NOVALIS. Semences. Olivier Schefer. Paris: Éd. Allia, 2004
Comunidade e obra de arte total
A comunidade romântica dos amigos, ao mesmo tempo sonho e realidade, apresenta-se como uma das encarnações possíveis da unidade sintética dos opostos, à qual aspiravam seus representantes. Ao se darem por tarefa unir o ideal e o real no seio de uma nova comunidade, os românticos chegam a valorizar formas propícias à circulação das ideias: escrita fragmentária, diálogos, revistas, jornais, fulgurações do Witz. O objetivo é, em suma, representar o desdobramento dessa unidade no interior do campo político, ou seja, no seio de uma comunidade que Novalis queria ao mesmo tempo unitária e plural, articulando a instância monárquica (o Rei) à exigência democrática (o povo), como o dizem vários fragmentos políticos de Fé e amor. A figura romântica do gênio cristaliza por si só essa dupla aspiração. Retomando de Kant alguns traços essenciais de sua análise da produção genial (livre, original, exemplar), os românticos superam a separação que nele permanece entre o gênio artístico e o homem do comum. Para este romantismo, todo homem é potencialmente gênio, toda mente é criadora de si mesma e de seus objetos, assim todo conhecimento é profundamente poiético. Está-se, portanto, bem longe da iconografia de uma genialidade romântica reservada a uma única elite. É dizer também que o cogito romântico é infinitamente plural, que a singularidade é em si mesma universal. “Cada pessoa é o germe de um gênio infinito. Pode ser decomposta em várias pessoas, sem por isso cessar de ser uma.” Esta arte sintética do gênio, una e plural, carrega em seu seio o sonho de uma obra coletiva, embaçando as fronteiras entre as identidades fragmentadas, que está na origem da utopia estético-política do Gesamtkunstwerk (a obra de arte total) da qual Wagner afirmará que deve ser o feito de um “povo artista”. “Uma toda nova época, profetiza Friedrich Schlegel, começaria talvez nas ciências e nas artes se a simfilosofia e a simpoesia se generalizassem e se interiorizassem ao ponto de não ser mais raro ver uma obra comum elaborada por várias naturezas que se completam mutuamente.” Tendo sem dúvida em mente a aventura do Athenaeum, Novalis imaginou o desdobramento dessa utopia sob a forma efêmera e variada do jornal. “Os jornais são propriamente falando já livros feitos em comum. A escrita em sociedade é um sintoma interessante — que faz ainda pressentir um grande desenvolvimento da escrita. Talvez que um dia, se escreverá, se pensará e se agirá em massa ~ Comunidades inteiras, nações mesmas empreenderão uma obra”. Esta “globalização”, ou “massificação” da escrita, que supõe a supressão das individualidades em um grande corpo místico reunificado, não foi cumprida pelos românticos. Sua prática do fragmento deliberado indica o suficiente que o todo homogêneo e arquitetônico, o grande todo, o Hen Kai Pan, constantemente falta: a totalidade romântica apresenta-se como um caos de possíveis, uma infinidade de forças heterogêneas e móveis. Uma tal Weltanschauung supõe que seja abandonado o modelo único e a fortiori sistemático do saber, como já o anotava Antoine Berman em A prova do estrangeiro. Um fragmento tardio de Novalis sugere fortemente a necessidade da implicação mútua dos seres e dos saberes: “Nenhuma força e nenhum fenômeno da natureza podem ser explicados isoladamente — por exemplo, a gravidade. Todas as forças são o que são — por distribuições em cadeias. Uma é o que é a outra — e é modificada de forma diferente, unicamente de acordo com sua posição e sua vizinhança.” Assim, guardar-se-á de ter o romantismo pelo momento fundador, e exclusivo de outras possibilidades, de uma modernidade devotada ao culto literário de sua própria essência. Ciências, poesia, filosofia, religião, política, todos os campos do saber e da prática são aqui misturados, trocados e combinados sem descanso; modo de se desencravar a mente, enquanto se resiste ao mito heideggeriano da “pureza” do Ser e à tentação de um recolhimento da arte sobre si mesma. “Nada de mais poético, escreve Novalis em um de seus últimos fragmentos, que todas as passagens e as misturas heterogêneas.”