NOVALIS. Semences. Olivier Schefer. Paris: Éd. Allia, 2004
A obra fragmentária
Mas por que o fragmento, se só o Todo faz sentido? Por defeito, impotência ou por um golpe trágico do destino que condena os modernos a só ver o mundo pela ponta mais pequena da luneta? Assinalavelmente marcante é esta ambição de totalidade de que Novalis dá conta através de todos os seus manuscritos, e à qual dará várias denominações: anunciar uma “religião do universo visível”, seguir uma “grande ideia que deve tudo mudar”, ou ainda escrever um “romance da reconciliação” entre o Oriente e o Ocidente (que devia ser, entre outros, seu Heinrich)... A acreditar-se nele, aspira apenas à calma e à lenta germinação de seu eu (“Não quero precipitar-me, e quero cumprir lentamente uma só coisa a fim de aprender a cumprir-me a mim mesmo”, escreve a Fr. Schlegel em maio de 1797). Mas sua mente se precipita e Novalis, à evidência, ignora a “paciência do conceito” hegeliano. No entanto, a escrita dos fragmentos excede, e de longe, a simples figura de um estilo romântico, apaixonado, nervoso e hachurado. A vontade de escrever, de pensar e de obrar sob forma fragmentária não é com efeito estranha à ambição romântica de totalidade. Pois se o fragmento difere da simples nota de leitura lançada febrilmente no papel (posta em obra por Novalis em seus estudos sobre Kant e Hemsterhuis), como do aforismo autônomo, não se relaciona tampouco a uma “desconstrução” do todo, de um ódio puro e simples do sistemático. “É como fragmento, diz em seus Fragmentos logológicos, que o imperfeito aparece ainda o mais suportável — e assim este modo de comunicação é a se recomendar àquele que não está ainda pronto para o todo — e que contudo forneceu notáveis visões singulares.” O fragmento como etapa transitória, antes da plena tomada de consciência de si da totalidade? Os pensadores do sistema glorioso sem dúvida o creram. Os românticos, que nos falam a partir do “abismo incomensurável” entre a natureza e a liberdade, evocado por Kant na Crítica da faculdade de julgar, estão, por sua vez, atados ao fragmento, como se está a um mundo estilhaçado e inquietante. Fr. Schlegel não hesita em falar de um “sistema de fragmentos”, do qual os diversos apanhados aparecidos em sua revista constituem outras tantas esboços e seções. E sem dúvida, não havia melhor modo de se pensar a plenitude do caos, sobre o qual nenhum ponto de vista absoluto saberia fazer autoridade, do que multiplicar os vislumbres fragmentários.
Crise e mutilação, o fragmento é também o último anseio romântico, que catalisa todas as potências da imaginação e da vida. Com um sentimento de horror e de fascinação, Porbus e Poussin, os dois protagonistas da Obra-prima desconhecida de Balzac, descobrem no caos pictural que lhes apresenta Frenhofer, um “pé delicioso, um pé vivo”, “fragmento escapado a uma incrível, a uma lenta e progressiva destruição”. Pois o resto é totalidade, a partir do momento em que é um indivíduo orgânico. Tal o fragmento ouriço de Schlegel, microcosmo da obra cumprida, ou ainda a serpente à qual Baudelaire compara o conjunto de seus pequenos poemas em prosa, O Spleen de Paris, em sua dedicatória endereçada a Arsène Houssaye: “Retirai uma vértebra, e os dois pedaços desta fantasiosa tortuosa se juntarão sem dificuldade. Picai-a em numerosos fragmentos, e ver-se-á que cada um pode existir à parte. Na esperança de que alguns destes troncos serão bastante vivos para agradar e divertir, ousa-se dedicar a serpente inteira.” Pense-se também nesses fragmentos de mãos esculpidas por Rodin, dos quais Rilke lembra em um texto de 1903 que compõem universos vivos, sem estarem ligados a nenhum corpo.
Em sua Poética, Aristóteles estima que a beleza é comparável a um “belo animal”, medido e ordenado, que não deve ser nem extremamente pequeno nem extremamente grande. O fragmento moderno inventa-se entre estes dois polos, sendo alternativamente e paradoxalmente, o sentido (orgânico) do minúsculo e do colossal. Toda produção atual, por mais importante que seja, não é senão o fragmento de uma obra futura, tal o grupo esculpido do Laocoonte, no qual Novalis vê o “membro de uma série”, a parte de uma arte total a se inventar. Em suma, se sonham com obras microcósmicas (a vinheta, o conto), os românticos (Runge, Hugo) aspiram ao mesmo tempo a produzir uma arte ilimitada, tão vasta que nenhuma forma saberia contê-la, tal este “romance colossal da vida” no qual, escreve Novalis em seu Rascunho geral, “vive-se em grande e em pequeno”.