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Neti Neti


AUROUX, Sylvain. Les Notions philosophiques. Paris: PUF, 1990

NETI NETI (« não assim, não assim »)

Sk.

Fórmula composta da partícula negativa na e do advérbio iti.

Fórmula apofática, que retorna como uma ladainha no momento de celebrar o atman, o Si, na mais antiga das Upanishad védicas, a Brihad Aranyaka Upanishad. Isso, para fazer entender que nada pode ser atribuído ao atman, que não se pode nem qualificá-lo nem defini-lo, em suma, que nada se pode dizer dele, a não ser de forma negativa: a saber, que ele é insondável (a-grhya), indestrutível (a-sirya), sem apego (a-sahga), sem laço (a-sita), que nada o abala, nada o fere (na vyathate na risyati): B.a. Up., III, 9, 26.

O neti neti da B a. Up. permanecerá um tema fundamental do Advaita vedanta tanto escritural quanto filosófico. Está na origem de vários desenvolvimentos das Upanishad vedicas posteriores, por exemplo Katha-Upanishad, II, 18, Mundaka-Upanishad, I, 1, 6, Isha-Upanishad, V-VII. A própria fórmula neti neti é citada por Gaudapada em suas Karika (III, 26) para a Mandukya-Upanishad; glosada por Badarayana nos Brahma-sutra, III, 2, 22. Por sua vez, o ilustre Sankara, nos séculos VIII-IX, comentando esta passagem dos Brahma-sutra, examina sistematicamente as diversas interpretações possíveis de neti neti. Além deste comentário pontual, a fórmula continua a inspirar toda a vertente apofática de sua ontologia.

Sankara constata, de fato, desde o início de seu Comentário (I, 1), que a vida cotidiana não existe sem uma dupla sobreposição: das propriedades do objeto ao sujeito, ou seja, da segunda pessoa, o outro (o tu), à primeira pessoa (o eu), o que nos constitui como encarnado — e inversamente sobreposição das propriedades do sujeito ao objeto, o que constitui o outro. Ora, aqueles que renunciam ao mundo visam a se libertar desta dupla sobreposição, e em particular a descontaminar o sujeito do que pertence aos objetos. Aplicada ao atman, a fórmula apofática neti neti precisamente não faz outra coisa senão purificá-lo de todos os predicados que se referem ao domínio dos objetos.

A consequência, claro, é que o sujeito como tal é incognoscível. E já é isso que a B.a. Up., II, 4, 14 e IV, 5, 15 proclamava: « O conhecedor, como se poderia conhecê-lo? » O atman é sem segundo (advaita), além de toda dualidade, primeiro e paradoxalmente além da dualidade sujeito-objeto. O ser não pode ser enunciado em termos de ter.

Falou-se, a este respeito, de teologia negativa. Seria mais exato dizer « autologia negativa », já que se trata do atman, do Eu, embora este em última análise não seja diferente do brahman.

Falou-se, também, de transcendência e de imanência. Mas atenção! O que é exatamente? Neti neti sublinha inquestionavelmente a transcendência gnoseológica do atman, mas isso de modo algum exclui — muito pelo contrário — sua imanência existencial, ontológica. Se hesita, na tradução, em usar a maiúscula ou a minúscula, tanto mais que o sânscrito não conhece esta distinção gráfica: eu ou Eu. De fato, o atman é os dois. A maiúscula recorda utilmente a transcendência gnoseológica, a minúscula recorda que se trata de nada mais que nós mesmos. Simone Weil entendeu bem esses dois aspectos. « Como os hindus viram, a grande dificuldade para procurar Deus, é que o levamos no centro de nós mesmos. Como ir em direção a mim? Cada passo que eu dou me leva para fora de mim. É por isso que não se pode buscar Deus » (Conhecimento sobrenatural, p. 223).

A fórmula neti neti aplicada ao atman, portanto, não significa uma transcendência ontológica, como postula um culto religioso. O mistério que ela celebra procede menos do afastamento e da separação do que de um excesso de proximidade, neti neti é o enunciado de uma imanência apofática. (Guy Bugault)