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Origem do Gnosticismo

Gnosticismo – ORIGEM

Ao se perguntar onde ou a partir de que tradição histórica o gnosticismo se origina, confronta-se um antigo enigma da especulação histórica: as teorias mais opostas foram formuladas no curso do tempo e ainda seguem vivas. Os primeiros Padres da Igreja e, de forma independente, Plotino puseram especial ênfase na influência de Platão e da mal-entendida filosofia helênica em um pensamento cristão que não estava ainda consolidado. Alguns eruditos modernos falaram por sua vez de uma origem helênica, babilônia, egípcia ou iraniana, assim como de todas as combinações possíveis destas entre si e com elementos judeus e cristãos. Tendo em conta que, quanto à forma de sua representação, o gnosticismo é um produto do sincretismo, cada uma destas teorias encontra um apoio nas fontes, muito embora nenhuma delas seja satisfatória considerada isoladamente; tampouco sua combinação, que faria do gnosticismo um mero mosaico destes elementos, fazendo-o perder sua essência autônoma. Não obstante, uma vez que o significado do termo “conhecimento” se libera das enganosas associações sugeridas pela tradição da filosofia clássica, a tese oriental leva vantagem sobre a helênica. Disse-se que as recentes descobertas coptas do Alto Egito (ver mais adiante, seção e) apoiam a teoria da influência de um judaísmo heterodoxo e ocultista, muito embora este juízo deva esperar a tradução do vasto corpo do material encontrado. Em qualquer caso, independentemente da ordem causa-efeito, deve-se admitir certa conexão entre o gnosticismo e os começos da Cabala. A inclinação violentamente antijudaica dos sistemas gnósticos mais importantes não é em si mesma incompatível com a origem herética judaica. Não obstante, independentemente de quem foram os primeiros gnósticos ou as principais tradições religiosas que participaram neste movimento e sofreram uma arbitrária reinterpretação, o movimento transcendeu fronteiras étnicas e sectárias, e pode-se dizer que seu princípio espiritual era novo. Na ascendência judaica do gnosticismo há tão pouco do judaísmo ortodoxo quanto na babilônia do babilônio ortodoxo, na iraniana do iraniano ortodoxo, e assim sucessivamente. Se se vê o caso como o resultado da supremacia da influência helênica, este dependerá em grande medida da importância crucial que o conceito de “conhecimento” tem neste contexto.


Uma investigação que busque as raízes de onde saíram os sistemas gnósticos deve, de acordo com a tipologia do gnosticismo exposta no primeiro capítulo, resolver primeiramente um problema fundamental de natureza metafísica que consiste em expor à luz a origem da atitude gnóstica básica: o despertar do Si-Mesmo e o sentimento de alienação gerado ao se conceber a ilusão do não Si-Mesmo. Poucos são os especialistas do gnosticismo que tentaram vislumbrar esta verdadeira raiz e, em segundo lugar, é tarefa dos estudiosos do gnosticismo, dirigidos por aquele princípio hierárquico, estabelecer os possíveis antecedentes históricos que originaram as figuras relevantes dos mitos gnósticos que expressam essa atitude. E há que se afirmar que a maior parte dos trabalhos realizados até o presente sobre as origens da religião gnóstica puseram seu acento nesta etapa secundária, com lamentável detrimento de seu princípio condutor. Por outro lado, esta forçada direção tomada pelos estudos sobre as origens do gnosticismo tem uma razoável explicação, já que a maior parte dos investigadores do gnosticismo são notáveis historiadores da religião e tanto sua metodologia, quanto seu espírito científico, os restringem a dilucidar os fatos religiosos e os processos históricos desses dados em sua mais genuína facticidade, menosprezando o sentido profundo desses fatos que é o que lhes permite patentear-se como realidades ou símbolos metafísicos.

Feita esta observação preliminar, pode-se também dizer com um recente autor sobre temas gnósticos que a maior parte das soluções dadas ao problema das origens e caracterização do gnosticismo padece de prurido de acantonamento. Efetivamente, a maior parte dos historiadores do fenômeno gnóstico veem sua origem naquele campo da religião que constitui a parcela de sua especialidade: Grécia, Pérsia, Egito, Palestina, etc.

Como os estudos sobre o gnosticismo progrediram notavelmente nestes últimos anos, nenhum autor incorre hoje, como outrora, no erro simplista de fazer surgir a doutrina gnóstica de uma exclusiva latitude espiritual. Têm-se em conta em todo sistema gnóstico seus elementos helenísticos, orientais (Pérsia, Mesopotâmia e Próximo Oriente Antigo, Síria sobretudo), judeus e cristãos e até hindus, mas se dá preponderância decisiva a algum deles.

Tendo em conta a atualização que significou para o estudo das origens do gnosticismo o Colóquio de Messina, no qual seus mais salientes concorrentes não fizeram senão sintetizar em suas comunicações a concepção sustentada em obras anteriores e aplicá-la com rica documentação a uma figura mítica determinada, pode-se classificar as diferentes posições da seguinte forma.

  • Origens cristãs
  • Origens judaicas
  • Origens helenísticas
  • Origens orientais