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id da página: 7586 Raimon Panikkar – O Ritmo do Ser – O que são Questões Últimas? Raimon Panikkar

Panikkar Quaestiones Ultimae

Raimon Panikkar – O Ritmo do Ser

PANIKKAR, Raimundo. The rhythm of being: the unbroken trinity: The Gifford Lectures Edinburgh University. Maryknoll, New York: Orbis Books, 2013

2. O que é uma Questão Última?

  • Desde os primeiros impulsos da humanidade, uma preocupação fundamental tem sido: Do que se trata tudo isto? Ou, de forma mais concreta: Qual é o significado da vida?, escondendo-se nesta questão uma dúvida dupla: a primeira é se a vida deve ter um significado, e, por detrás desta, a dúvida mais profunda se a própria questão e a busca de significado – ou de qualquer coisa que faça sentido da realidade e das nossas vidas – não é em si mesma uma busca sem sentido e, em última análise, contraproducente, talvez o próprio método de inquérito esteja errado, talvez não devêssemos procurar, muito menos questionar, mas permitir-nos ser procurados e questionados – uma atitude muito mais feminina.
  • A vida tem um significado? Bem poderia ser que a falta de significado fosse o único "significado", e a busca por qualquer outra coisa fosse uma tentação fatal, sendo o horizonte do niilismo, que parece ser um tema recorrente do taoismo, budismo e cristianismo a Nietzsche, Sartre e Heidegger, bem uma constante humana, e provavelmente o pano de fundo para a questão especificamente humana que distingue o Homem de ser apenas uma espécie de um género animal.
  • Questões como: O que é a realidade? O que é o Homem? O que é Deus?... todas assumem que há "algo" pressuposto em cada questão, sendo a questão última aquela questão para além da qual não há mais "nada" a perguntar – que não questiona a si mesma, e para num isso sem um porquê que exija mais interrogatório.
  • Parecem haver três atitudes aqui: (a) A agnóstica, pois, como não podemos responder à questão sobre o significado último da vida, da realidade, ou qualquer nome que se escolha, cultivamos uma indiferença não desapegada e vivemos sem escrúpulos metafísicos – embora muitas vezes com mais problemas físicos; (b) A pragmática, pois, como a interrogação é demasiado avassaladora para o indivíduo, confia-se mais ou menos tentativamente nas respostas das tradições respectivas com as quais se está mais familiarizado, ou que parecem mais convincentes; (c) A filosófica, pois, como o Homem parece ser um ser questionador, devemos proceder mais além na investigação deste caráter humano.
  • Significativamente, todas as três atitudes têm de parar nalgum lugar, têm de tomar algo como garantido com ou sem uma fundamentação explícita, o que equivale a dizer que o último deve ser sempre um mito, pois o mito aparece inquestionável simplesmente porque é inquestionado, e, se algo fosse aceite como inquestionável devido a alguma necessidade interna, esta própria necessidade (transparência ou evidência) convencer-nos-ia de que não há necessidade de questionar mais, o que seria o mito.
  • A diferença entre o inquestionado e o inquestionável é óbvia, pois algo é inquestionável quando vemos a "razão" pela qual não precisamos de o questionar mais, é evidente, transparente, claro, autoluminoso, dá razão de si mesmo – não pode ser questionado, é o nosso mito, mas todos tivemos a experiência surpreendente de que o que parecia inquestionável para alguns não aparecia assim para outros, e, mais importante, qualquer inquestionabilidade está "baseada" na absolutização da última instância na qual a fundamentamos, seja Deus, a experiência, a razão ou a lógica..., no entanto, a consciência de estabelecer qualquer coisa como um absoluto imediatamente a relativiza, ou seja, o inquestionável também tem pressupostos, não é absoluto; é apenas inquestionável quad nos, para "nós".
  • O inquestionado também deixa de o ser quando aparece à nossa consciência como inquestionado, sendo o estatuto do inquestionado sempre o passado – e secundariamente o futuro, pois a simples afirmação "é inquestionado" tem toda a vulnerabilidade de uma frase factual e contingente; permanece inquestionado até que de facto alguém o questione – mesmo que esse alguém sejamos nós mesmos, não podendo reprimir o porquê se algo amanhece na nossa consciência como inquestionado.
