arbítrio para escolher, de modo que a função negativa de Satanás acaba sendo benéfica ao chamar o homem a negar a negação de Deus.
- As palavras de Mefistófeles no Fausto de Goethe, "Eu sou o espírito que sempre diz não... tudo o que vocês chamam pecado, destruição, enfim, o mal, é meu elemento vital", mostram a ambiguidade do mal personificado.
- A tradição judaica afirma que Deus concedeu uma vontade relativamente livre a certas categorias de anjos, entre os quais aquele que se tornou Satanás, e é em virtude dessa liberdade que alguns puderam "cair".
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Satanás no Cristianismo e no Islã
- Satanás desconhece a realidade intrínseca de Adão e Jó, e também a do Cristo, como provam suas três tentativas de sedução.
- No Novo Testamento, o papel de Satanás é ampliado, apresentando-se como adversário direto do Cristo, e a vitória sobre Satanás é um aspecto muito importante da missão do Salvador.
- Essa oposição direta não gera um dualismo irredutível, sendo a vitória de Deus assegurada desde o começo do combate em virtude da incomensurabilidade entre o Criador e as criaturas.
- A segurança dos cristãos deu margem a que, no final da Idade Média, o diabo fosse frequentemente representado como uma figura cômica nos "mistérios da Paixão".
- A cena da descida aos infernos nos mistérios da Paixão (com os diabos se regozijando com a chegada do Cristo) tornou-se tão burlesca que as representações tiveram de ser afastadas das igrejas e levadas para as praças públicas.
- O final da Idade Média, com a onda de "diabices" e os julgamentos de bruxas e hereges (que exigiam a morte de milhares de vítimas), foi um cruel despertar.
- Os contos populares, com seu diabo inofensivo, contêm a verdade de que, em suas lutas contra os homens de Deus, Satanás é sempre, no fim das contas, o enganador.
- Ao incitar Judas a trair Jesus, Satanás, acreditando que poderia matá-Lo, causa, pela crucificação, a salvação da cristandade e, pela descida aos infernos, sua própria perdição.
- Nos contos, Satanás é sempre enganado (recebendo um lobo ou uma cabra em vez da primeira alma prometida) ao construir uma igreja ou uma ponte, enquanto ele próprio cumpre seus contratos.
- No Cristianismo, Satanás aparece sob formas muito diversas em resposta ao Deus-feito-homem (bode, Pã, sátiro, dragão, anjo, gato, etc.), podendo tomar todas as formas, exceto a da Virgem Santa.
- A Virgem é aquela que o combate vitoriosamente e a quem ele teme particularmente.
- A história de Satanás (Iblis) no Alcorão relata que Deus ordenou aos anjos que se prostrassem diante de Adão (cuja superioridade vem de Deus ter-lhe ensinado todos os nomes), e Iblis recusou-se por orgulho e incredulidade.
- Iblis argumenta: "Eu sou melhor que ele. Tu me criaste de fogo e tu o criaste de argila".
- Ao ser expulso, Iblis pede um prazo e promete: "Por causa da aberração que tu puseste em mim, eu os espreitarei em tua via reta, depois eu os assediarei, pela frente e por trás, à sua esquerda e à sua direita. Tu não encontrarás na maioria deles, nenhuma gratidão".
- Segundo um hadith, nenhuma criança nasce sem ser tocada pelo Demônio no momento do nascimento, com exceção de Maria e seu filho.
- Cada muçulmano tem seu demônio, e o Profeta conseguiu converter o seu ao Islã (o que significa que era apenas um djinn mais ou menos malfeitor).
- O muçulmano toma refúgio "junto de Deus, contra o Satanás lapidável" (fórmula corânica) e se protege com fórmulas apropriadas, reduzindo consideravelmente o papel do exorcismo.
- O Islã não apresenta Satanás como adversário direto de Deus, e a ênfase é colocada no papel de Satanás como adversário do homem.
- Ghazali, citando a surata XIII, 3, comenta: "Ele criou os anjos e os demônios, e Ele mesmo está além de toda dualidade".
- O combate entre o anjo e o demônio se torna particularmente intenso e decisivo quando o homem está morrendo.
- Enquanto a maioria das autoridades muçulmanas condena a recusa de Iblis em se prostrar, uma minoria considera que ele agiu como um monoteísta perfeito ao recusar-se a inclinar-se diante de outro que não Deus.
- O Judaísmo e o Cristianismo veem Satanás como um anjo (pinturas primitivas o representam com o nimbo), mas o Alcorão o coloca entre os djinns.
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A Natureza do Erro Satânico
- A causa da queda de Satanás é a unanimidade: é o orgulho e a inveja que causam sua expulsão do paraíso.
- Segundo um provérbio alemão, "a tolice e o orgulho provêm do mesmo tronco" (Dummheit und Stolz wachsen am gleichen Holz), significando que o orgulho denota sempre uma ignorância fundamental.
- Nem todo erro é satânico ("errare humanum est"), mas é certamente satânica a perseverança no erro (diabolicum est segundo Agostinho).
- Somente o erro tamasico é satânico, aquele que exprime uma tendência invencível para o baixo, uma inversão hierárquica, ou uma subversão.
- O Anticristo (personificação do Satanás) é representado como caolho pelas três religiões, o que significa que ele só pode ver o aspecto finito das coisas.
- Ao desconhecer as condições do califado de Deus, Satanás rejeita a servidão implícita nessa dignidade e comporta-se como se fosse autônomo, tornando-se o "macaco de Deus" e seu reino a paródia.
- Satanás é, no fundo, o "eu que se toma pelo Soi".
- A lenda de Salomão (que aprisionou Iblis) ilustra que o mal é um elemento necessário da harmonia total, pois o mundo foi ameaçado pela fome com o vazio do bazar.
- Apesar de ser um elemento necessário, o erro de Satanás é mortal e ele é um adversário obstinado.