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id da página: 8668 PADRES DO DESERTO ACÍDIA

Padres Acídia


Excertos de A SABEDORIA DO DESERTO — SEGUNDO GALILEA, Paulinas

Merecem atenção especial as reflexões que fizeram os monges do deserto a respeito da paixão e do demônio do “azedume”. O azedume tem importância porque não é tanto uma paixão específica, mas sim um estado de espírito que invade a consciência humana. O azedume é o tédio ou desgosto espiritual. É o vazio global e falta de propósito, aparente, que submerge a pessoa em certas etapas de seu desenvolvimento humano e espiritual, e habitualmente coincide com a maturidade da vida. Por essa razão alguns Padres chamaram ao tédio espiritual, o “demônio do meio-dia” (da vida), inspirados no salmo 91: “Sua fidelidade é escudo e couraça. Não temerás (...) a epidemia que devasta ao meio-dia.”

As elaborações que os monges do deserto fizeram do demônio do meio-dia, não só ficaram integradas na tradição mística cristã, quase sem mudanças substanciais, de tão certas que eram. Também pelo caminho da psicologia, o homem moderno descobriu e analisou a mesma experiência básica, na perspectiva de crise da maturidade. Assim, com outra linguagem, a crise do meio-dia foi tema para escritores, poetas, psicólogos e psicanalistas, conselheiros matrimoniais e também mestres espirituais.

A crise ou demônio do meio-dia se revela pouco a pouco na maturidade que segue aos primeiros ideais e realizações, as frustrações e fracassos. O homem olha para trás e lhe parece que nada fez de significativo, e que no presente não tem muito a mostrar. Não tem ânimo de começar de novo, e prefere permanecer em uma rotina que lhe causa tédio. O amor matrimonial ou de sua consagração a Deus — para o mesmo efeito — perderam o sentimento e o fervor, sobrando um vazio que a pura fidelidade parece não poder encher. Gostaria de uma vida mais interessante e reconhecida por outros, e isto parece fora de seu alcance. Perderam-se as ilusões, e um certo cinismo se acentua, o que é um dos sintomas da crise da maturidade. Profundo tédio e cansaço invadem o homem.

A sabedoria do deserto consistiu em que esses rústicos eremitas, séculos antes de as ciências contemporâneas investigarem as crises da maturidade, já as haviam analisado em seu nível mais amplo e radical: como crise e tentação global na espiritualidade. Os Padres integraram, na mística, experiências aparentemente só psicológicas, e expuseram em termos de tentação e chamada à conversão o que para os psicólogos seria apenas uma crise. Neste ponto os Padres do deserto fizeram uma das primeiras sínteses entre a psicologia e a mística.

O demônio do meio-dia é o demônio que reúne todos os demônios. É uma das tentações mais radicalmente sutis: apresenta-se, passado o primeiro entusiasmo e dinamismo do caminho espiritual, como cansaço e futilidade. A oração parece inútil e improdutiva; a prática da misericórdia fraterna parece tão longínqua como antes, encadeada aos defeitos do temperamento e do egoísmo. As paixões parecem reaparecer constantemente, sob novas formas. O espírito, cansado, insensível e opaco. A simbologia mística usou inumeráveis símbolos para expressar essa experiência clássica da maturidade humana e espiritual: a secura, a aridez, o deserto, o êxodo, a noite... Em tudo isso, a tentação fundamental consiste em ir recuperando, pouco a pouco e insensivelmente, o que foi entregue a Deus, no começo, pleno de generosidade e numa entrega total.

A terapêutica dos eremitas, e de todos os místicos, ante a tentação do meio-dia, é sempre a mesma: continuar buscando a vontade de Deus, não tanto motivados pela ilusão e pela sensibilidade, mas por uma e um amor purificados. Particularmente continuar constantes na oração, apesar da aridez e da noite: a primeira tentação do demônio do meio-dia é a de abandonar a oração, porque não somos dignos dela nesse estado de tédio e insensibilidade, ou porque Deus parece esquecido de nós e parece não nos responder. Como conta um “apoftegma” do eremita que submerso na tentação deixou a oração, para mais tarde recapacitar-se e recuperá-la, ouviu a palavra de Jesus em seu espírito enquanto orava: “Foste descuidado. Depois que voltaste a mim outra vez, viste que eu estava sempre junto de ti.”

O recurso à Palavra de Deus é a segunda terapêutica fundamental para vencer a tentação do meio-dia — e em verdade as tentações do demônio em geral. A exemplo de Cristo que expulsou o demônio com o uso reiterado da Palavra, os Padres meditavam continuamente a Bíblia, especialmente os Evangelhos, sobretudo em tempos de crise e tentação. Selecionavam e aprendiam de memória frases bíblicas adequadas às diferentes formas de sedução do demônio, usando-as como oração. O recurso à Palavra se fazia tanto mais importante, porquanto o demônio costuma servir-se da mesma Palavra para enganar e seduzir (por exemplo, as tentações de Cristo no deserto). A experiência que tinham os Padres de que a Palavra de Deus falsamente lida e interpretada é fonte de desvios e cegueiras mais sutis, e de enganosas confusões entre as trevas e a luz, os levava a meditá-la acompanhando sua oração com o espírito de discernimento que facilita a renúncia do coração.

Esta renúncia lhes parecia necessária para receber a luz da discreção de espírito e a força para vencer a tentação. Assim como haviam descoberto para cada sedução uma Palavra iluminadora, também a experiência lhes ensinava que diversas seduções se combatem melhor com certas renúncias que as neutralizam.

Sobretudo, os eremitas se davam conta de que o pior perigo do engano na tentação, e muito particularmente nas crises do demônio do meio-dia, provinha do isolamento e da tendência para discernir sozinho e enfrentar a crise somente por si. Por isso insistiam tanto na disposição de humildade, como a arma mais segura contra os enganos e seduções do mal, e, como conseqüência dela, insistiam na manifestação e abertura de consciência aos irmãos. Assim estes anacoretas, que se exilaram no deserto para buscar Deus na solidão e no silêncio, se constituíram mestres, iniciadores da arte da direção espiritual e do discernimento de espírito em fraternidade.