  • Em qualquer caso, temos de confiar na linguagem, como Plotino ironicamente coloca: "Deve chegar-se a um acordo com os nomes" ("temos de ser pacientes com a linguagem"), tendo de usar palavras de maneira imprópria (ἀκρίβεια), pois a linguagem condiciona o nosso pensamento, e muitas línguas usam o verbo "ser" para perguntar sobre qualquer que seja a questão considerada fundamental, sendo, neste universo do discurso, a questão do Ser a questão fundamental, não o que "é" o Ser, ou o que "existe", nem mesmo o que "existe" ou o que vive, mas o que é é? O que ou quem é é?
  • Ao perguntar sobre o Ser, devíamos estar a perguntar sobre o é, o és e o sou, uma questão que deve incluir todos os tempos e pronomes do verbo, sendo relevante mencionar o problema apresentado pelas muitas línguas que não têm o verbo "ser", pois há de facto equivalentes homeomórficos: existir, estar presente, ser real, efetivo, vivo, etc., bastando mencioná-lo para nos tornarmos conscientes da relatividade das nossas línguas e formas de pensar, não podendo evitar mencionar aqui incidentalmente, mas não acidentalmente, um dos maiores genocídios do século XX: o genocídio linguístico, com mais de cinco mil línguas a desaparecerem nos últimos cem anos, sendo o "Destino do Ser" apenas as nossas formas de falar e pensar.
  • Fazemos perguntas porque não chegámos ao último, sendo as perguntas sempre penúltimas, pois o último é aquilo que não levanta qualquer questão, não tem porquê, é uma inocência suprema – o que chamei a "nova inocência", pois o porquê desencadeia o conhecimento do bem e do mal, mas a inocência perde-se, e, uma vez que começamos a perguntar porquê, não há fim para isso, não podendo parar o fluxo dos porquês, pois a série de "porquês" não para por si mesma, e o questionador nunca é totalmente questionado na questão, pois, se o questionador fosse totalmente questionado na questão, essa questão destruiria o questionador.
  • Quaestio mihi factus sum, disse um Pai da civilização ocidental, havendo sempre necessidade do caso oblíquo porque não podemos questionar-nos sem a divisão entre um sujeito e um predicado, pois mesmo a consciência de uma questão implica a consciência de que alguém (o sujeito) está a perguntar algo (o possível predicado), sendo o máximo que podemos fazer perguntar sobre nós mesmos, Ko’ham, quem sou eu? Aham-brahman, responde o Upanishad – mas brahman não coloca nem responde à questão, e o vedānta acrescenta que não pode ser autoconsciente, caso contrário seria consciência-de (si mesmo) e não pura consciência.
  • No nosso mundo "sublunar", assumamos que a nossa questão "última" é a questão sobre a realidade, referindo-me a três formulações tradicionais: O que (isso) é o Ser? O que ou quem és (tu) Deus? Quem sou (eu)?, pois a questão sobre a realidade implica a consciência de que nós e a nossa questão também fazem parte da realidade, e também inclui a consciência de que não estaríamos a perguntar se essa realidade não estivesse, de uma forma ou de outra, a eliciar esta mesma questão de nós, e, além disso, esta mesma consciência também está consciente, embora de forma obscura e oblíqua, de que a consciência não é tudo o que existe, primeiro, porque temos consciência de que a nossa consciência não é infinita, sendo assim limitada, e, sendo limitada, de que pode haver coisas reais fora ou para além do nosso campo de consciência, e, segundo, porque todo o campo do Ser não coincide necessariamente com o campo da consciência, a menos que a priori identifiquemos os dois campos, o que é o que o idealismo faz, pois a realidade não precisa de ser "reduzida" apenas àquilo de que qualquer consciência possa estar consciente.
  • Aqui está o poder da religião teísta, que diz que há "Algo" em que todas as questões param e todas as respostas se dissolvem, dizendo Abhinavagupta: "Mesmo que Ele (Śiva) seja suposto estar obstruído por uma cobertura (por exemplo, māyā), Ele ainda brilha pela Sua liberdade na forma dessa própria cobertura", podendo detetar-se um eco de um Upanishad: "O rosto da verdade está coberto por um vaso de ouro. Descobre-o, ó Senhor, para que eu que amo a verdade possa ver".
  • Não há questões absolutamente últimas – porque qualquer questão repousa em pressupostos (relativos), havendo apenas respostas provisórias a tudo o que é perguntado, e, embora este longo excursus tenha sido necessário, deixa-nos em terreno instável.