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id da página: 9898 Paixão|PAIXÃO JOÃO

Paixão João

PAIXÃO SEGUNDO JOÃO


Joaquim Carreira das Neves: Excertos de "Escritos de São João"

Já foi dito que a narrativa da paixão e morte de Jesus, no quarto evangelho, segue de perto a mesma narrativa dos Sinópticos, tanto no tempo como no espaço, na geografia física como na geografia humana:

  • prisão de Jesus (18,1-11),
  • apresentação diante de Anás (18,12-14),
  • primeira negação de Pedro (18, 15-18),
  • interrogatório de Anás (18, 19-24),
  • segunda negação de Pedro (18, 25-27),
  • julgamento por Pilatos (18, 1-19, 16),
  • crucifixão (19, 17-37),
  • morte (19,28-37),
  • sepultura (19,38-42).


Mas esta sequência narrativa, em relação aos Sinópticos, como veremos, é mais aparente do que real.

Defendemos a tese de que a narrativa da paixão, morte e ressurreição foi a primeira das narrativas invocada pelos discípulos-apóstolos. Antes de se anunciar o Jesus do Reino de Deus (Sinópticos), através de parábolas, milagres, pequenos discursos, anunciou-se o Jesus do mistério pascal. Aquele Jesus, profeta de Nazaré, morto numa cruz, não acabou no túmulo nem numa simples memória de homem extraordinário, fiel a Deus e a si mesmo. Os discípulos descobriram, guiados por Deus e pelas Escrituras, que a ação daquele profeta de Nazaré correspondia ao desígnio final de Deus e, assim sendo, que naquela Cruz não estava o fim mas o princípio.

Iremos descobrir que o quarto evangelho não repete apenas os três Sinópticos. E o sinal maior de que assim é reside no facto de a paixão, nos Sinópticos, abrir com a ceia "pascal" e "eucarística", ao contrário do que já vimos no quarto evangelho. Também já percebemos, ao longo do estudo da primeira parte do evangelho (1-12), do estudo do cap. 13 sobre a "ceia de despedida" e dos discursos de Adeus (cc. 14-17), que todo o evangelho se orienta para a "hora" maior da PAIXÃO (2, 4; 7, 6. 30; 8, 20; 13, 1; 17, 1). O relógio das "horas" de Jesus para o seu ponteiro na exclamação-revelação do Crucificado: "[Tudo] está consumado: tetelestai"! (19,30b). Assim se compreende também que a Paixão seja "glória" (2, 22; 7, 39; 12,16. 28; 17,1. 5. 24), que o Crucifixado seja o Exaltado (3,14,8,28; 12,32-33), que o Espírito só será derramado quando Jesus for glorificado (7,39), que todos serão atraídos por Jesus através da Cruz (13, 32). A paixão é o clímax da revelação do amor do Pai pelo Filho e vice-versa e da revelação do amor dos discípulos entre si.

Os autores continuam a perguntar se o autor do quarto evangelho conhecia a narrativa da paixão segundo os Sinópticos. Apenas podemos dizer que não sabemos. O mais natural é que conhecesse a narrativa através da tradição oral e não escrita. De qualquer maneira, ao estudarmos as várias narrativas da paixão, devemos comparar sempre o quarto evangelho com os Sinópticos. Diríamos que nas narrativas próprias de João reside a mensagem do seu evangelho.

Ao contrário da estrutura literária de muitas unidades do quarto evangelho, é relativamente fácil dispor das unidades literárias da paixão (cenas da paixão), como já expusemos no princípio. Muitos autores não distinguem as quatro unidades fornecidas pelas duas cenas de Jesus diante de Anás (18, 12-14 e 18, 19-24) e as duas cenas da negação de Pedro (18, 15-18 e 18, 25-27). De facto, trata-se mais dum dispositivo literário do que de cenas separadas.

A macro-narrativa da paixão está enquadrada pela mesma afirmação do espaço, no princípio, em 18,1 e, no fim, em 19, 41 (bis): èn kèpos: um horto (jardim). Esta constatação de espaço-lugar vai ter importância para a compreensão da mesma paixão a nível teológico: Jesus encontra-se com os seus "inimigos" num horto-jardim e reencontra-se, embora morto, com os seus "novos amigos", num horto-jardim.