Skip to main content
id da página: 278 Philippe de Suarez Gnose

Philippe de Suarez Gnose

Evangelho de Tomé – Philippe de Suarez


SUAREZ, Philippe de (ORG.). L’Évangile selon Thomas. Marsanne: Métanoïa, 1974

Quando tentamos fazer um balanço da literatura já considerável que o Evangelho de Tomé gerou, constatamos que o qualificativo de gnóstico volta muito frequentemente, mas não podemos deixar de nos surpreendermos com a imprecisão que este termo cobre na caneta dos críticos. Segue-se que a acepção habitualmente pejorativa que lhe é reservada é de natureza a desviar o leitor não avisado.

A verdadeira gnose foi muitas vezes confundida com as correntes de seitas particulares com ideias que nos parecem muitas vezes barrocas. Os manuscritos de Nag Hammadi trazem uma contribuição extremamente importante para o estudo da gnose cuja documentação tinha permanecido, até esta descoberta, singularmente pobre devido às destruições operadas pelos adversários dos gnósticos.

O aprofundamento dos grandes ensinamentos do Oriente facilita, por outro lado, o estudo deste importante corrente ideológica, despindo-o de seus traços secundários. As constantes universais que a metafísica tradicional nos permite extrair, iluminam de uma nova luz o ensinamento da gnose. Não devemos esquecer que se ela floresceu graças aos seus contatos com o evangelho, ela não está de modo algum ligada ao cristianismo nem aliás a uma outra religião.

Inscrita numa grande corrente de pensamento, não deixou os Gregos em si mesmos estranhos, cansados por séculos de racionalismo. Neles também a razão se revelou insuficiente para responder a certas perguntas fundamentais. Chegámos a repudiar a dialética e a aceitar a primazia dos ensinamentos orientais. Mas quem foram os primeiros iniciadores? Quando nos viramos para o lado do Egito, nos damos conta da prodigiosa fascinação que a civilização dos Faraós exerceu sobre os sábios da Grécia: Solon, Tales de Mileto, Democrito, Pitágoras, Platão, foram viver no Egito e se vangloriaram de dever a ele a maior parte de seus saberes.

Rotular globalmente a gnose de heresia, é confundir o melhor e o pior. Se os escritos de Nag Hammadi são de valor desigual, já se depreende, enquanto se espera que seja traduzido e analisado o conjunto dos textos desta importante biblioteca, que o Evangelho da Verdade revela uma grande elevação de pensamento e que a Epístola de Eugnoste nos coloca de imediato no plano da metafísica.

Não podemos deixar de pensar no que a gnose teria se tornado se o governo da Igreja não tivesse utilizado meios questionáveis como a delação, as perseguições, a destruição sistemática dos livros, para combater os ensinamentos gnósticos.

Dizer que o Evangelho de Tomé tem a marca de influências gnósticas porque certos logia que não encontramos nos canônicos têm um caráter hermético, é contentar-se com uma explicação simplista. É provável, por outro lado, que os redatores dos sinóticos e de João tenham deixado de lado as palavras de Jesus demasiado difíceis de compreender. Aliás, a coloração gnóstica que vários exegetas quiseram ver no Evangelho de Tomé não explica o caráter arcaico dos logia em relação aos canônicos. Tudo leva a crer, e os exemplos que damos nos comentários da sinopse o atestam, que os redatores dos canônicos fizeram uma escolha entre as palavras de Jesus que deviam circular na origem da Igreja, em função da doutrina de Paulo e da crença na iminência do fim dos tempos. Além disso o acervo de logia que constitui o Evangelho de Tomé não é único. Ele deu lugar a variantes cuja existência é atestada pelas citações feitas por autores antigos.

Possuíamos, em particular, provenientes de Oxyrhynchus, cidade helênica do Médio Egito, três pedaços de manuscritos escritos em grego e encontrados um em 1897 e os outros dois em 1903. Estavam os três tão mutilados que o conjunto dos especialistas não conseguiu situá-los. Mas o Evangelho de Tomé trouxe uma revelação inesperada. Os textos gregos mutilados provinham cada um de um acervo de logia oferecendo uma semelhança impressionante com o Acervo copta. Estávamos então diante de três testemunhos do nosso Evangelho de Tomé, descobertos igualmente no Egito. Ora, se admitimos com certos comentadores que a versão intermediária do Evangelho de Mateus foi redigida em Alexandria e que ela recorre a um acervo de logia semelhante senão idêntico ao de Nag Hammadi, nos apercebemos que a "Fuga para o Egito" de Jesus terá sido fértil em eventos sobre os quais a luz só agora começa a se fazer.