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Mitos Gregos

Mitologia Grega – Mitos


Como pode o mito configurar a cultura que manifestamente o recusa? Claríssima referência à Grécia, cuja mitologia não cessa de atrair-nos, ainda que, na maioria dos casos, só pelo lado da fantasia. Tão certo parece que na mitologia grega não se encontra o Projecto da Grécia como cultura bem determinada por mito que alguém tenha relatado. Mas, invertamos os termos de uma proposição precedente: «o plano do traçado, o que designa a cada traço cultural a sua posição, de modo a configurarem-se, todos eles, em ‘cultura’, num ou noutro tipo de relação entre ‘homem’ e ‘mundo’ — é mito». No caso grego, teríamos, pois, de contar com a existência de um mito inexpresso como tal, quer dizer, como não sendo nenhum dos que perfazem a sua mitologia; teríamos de verificar que esse, seguindo o pendor da curva de maior probabilidade, não consta do «corpus mythicum» da Grécia, porque, mesmo em estado de extrema lacunaridade ou de irremediável fragmentação, o que neste se apresenta é o mito do mundo mediterrâneo pró-helénico, não poucas vezes inabilmente traduzido em «espírito grego», enquanto aquele que mais propriamente prenunciaria a Grécia ainda nos parece que esteja oculto sob a descoordenação e a desconexão dos múltiplos e multiplamente contraditórios aspectos da cultura helénica. A Grécia que venha a descobrir-se por inesperado e imprevisível salto por cima dos marcos que assinalam as fronteiras da Grécia Renascentista, da Grécia Iluminista, da Grécia Romântica, da Grécia Neo-Humanista, pela primeira vez nos desvelará o mito da sua origem. Mas não se dê precipitadamente o salto: não me parece que a Grécia, mostre-se ela como se mostrar, quando em se nos mostrar consinta, não será ainda o «lugar» em que se desempenha o primeiro drama cultural exclusivamente humano ou o de uma Humanitas que se constitua por exclusão dos deuses. (Eudoro de Sousa, História e Mito)